quinta-feira, 29 de outubro de 2020

{ PALAVRA DO BISPO } "CRÊS NISTO?"

“Ressurreição e vida nossa, Cristo, esperança do perdão, 
quando nos fere a dor da morte, a vós se volta o coração” 

(Laudes - Ofício dos fiéis defuntos)




Contra a natureza e em desacordo com o desígnio divino, alguns povos “convivem” com a morte por causa da má distribuição dos alimentos, dos conflitos armados, das múltiplas formas de violência, da falta de condições de saúde, do aborto e da eutanásia. A partir do segundo semestre de 2019, a pandemia provocada pela covid-19 estendeu  o espectro da morte sobre uma grande porção da humanidade, em todos os continentes.

Morrer é um ato humano, cultural e religioso, uma realidade antropológica. As pessoas, as culturas e as religiões tratam disso de modo diverso. Mesmo dentro de cada grupo humano, cultural ou religioso, a abordagem não é única, mas as diferenças convivem numa saudável, complexa e desafiante pluralidade. A “indústria” do morrer é, talvez, mais do que nunca, atuante na sociedade, seja nos modos e formas de acompanhamento, seja nos ritos e na produção de significados.

Do ponto de vista religioso, há uma “dessacralização” do morrer e dos seus ritos, consequência do pluralismo religioso, do crescimento do ateísmo ou do indiferentismo, mas também da postura sanitária, da ação da sociedade civil e dos governantes diante do ato de morrer dos cidadãos. Há um conjunto de sinais que apontam para novas formas de encarar o morrer, nem sempre marcadas pelo religioso e, algumas vezes, até à margem das religiões.

No Brasil, no mundo católico nas últimas décadas, as posturas de alguns teólogos pastoralistas, ministros ordenados e “ministros extraordinários”, imbuídos de influências filosóficas e teológicas peculiares, suscitaram novas práticas pastorais com o abandono de alguns procedimentos até então centrados na família, bem como a relativização de ações sacramentais e rituais, contribuindo para o surgimento ou fortalecimento de novas formas de lidar com o morrer na sociedade contemporânea.

A recordação dos fiéis falecidos, no dia 02 de novembro, é para nós, católicos, uma ocasião oportuna para repensar a vida e rever nossa postura diante do morrer à luz da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. “E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em nós” (Rm 8,11).

A oração pelos mortos, nas suas mais diversas formas, adquirirá a plenitude de seu sentido se partirem e concluírem na celebração da Eucaristia. “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne, entregue pela vida do mundo” (Jo 6,51). A celebração da Santa Missa alimenta a nossa esperança: “Nós, ao contrário, somos cidadãos do céu. De lá aguardamos como salvador o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará o nosso corpo, humilhado, tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso, graças ao poder que o torna capaz também de sujeitar a si todas as coisas” (Fl 3,20-21). 

Assistidos pelo Divino Espírito Santo, a decisão por um bom tempo de silêncio, nestes dias, iluminados pelos textos da Bíblia, pode nos conduzir a nós mesmos a nos reencontrarmos naquilo que somos, pessoas que vivem em Deus, no conhecimento, no amor, no seguimento e no testemunho do Divino Salvador. “O Senhor é minha luz e minha salvação; de quem terei medo? O Senhor é quem defende a minha vida; a quem temerei?” ( Sl 271).

Caro filho e querida filha, Nosso Senhor Jesus Cristo nos fala hoje: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá.  E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais.  Crês nisto?” (Jo 11,25-26).

 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP   

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