terça-feira, 12 de março de 2019

O SACRAMENTO DA CONFISSÃO E A QUARESMA





O pecado é uma realidade que nos pertence enquanto construímos história no mundo, marca a nossa existência histórica do começo ao fim.  Não há pessoa humana que não experimente, em algum momento de sua vida, o pecado: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8,7). Podemos pecar contra nós mesmos, o outro, as comunidades a que pertencemos, a sociedade e contra Deus. Não poucas vezes as estruturas que sustentam as sociedades estão também permeadas pelo pecado. O pecado pode ser pessoal, comunitário, social e estrutural, mas sempre passa pelo exercício da liberdade da pessoa humana.

Se de um lado ele abunda em nós e entre nós, diminui cada vez mais a consciência pessoal, comunitária e social do pecado. Pecamos e não sabemos, ou melhor, pecamos e não queremos saber que pecamos. O pecado tornou-se habitual em nós e entre nós, cotidianidade, algo encarado como normal. Anormal tornou-se não pecar. O que é uma ferida inserida na pessoa humana pelo arbítrio humano, acaba por ser considerado uma normalidade.  

No projeto de Deus, o pecado não faz parte da natureza humana, mas ele está tão socializado e arraigado em nós, que até parece ser natural à pessoa humana. Ao perder a consciência do pecado, perdemos também a capacidade de indignação e de luta contra ele. Assim, em vez de adversários do pecado, tornamo-nos aliados do pecado, terreno fértil para a sua propagação em nós, nas comunidades de pertença, na sociedade e nas suas estruturas.

O pecado não é absoluto e irreversível, ele não tem a última palavra, há solução para superá-lo em nossa vida, através da prática da caridade, da participação na santa Missa e no sacramento da confissão. A confissão, enquanto sacramento de cura, é o caminho ordinário para obtermos o perdão dos pecados. Ao confessarmos, o pecado é vencido pelo mistério da glorificação de Nosso Senhor Jesus Cristo, através da sua morte e ressurreição. A palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitado aos apóstolos continua atual no ministério dos sacerdotes: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão retidos” ( Jo 20,22-23).

Ao experimentarmos o pecado, somos vencidos pela tentação do demônio, que se nos apresenta continuamente. Cada pecado realizado é uma queda pessoal sob o influxo do tentador. O quanto pecamos é a demonstração de quão presente o tentador se encontra próximo a nós. O pecado é sempre um ato pessoal, consciente e deliberado, que acontece quando dizemos sim à tentação. O pecado é uma demonstração da fragilidade e susceptibilidade humana diante do espírito do mal.

A confissão é um percurso espiritual que realizamos sob o influxo do Divino Espírito Santo, pois é Ele que nos ajuda e predispõe para termos consciência do pecado, que nos leva ao arrependimento, que nos faz confessá-lo, nos fortalece para a penitência correspondente e nos permite reconstruir a vida sem nos deixar cativos do domínio do tentador. Na vida do pecador arrependido que busca o perdão há sempre a precedência da ação de Deus que vai ao encontro do filho desnorteado, porém não perdido, pelo pecado cometido.

Buscar o sacramento da confissão de modo habitual não nos faz menores, não é humilhação, mas ao contrário, nos coloca no nosso “quadrado” de pecadores arrependidos, nos coloca no caminho de volta para Deus, para o outro, para as comunidades e a sociedade. Não há tempo melhor do que a quaresma para buscarmos o perdão de Deus no sacramento da confissão, pois é um tempo penitencial, de conversão.

Confessado, sou uma pessoa restaurada pela ação do Divino Espírito Santo. A graça divina, através da confissão, reconstrói em mim, nos outros, na comunidade e na sociedade, o que foi corrompido ou destruído pelo pecado. Absolvido, sou mais livre: livre para ser amado por Deus, sem barreiras; livre para amar sem empecilhos.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto.

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