segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

QUARESMA E SILÊNCIO



O silêncio contribui para a saúde física, psíquica e espiritual da pessoa humana. No cristianismo, a fé não é possível sem o exercício regular do silêncio, ele é uma realidade sagrada.  Nosso Senhor Jesus Cristo, após os 30 anos de “ocultamento” em Nazaré, nos três anos de “vida pública”, em diversas circunstâncias, retirou-se em silêncio para rezar. Com a palavra e o exemplo, o Divino Salvador nos propõe o silêncio como práxis vital para a nossa “saúde integral”. A quaresma é um tempo propício para nos dedicarmos à prática do silêncio, que exige empenho de nossa parte, pois aqui não basta apenas a boa vontade. Silenciar é um hábito que se adquire.
Nossos dias são marcados por uma poluição sonora e visual, sem precedentes, que infesta todos os cantos e recantos do nosso ambiente pessoal, comunitário e social. Somos diuturnamente subjugados por “toneladas de lixo áudio – visual”, despejados sobre nós, mesmo quando não queremos. Falamos demais. Escrevemos ou teclamos em demasia. Produzimos imagens e sons excessivamente. Eu, nós, a sociedade, clamamos por silêncio, mesmo sem sabermos. O silêncio pode ser uma fonte de “salvação”.
Quebramos o silêncio ao falar e ao escutar; ao teclar e escrever; ao produzir, transmitir e receber imagens; ao elaborarmos sons das mais diversas espécies. São inumeráveis os modos que temos para não silenciar e produzirmos ruídos de toda natureza. Mesmo quando estamos quietos não significa que estejamos necessariamente em silêncio. Vivemos tumultuados, na balbúrdia. O excesso de provocações vindas do exterior não estimula e impede a interioridade. E sem interioridade não há profundidade. Sem profundidade, nos tornamos “fúteis”, caímos na “cotidianidade”, nos nivelamos por baixo.
Construímos uma “selva de ruídos e barulhos” que incomoda e leva à dispersão. Nem sempre a fala e a escrita, nas suas diversas expressões, bem como os sons e imagens, estão conectados com a realidade e a verdade. Em muitas situações elas se tornam “palavraria”, mentira, narrativas sem referência, reproduzem opiniões que evoluem no horizonte do “achismo” e da subjetividade, que se torna “a medida de todas as coisas”. Diante do silêncio, falta-nos discrição, consciência e vontade de promovê-lo.
Quebramos também o silêncio através da audição e da visão, receptoras de tantas narrativas orais e visuais falseadas, sem lastro, desnecessárias e descartáveis. Também aqui precisamos ser seletivos, para criar espaços para o necessário e o vital. Se nos enchemos do que não precisamos, faltará em nós espaço para o que nos é indispensável. Muitas confusões entre as pessoas, grupos, sociedades e nações têm a sua origem no excesso de narrativas, isto é, nas palavras orais ou escritas, e nas imagens, que hoje acabam “valendo por mil palavras”.
Vivemos em um tempo da primazia da imagem, que vai ocupando espaços que antes eram dos sons e da escrita. A imagem coloca em voga a visão, estamos construindo a “civilização da imagem”. Também a imagem, ou o uso que dela fazemos, pode provocar em nós o repúdio ao silêncio, criando uma poluição visual em âmbito pessoal, comunitário e social. Embora de modo precário, hoje você pode comunicar-se através dos “emojis”, pequenas imagens, que substituem a palavra oral e escrita.
A música, instrumental ou canto, tão rica e diversa no Brasil, pode também constituir-se num fator de ruptura do silêncio. A audição musical desenfreada, agravada pelo uso dos fones de ouvido, tem provocado doenças que comprometem a capacidade de ouvir. O que é expressão e forma do belo pode acabar por constituir-se em um mal, dependendo dos critérios que elaboramos para usá-la. O que pensar dos “pancadões”? Das músicas nos restaurantes e similares? Dos sistemas de sons instalados em alguns automóveis? Isto só para lembrar algumas situações.
O silêncio antecede a escrita, a fala, a imagem e o som. É do silêncio que nasce a autenticidade e a sanidade destas realidades. O silêncio não é negação delas, mas é a nascente que assegura a cada uma delas o sentido, a autenticidade, a utilidade e a bondade para a pessoa humana na sua vida pessoal, comunitária e social.
A morte do silêncio é um “sinal dos tempos” e assinala uma doença crônica da humanidade. Se não recuperarmos o silêncio iremos continuar morrendo afogados em bobagens que se nos apresentam como se importantes e necessárias fossem. Aproveitemos a quaresma e nos dediquemos à prática do silêncio para nossa saúde física, psíquica e espiritual. A busca do silêncio nos quarenta dias quaresmais, através da abstinência das palavras, dos sons e das imagens, pode ser um bom começo para uma nova vida que busca suas saudáveis raízes na interioridade, fonte de sentido e de verdade.
 
+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP 

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