segunda-feira, 1 de abril de 2019

O CRUCIFICADO

“Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos; porque, pela vossa Santa Cruz, remistes o mundo.”
A quarentena quaresmal é um tempo bom para nos voltarmos para a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e contemplarmos o mistério de seu sofrimento, paixão e morte na cruz. A nossa vida de fé está estreitamente vinculada a Cristo Crucificado, fonte da salvação para a humanidade, o mundo e a história.
São Paulo afirma: “Cristo fez-se por nós obediente até a morte e morte de Cruz”.  “A crucifixão é um ato de obediência. Um ato de unidade. Desde aquela hora, a Cruz é o Crucificado e o Crucificado é a Cruz”. Em nenhuma grande religião a “divindade” morre na cruz por amor, isto só acontece no cristianismo: Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e homem, morre na cruz para mostrar o amor de Deus por nós. A cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo é a medida incomensurável do amor de Deus pelas criaturas.
Há um modo peculiar de unir-se a Nosso Senhor Jesus Cristo Crucificado, na quaresma, através do exercício piedoso da Via-Sacra. Através das estações do caminho sagrado, podemos percorrer no amor e na fé o roteiro da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. “Os passos dolorosos de Nosso Senhor Jesus Cristo, são os últimos passos do Salvador em sua via mortal. Importa acompanhar estes passos. Importa contemplar estes passos. Seguir estes passos. Beijar profundamente, intensamente, estes passos”.
O Crucificado é o sinal da fé, uma realidade histórica e de fé, que não deve ser supresso de nossas igrejas, capelas, espaços pastorais, das nossas casas e ambientes de trabalho. O Crucificado foi crucificado por todos e para todos, também para o mundo e a história; por isso, a sua representação, em escultura, pintura, ou de outro modo, deve ocupar todos os espaços para que nos faça elevar os olhos e o coração para a fonte da graça salvadora.
Há uma tendência de suprimir o Crucificado não só dos espaços comunitários e públicos, mas também dos espaços eclesiais. Outras vezes, em nome da ressurreição, usa-se a cruz sem o Crucificado. No entanto, para nós católicos, a cruz adquire a sua dignidade por causa do Crucificado. Sem o Crucificado, a cruz perde a sua razão de ser. “Quero bradar ao mundo o que sempre tentei esconder de mim: eu também estive lá! Eu também estive lá! Fui eu, ó meu Senhor e meu Deus, fui eu que vos preparei a Cruz: eu sou a vossa Cruz! Fui eu que vos preparei essa coroa de espinhos e esses cravos: eu sou vossa coroa de espinhos e vossos cravos! Se pareceis um leproso, a vossa lepra sou eu! ”
A contemplação do amor de Deus no Crucificado nos faz compassivos com os sofredores do nosso tempo: os que sofrem por causa da fé; o que sofrem de doença e enfermidade no corpo, na alma e no espírito; os que sofrem as violências dos outros; os que sofrem as misérias, fruto das injustiças, das guerras, da ação política, econômica e social dos que governam e dos que dominam as estruturas das sociedades. Olhados pelo Crucificado, olhamos para os sofredores. “O amor não estabelece condições, não calcula, não publica tabela de preços: ama! ” A caridade de Deus para conosco, nos leva à caridade e à comunhão com os novos crucificados, para os quais a cruz não é um madeiro, mas um modo de vida não adequado aos filhos de Deus.
A cruz do Crucificado é ocupada de um lado só, pois o outro lado é o meu espaço, para crucificar-me com Ele, morrer com Ele, para ressuscitar com Ele. Não devo temer a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, não devo fugir dela, mas ocupá-la no espaço que nos é destinado. Crucificados com Ele, sentir o seu coração ferido ainda pulsando de amor, partilhar de sua agonia, beber com ele o fel dos homens, ser perdoado e por Ele e com Ele perdoar, n’Ele e com Ele entregar o meu espírito a Deus.
Nesta quaresma vamos focar nosso olhar e coração na pessoa do Crucificado. Que o sangue jorrado do Crucificado nos purifique dos nossos pecados e restaure as nossas forças. Contemplando Nossa Senhora da Piedade, que tem o corpo morto de Nosso Senhor Jesus Cristo em seus braços, rezemos: “Agora o desconforto de ver-me nu, o corpo chagado, sem parte sã, todo arroxeado dos golpes que Lhe dei…Sim, porque Esse que repousa em vossos braços, Senhora, sou eu! Aí o meu desatino. Aí o meu pecado. O meu pecado … Deixai que vossas espadas me purifiquem, vossa dor me reconforte! E que eu volte, ó Mãe, muito embora descalço e vestido de cilício, a ser na alma o menino de outrora, o menino irmão de Jesus!”.
(As citações são de um texto de Via-Sacra, escrita por Frei Abel Correia Pinto)

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

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