terça-feira, 24 de setembro de 2019

MISSIONARIEDADE

 
“Diante de Deus e do Cristo Jesus que vai julgar os vivos e os mortos, eu te peço com insistência, pela manifestação de Cristo e por seu reinado: PROCLAMA A PALAVRA, INSISTE OPORTUNA E INOPORTUNAMENTE, CONVENCE, REPREENDE, EXORTA, COM TODA A LONGANIMIDADE E ENSINAMENTO. De fato, vai chegar um tempo em que muitos não suportarão a sã doutrina e se cercarão de mestres conforme seus desejos, quando sentem coceira no ouvido e, desviando o ouvido da verdade, voltam para as fábulas. Tu, porém, vigia em tudo, suporta as provações, faze a obra de um evangelizador, desempenha bem o teu ministério” (2Tm 4, 1-5).

 A missão é a continuidade da obra de Nosso Senhor Jesus Cristo, realizada na força do Divino Espírito Santo: “Recebereis a força do Espírito Santo que virá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, até os confins da terra” (At 1, 8).

 As missões são modos concretos de realizar a missão: “Foi me dada toda a autoridade no céu e na terra. Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-os a observar tudo o que vos mandei. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 16-20).

 A missão é a mesma para toda a Igreja, anúncio testemunhal e presencialização do Reino de Deus em Nosso Senhor Jesus Cristo. As missões se diversificam em cada cultura e espaço, com logística diferenciada. Não se pode dissociar uma da outra, uma vez que as missões são modos concretos operacionalizados pelas igrejas para realizarem a missão que o Missionário de Deus Pai nos deixou, e para tanto nos presenteou com o Divino Espírito Santo.

 Desde que me recordo por gente, aos sete anos, tenho ouvido falar de missão e de missões. Ao longo destes 51 anos, o aumento da frequência desta fala parece ser proporcional à diminuição dos fiéis e do ânimo missionário nas nossas igrejas. Em muitas ocasiões, é uma fala cansativa, repetitiva no conteúdo e na forma, modorrenta, sem eco e com pouco retorno.

 O discurso da missão e das missões se apresenta como obrigatório e formal, não parece feito e nem ouvido com paixão; realizado sem ânimo, torna-se incapaz de animar. Venho sentindo, hoje, que a narrativa da missão e das missões é realizada num movimento de fora para dentro, como resposta a uma obediência e urgência pastoral. E essa palavra que parece não brotar do coração, não chega aos corações. A questão da missão e das missões, ao que tudo indica, não está na pauta do coração e da vida dos católicos romanos, salvo raras exceções. Por que isto acontece? Não sei e gostaria de saber a resposta.

 Há um medo, um receio, talvez em nome do “politicamente correto”, dos católicos romanos, em viverem missionariamente a sua fé, o que, consequentemente, compromete a realização da missão e das missões. Essa situação pode estar sendo determinada pela pluralidade religiosa, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, mas também pela crise da identidade católica, e, sobretudo, porque não queremos abordar, provocar e interferir na vida das pessoas que vivem na ignorância total ou parcial de Nosso Senhor Jesus Cristo e do seu evangelho de salvação.

 E não queremos interferir, seria por comodismo? Por falsa modéstia? Por não acreditar na eficácia da Palavra de Deus? Por não termos sido missionados? Por que a nossa fé se resume a atos de piedade? Por que nossa fé não é convicta, fruto de decisão e escolha? Acredito que o modo de acolher e viver a fé, entre nós católicos, está afetando a nossa disposição, confiança e ânimo na missão e nas missões. A missionariedade está vinculada ao modo como assumimos e vivemos a fé. Quanto mais pura e madura a fé, maior será a consciência e a participação na missão e nas missões.

 O empenho missionário pressupõe a vida de fé. A superação da dificuldade da missão e das missões requer trabalhar a vida de fé do fiel, começando por mim mesmo. Assim, o discurso da missão e das missões será de dentro para fora e poderá surtir os efeitos esperados, não serão palavras ao vento. O problema não está na missão e nas missões, mas na nossa vida de fé.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

NÃO ANDAR A ESMO, O ESPÍRITO SANTO CONDUZ A IGREJA



  A Diocese de São José do Rio Preto constrói o seu oitavo Plano Diocesano de Pastoral, à luz das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2019-2023. É um processo de revisão, de escuta e de prospecção, realizado sob a iluminação do Divino Espírito Santo e em unidade com a Igreja presente no Brasil.

  A imagem da casa, como lar, coloca diante dos nossos olhos a questão do amor, da paternidade e maternidade, e da fraternidade. A casa é a residência do amor, onde sendo amados, aprendemos a amar. É o espaço do aprendizado, proteção, segurança e encorajamento.

