A CERTEZA NAS INCERTEZAS DE MAIO

São passados quatro meses do “ano novo”, 2021, e nos sentimos como se estivéssemos

no velho ano de 2020, com todas as tribulações iniciadas em fevereiro daquele ano, que

vieram agravar a nossa situação, que já não era fácil. Maio chegou entre tantas

incertezas, impondo em nossos ombros o medo que insiste em nos assombrar. No

penúltimo dia de abril, 29, o Brasil chegou a 400 mil pessoas falecidas, resultante da

infecção pela covid 19.

 

Milhares de falecidos, mas milhões afetados por sequelas da infecção, pelo subemprego,

desemprego, pela carestia, fome e miséria. São dores por todos os lados, uma noite

escura que se espraia sem limites, fazendo-nos prisioneiros de nós mesmos e uns dos

outros. Estamos num “purgatório”, para não dizer outra coisa, sem data para terminar,

com forças arrefecidas, pois não se vislumbra o “fim do túnel” e muito menos a luz.

 

A fé esmaece, está a gotejar a caridade e a esperança, que por isso vão minguando.

Assim, como se não bastassem as doenças do corpo, ficamos enfermos na alma e no

espírito, estamos como que sonâmbulos, catatônicos, andando a esmo, apavorados

diante do medo que ocorra uma terceira onda infecciosa do “bichinho”. Lágrimas

silenciosas, às vezes escondidas, rolam a “torto e a direito”, sem “porto seguro”, sem

amparo sólido, que arrefeça a solidão.

 

No Brasil, nestes últimos quatorze meses, poucos não choraram, não perderam o sono,

não tiveram pesadelos, não se horrorizaram, não tiveram medo da “barriga roncar de

fome”, não se perguntaram como será o amanhã, diante da atrocidade do hoje, que não

viram a morte rondar o quintal da família, da vizinhança, dos amigos ou dos colegas de

trabalho. Há um cansaço, uma desilusão caminhando e lançando raízes no coração das

pessoas e nas estruturas da sociedade.

 

Há um cinismo avassalador que toma conta de boa parte das “pessoas públicas”, de toda

natureza, que como “cuidadores – pastores” do povo, se esquecem que “todos são filhos

e filhas de Deus”, e pautam as suas ações seletivamente, sem olhar para a globalidade

dos cidadãos que lhes são confiados, pela missão que operam ou deviam operar na

sociedade, sendo para isto, eleitos ou não. Alguns parecem viver e ou agir sob uma

redoma, surdos diante do grito de socorro que clama aos céus, ecoado de todos os

cantos e recantos deste Brasil.

 

Temos sinais promissores: os estudos científicos para descobrir medicamentos contra a

covid 19 e a produção e distribuição de vacinas, estas já em uso; a caridade e a

filantropia das pessoas, igrejas e organizações da sociedade civil, que socorrem os que

são privados dos meios de subsistência; a ação profissional de pessoas que se situam na

linha de frente no atendimento aos infectados, aos falecidos e nos processos de

higienização; descoberta de novo meios de organização da sociedade civil, reinventando

formas de trabalho; a redescoberta do que é essencial na vida.

 

Bom seria uma unificação dos programas de assistência social, dos governos, para criar

uma “ajuda emergencial”, um projeto de “renda mínima”, para assistir pessoas e

famílias desempregadas ou subempregadas. Os recursos para este fundo poderiam ser os

já existentes e previstos nos planejamentos governamentais, um imposto sobre as

grandes fortunas, redução salarial e de benefícios de pessoas do alto escalão do

executivo, legislativo e judiciário, nas três esferas, e redução de gastos públicos com

propaganda e marketing.

 

A certeza de maio é que não estamos sozinhos, Deus está conosco; não estamos

vencidos, mas “pelejando”; acuados, mas não derrotados. Canta a canção “Segura na

mão de Deus e vai”. Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitado caminha conosco, como

esteve com os discípulos de Emaús. Que o Divino Espírito Santo abra a nossa vida para

compreendermos e vivermos a Sagrada Escritura, luz para os nossos passos.

Procuremos o alimento da Eucaristia, pão dos sofredores. Procuremos o conforto da

amizade e sejamos solidários. Assim, não nos faltará o terno e materno amor de Nossa

Senhora, ao longo deste maio.

 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP


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