quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

QUARESMA, TEMPO DE ABSTINÊNCIA




A abstinência quaresmal consiste em deixar de realizar algum ato, por quarenta dias, durante o tempo da quaresma, da quarta-feira de cinzas até a noite de quinta-feira santa, isto é, a Missa da Ceia do Senhor, exclusive, tendo como motivação uma mais intensa relação com a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, sobretudo com o mistério do seu sofrimento e morte na cruz, e unidade com aqueles que padecem no corpo, na alma e no espírito as misérias humanas e precisam de nossa caridade.

A abstinência não se identifica com o jejum, mas são realidades afins. A Igreja proclama dois dias de jejum, quarta-feira de cinzas e sexta-feira santa, para os que se encontram entre dezoito anos completos até os sessenta iniciados. Nestes dois dias, só fazemos uma refeição, almoço ou jantar, de modo frugal, sem consumo de qualquer tipo de carne, pois também são dias de abstinência de carne. Só comemos o estritamente necessário para não passarmos mal ou ficarmos enfraquecidos. Os doentes e enfermos estão isentos do jejum, mas podem, se o desejarem, fazer alguma abstinência, desde que não venha em prejuízo de sua condição de fragilidade.

À abstinência são chamados todos os que completaram quatorze anos de idade, mas devem ser formados para o “genuíno sentido da penitência também os que não estão obrigados à lei do jejum e da abstinência, em razão da pouca idade”. A quaresma é um tempo singular para a prática da abstinência, mas nada impede que ela seja realizada ao longo de todo o ano, com menos rigor aos domingos e dias santificados. A abstinência torna-se, à luz da fé e da caridade, um gesto de mortificação dos sentidos, uma atitude penitencial que clama aos céus o perdão dos nossos pecados e dos pecados da humanidade.  

O amor a Deus está intrinsecamente ligado ao amor ao próximo. O jejum e a abstinência estão estreitamente vinculados à caridade, isto é, o fruto de ambos deve ser destinado aos empobrecidos, à Igreja ou a alguma obra que se destine a fazer o bem. Jejuar e fazer abstinência sem doar o seu resultado não será obra perfeita e não atingirá o seu objetivo, que é demonstrar amor a Deus através do amor ao próximo. A caridade sublima o jejum e a penitência, oferece-lhes a cor divina, eleva-os do histórico ao transcendente, faz passar da simples renúncia à dimensão da graça.

A prática da abstinência é um exercício de disciplina que ajuda o fiel a ter o autocontrole de suas paixões e desejos, que em si não são maus, não deixando a “carne” sobrepor-se ou impor-se à psique e ao espírito. Ao fazer abstinência dizemos um não consciente e incisivo aos desejos vinculados ao olhar, ao olfato, ao paladar e à audição, em vista de um bem maior. Abster-se é silenciar percepções humanas para um aperfeiçoamento psíquico e espiritual, é dar espaço para o além do humano, para manifestações do mistério de Deus. Não é negação do humano, mas predispô-lo a abrir-se ao divino.
   
A abstinência mais comum é deixar de comer ou beber algum alimento que nos provoca um prazer ou satisfação especial. Para alguns, será abster-se de ingerir carnes, massas ou outro alimento; para outros, deixar de lado os doces, sorvetes, chocolates, refrigerantes e guloseimas. Temos aqueles que escolhem renunciar às drogas lícitas, bebidas alcoólicas e cigarros; outros ainda, dispensam composições químicas que provocam sensação de prazer. Bom seria a abstinência de todo e qualquer tipo de droga que leva à toxicodependência. Há um rol enorme de possibilidades, dependendo de cada fiel, para escolher uma abstinência como forma de penitência.

Podemos levar o nosso olhar à abstinência renunciando a manifestações do belo e às sensações que ele nos provoca: deixar de ver programas televisivos ou semelhantes, não ir ao cinema, ficar sem usar as novas mídias sociais, que são acessíveis através da internet, renunciar a tantas leituras pueris que não acrescentam nada à nossa sabedoria. Educar o olhar para ver o outro e ser compassivo com ele; saber ver e discernir os sinais dos tempos; deixar que a pureza interior se manifeste através do brilho do olhar marcado pela fé.  

Podemos levar nossos ouvidos à abstinência, deixando de ouvir música, áudios fake news, de dar atenção e ouvir o que é mal, a palavra dos ímpios. Deixando de ouvir tantas coisas, por algum tempo, ao menos, talvez assim nos tornemos sensíveis à voz e ao brado de tantas pessoas que esperam nossa atenção. Mais do que isso, talvez arrumemos tempo bom e suficiente para ouvir a Palavra e a Vontade de Deus.    

Outra alternativa é promover a abstinência do olfato, renunciando ao uso dos perfumes e cosméticos que são componentes da indústria da beleza e que muitas vezes nos levam ao consumo do supérfluo. Hoje temos milhares de produtos que ajudam na apresentação pessoal, mas a abstinência pode nos ajudar a usá-los com parcimônia, sem ferir a modéstia própria do cristão, que deve exalar o bom odor da unção batismal e crismal.

A língua pode ser mortificada, falando menos e só o necessário e o que for conveniente para promover o bem. Calar-se, em muitas situações, pode ser sabedoria; em outras, pode ser omissão. Não propagar o mal, o que denigre as pessoas, o que diz respeito à intimidade de cada ser humano. Por isso mesmo a escritura diz que é preciso dominar a língua com cabresto e freio. Quem não cala, também não escuta. Vivemos uma crise da escuta, todos querem falar e emitir suas opiniões, poucos os que se educam para ouvir. Falar sem ouvir não suscita diálogo. Sem diálogo não há comunhão, não há respeito.

A quaresma, através do jejum e da abstinência, nos chama à partilha. Não conservar o supérfluo. Repartir também o necessário. Doar nossas vestes, calçados, joias e bijuterias, e tudo mais que tenhamos, é sinal de amor a Deus e ao próximo. A caridade é nossa identidade cristã. O que acumulamos sem necessidade falta ao próximo. Se tenho pequena ou grande fortuna, por que não fazer um significativo gesto de caridade a um empobrecido ou instituição de caridade ou filantropia? Vivamos bem o tempo desta quaresma de 2019. A abstinência e o jejum podem nos ajudar a realizar este bom propósito.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

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