  A Igreja é também compreendida como casa, construção de Deus: “Nós somos cooperadores de Deus; e vós lavoura de Deus; construção de Deus” (1Cor 3,9). De certa forma, a casa de Deus é a Igreja, nós, o seu povo: “Quero que saibas como proceder na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e fundamento da verdade”(1Tm 3, 15). A Igreja como casa é espaço do encontro, lugar da ternura, da família, chamada a estar de portas sempre abertas.

  A Igreja como casa se estrutura sobre quatro pilares: Palavra, Pão, Caridade e Missão. Eles são imprescindíveis para que a Igreja seja sustentável. Se falta um, ou mais pilares, ocorre o desequilíbrio interno e compromete a sua presença e ação no mundo.

  “A Palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes. Penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Julga os pensamentos e as intenções do coração” (Hb 4, 12-13).  A Igreja nasce e vive da Palavra e para a Palavra. Não é uma palavra qualquer, ou uma palavra entre outras, mas a Palavra de Deus. Deus que fala pela natureza, pela história, pelos sinais dos tempos, pela tradição e pela Sagrada Escritura. 

  “Tal como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam antes de irrigar a terra, tornando-a fecunda e fazendo-a germinar, produzindo semente para quem semeia e pão para quem come, assim acontece com a minha palavra, que sai da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará tudo aquilo que decidi, realizando a missão para a qual a enviei”( Is 55, 10-11). Como extensão à acolhida da Palavra de Deus nos sacramentos e sacramentais, a Leitura Orante da Bíblia e os encontros bíblicos da Rede de Comunidades são instrumentos importantes que ajudam na escuta e discernimento da Vontade de Deus. 

  “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11,1). A Igreja nasce, vive e se desenvolve em torno do Pão, isto é, dos sacramentos, dos sacramentais, dos atos de piedade e da piedade popular, da vida de oração que brota da vida e da Palavra de Deus. Não basta celebrar os sacramentos e sacramentais, é preciso rezá-los. Não existe Igreja sem os sacramentos, pois eles são os canais ordinários, através dos quais a graça salvadora e santificadora de Deus, em Nosso Senhor Jesus Cristo, chega até nós. É preciso construir constantemente a dimensão orante da Igreja: “É preciso superar a ideia de que o agir já é uma forma de oração. Quando confundimos agir com rezar, chegamos a abreviar ou dispensar os tempos de oração e de contemplação” (DGAEIB 97). O grande mestre da oração, nunca esqueçamos, é o Divino Espírito Santo, sem Ele não rezamos bem, como devemos fazer para que ela seja agradável ao Pai (cf Gl 4,6). 

  A caridade pastoral no Povo de Deus é visualização do amor misericordioso de Deus. Ela dá consistência à nossa vida de fé, torna-a consolidada, legitima-a e confere-lhe autenticidade. A sociedade está repleta de empobrecidos física, psíquica e espiritualmente. Eles se encontram em todos os lugares. É preciso encontrá-los, vê-los, senti-los, estar com eles e dispensar-lhes o amor de Deus, no modo e na intensidade que precisam deste divino amor. O empobrecimento, fruto da injustiça e da falta de solidariedade, vai construindo novos areópagos, repletos de carentes de todo tipo, que clamam para serem vistos, ouvidos e ajudados no amor. “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos se tiverdes amor uns para com os outros”(Jo 13, 34-35). 

  “Ide pelo mundo inteiro e proclamai o Evangelho a toda a criatura! ” (Mc 16, 15). A missionariedade é inerente à vida de fé. “Deus é missão: a missão vem de Deus porque Deus é amor, diz respeito ao que Deus é e não, primeiramente, ao que Deus faz”(Guia do Mês Missionário Extraordinário – 2). Da missionariedade de Deus, nasce a missão da Igreja e as missões dos fiéis. A vivência da Palavra e a vida sacramental são nascedouro da missão e, ao mesmo tempo, alimentam e sustentam as missões.

  Um Plano Diocesano de Pastoral aponta objetivo e caminhos para alcança-lo. É um elemento que pode assegurar a unidade pastoral da Igreja Particular. Ele é elaborado na comunhão com a Igreja presente no Brasil, através das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, fruto do trabalho da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que é reelaborada a cada quatro anos.
À luz do Plano Diocesano de Pastoral, cada Paróquia é convidada a elaborar a sua programação anual. Ele também é referência para as pastorais, movimentos, associações religiosas e novas comunidades. Ninguém, e nenhum organismo eclesial pode subtrair-se de colocar-se dentro do contexto do Plano Diocesano de Pastoral.

  Que o Imaculado Coração da Bem Aventurada Virgem Maria nos ajude na fidelidade amorosa, e a um amor fiel, a seu filho e nosso irmão Nosso Senhor Jesus Cristo. Que São José de Botas, padroeiro de nossa Catedral, nos inspire a calçarmos os tênis e os bonés da missão e das missões.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP