terça-feira, 25 de junho de 2019

RHUAN – A VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES


São muitas as formas de violência, múltiplos os seus autores, incontável o número dos que são atingidos. Estranho que o ambiente familiar seja espaço onde crianças e adolescentes  são  vítimas da ação agressiva dos adultos. A partir da família, cria-se uma corrente de agressão, pois “quem bate ensina a bater”, que se espalha por outros estratos da sociedade, criando uma  cultura da violência. Ignorar ou não querer ver a violência disseminada é expressão de uma indiferença, um vírus letal para a pessoa e a sociedade.
É bem verdade que a educação, a legislação e a justiça contribuíram, e muito, para a diminuição da violência contra as crianças e adolescentes, mas ainda não é uma praga vencida. Tudo indica que há um longo caminho a percorrer para a “completa” proteção dos menores diante da ação agressiva dos familiares e “estranhos” adultos. O problema é maior do que pensamos, em número de atingidos, causa e consequências.
Há uma violência psicológica e verbal que humilha, denigre e promove uma baixíssima autoestima. Há uma violência física que vai do bater, palmadas e beliscões, até a agressões que lesam o corpo, estigmatizam a alma e carimbam o espírito. Há a máxima expressão da violência física que leva à morte. Mas há também uma sutil forma de violência que é a falta de cuidado, nem por isso menos grave, mas que se constitui numa erva daninha difícil de ser controlada.
A falta de cuidado encontra muitas expressões que vão da falta de higiene à alimentação inadequada; da delegação à creche e à escola do que é próprio da família; da falta de tempo para ouvir a não querer e ter paciência para ensinar; da ignorância dos “riscos do mundo” à indiferença do que se passa em volta dos filhos. Cuidar é uma virtude que se aprende pela repetição, desde que movida pelo amor. A missão da família é cuidar do corpo, da alma e do espírito, zelar pela pessoa integral. Cuidar apenas de uma ou duas dimensões não basta e não é suficiente. As crianças precisam “crescer em idade, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens”, de forma harmônica e equilibrada.
Há alguns dias tive contato com um grupo de adolescentes. Ao final, fiquei surpreso com três constatações, sobretudo entre as meninas: a precocidade da iniciação à vida sexual, a menção ao suicídio como possibilidade e a prática da autoagressão, através de cortes no corpo. Uma coisa é você ler sobre isso, ou ouvir estes temas em conferências de educadores e especialistas, mas bem outra é você ouvir deles mesmos os relatos. As três realidades mencionadas são sintomas de algo mais grave que assola a pessoa humana desde a mais tenra juventude.
Não vamos generalizar os problemas. Muitas famílias conseguem criar e educar bem os seus filhos, satisfazendo suas necessidades físicas, psíquicas e espirituais. Nem tudo é perfeito, lacunas sempre podem ocorrer. Mas preocupa o que captamos pelos meios de comunicação e ouvimos e presenciamos no dia a dia no contato com as pessoas. Parece-me que os atingidos pela violência são em número maior do que o constatado pelas estatísticas. E as estatísticas não captam a variedade e pluralidade da violência e as consequências que deixam nas crianças e adolescentes.
Não quero ser trágico, mas há um sinal amarelo piscando, que está sendo ignorado por boa parte da sociedade, nas suas múltiplas expressões, também pela Igreja. A mudança não virá de cima para baixo, muito embora a ação das autoridades, de todo tipo, possa ajudar, e muito, através de políticas públicas de educação, saúde e bem-estar. Creio que a ajuda fundamental, que precisa ser desenvolvida, depende da família, pois é ela a casa do amor, nela somos amados e aprendemos a amar.
Alguns poderiam objetar que a família está “doente” e precisa ser ajudada e restaurada, isto pode ser verdade, mas não a dispensa de sua missão. O pai, a mãe e os irmãos, bem como avós, tios e primos, independentemente do modo de família que constituem, são corresponsáveis uns pelos outros. Devemos viver esta corresponsabilidade não por coação legal, mas por amor. O amor é capaz de curar tudo, até mesmo o que parece ser incurável.
+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O DIVINO ESPÍRITO SANTO


O Divino Espírito Santo é uma pessoa. A Sagrada Escritura mostra que o Divino Espírito Santo se manifesta na História da Salvação em forma de pomba e de línguas de fogo. Não são poucos que confundem as formas da manifestação com o próprio Divino Espírito Santo; por isso, é preciso reafirmar que Ele não é pomba e nem fogo, mas uma pessoa. Toda pessoa é um mistério, quanto mais é mistério as pessoas divinas: Pai, Filho e Espírito Santo. Mistério não é ausência, mas excesso de razão. Na Sagrada Escritura e na Tradição, o Divino Espírito Santo é denominado de diversos modos: água, unção, fogo, nuvem, luz, selo, mão, dedo e pomba (cf Catecismo da Igreja Católica 694-701).
“O que está em Deus, ninguém o conhece senão o Espírito de Deus”(1Cor 2,11). Partindo desta afirmação, eis o que diz o Catecismo da Igreja Católica: “Ora, seu Espírito que o revela nos dá a si mesmo. Aquele que ‘falou pelos profetas’ faz-nos ouvir a Palavra do Pai. Mas ele mesmo, não o ouvimos. Só o conhecemos no movimento em que nos revela o Verbo e nos dispõe a acolhê-lo na fé. O Espírito de Verdade que nos ‘desvenda’ o Cristo ‘não fala de si mesmo’ (Jo 16,13). Tal apagamento, propriamente divino, explica por que ‘o mundo não pode acolhê-lo, porque não o vê nem o conhece’, enquanto que os que creem em Cristo o conhecem, porque ele permanece com eles (Jo 14,17).”
O Divino Espírito Santo é o educador, nos conduz à verdade. “Mas o Defensor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito” (Jo 14, 25).   “ Quando ele vier, o Espírito da Verdade, vos guiará em toda a verdade. Ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo quanto tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir” (Jo 16, 13). A verdade é uma pessoa, Nosso Senhor Jesus Cristo : “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). O Divino Espírito Santo nos conduz à verdade que é Nosso Senhor Jesus Cristo, que, por sua vez, nos revela a verdade do Pai e nos faz participantes de sua vida (cf Jo 17, 25-26). O Divino Espírito Santo nos educa na verdade, nos capacita para o discipulado, conduzindo-nos a participar da vida mesma de Deus, do mistério da Santíssima Trindade.
O Divino Espírito Santo é o nosso defensor, advogado, paráclito, consolador. A vida dos discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo não é isenta de tribulações (cf Jo 16, 33). A decisão pessoal de conhecer, amar, seguir e anunciar o Divino Salvador, implica participar do mistério da Cruz de Nosso Senhor. Nas tribulações resultantes da vida de fé, temos um defensor, um advogado, um consolador, um paráclito: o Divino Espírito Santo (cf Jo 14, 16.26; 15, 26; 16,7). Em nossa vida de união a Nosso Senhor Jesus Cristo, o Divino Espírito Santo nos consola e nos capacita e envia a consolar os que sofrem por causa da fé. Na Igreja, somos chamados a sermos paráclitos uns dos outros, pois o Divino Espírito Santo nos dá o amor e a capacidade de amar. O amor provoca êxtase e êxodo. Sinal de termos recebido o Divino Espírito Santo é amar e promover a qualquer custo a unidade da Igreja.
O Divino Espírito Santo nos santifica e nos faz testemunhas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ao recebermos o Divino Espírito Santo, no batismo e na crisma, sacramentos necessários para a nossa salvação, somos santificados e inseridos no Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo. Como membros do Povo de Deus, pela vida e pela palavra, somos testemunhas do Divino Salvador. A superação da ignorância a respeito de Nosso Senhor Jesus Cristo e do Evangelho, que atinge dois terços da humanidade, depende do nosso ânimo missionário, da nossa disponibilidade de viver como apóstolos incansáveis: “ Proclama a Palavra, insiste oportuna ou inoportunamente, convence, repreende, exorta, com toda a paciência e com a preocupação de ensinar” (2 Tm 4, 2).
O Divino Espírito Santo é o mestre da oração.  “O Espírito vem em socorro de nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis” (Rm 8, 26). Diariamente, invoquemos a presença do Divino Espírito Santo para que ilumine nossa inteligência e fortaleça nossa vontade para conhecer e escolher o bem e rejeitar o mal em nossa vida. Que Ele nos conceda a graça de seus dons: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. Que habitando em nós, nos ajude a produzir os frutos: caridade, alegria, paz, paciência, longanimidade, bondade, benignidade, mansidão, fidelidade, modéstia, continência e castidade ( cf Gl 5, 22-23).

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP