segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O DRAMA DAS TRAGÉDIAS NO BRASIL, BRUMADINHO E RIO DE JANEIRO




O início do ano de 2019 tem sido dramático para o Brasil, com as tragédias que atingiram Brumadinho, em Minas Gerais, e das chuvas, do incêndio e chacina na cidade do Rio de Janeiro. Isto só para lembrar alguns fatos que nos levaram à comoção nestes meses de janeiro e fevereiro do ano em curso.
Ficamos atordoados com o bombardeio diário de informações e pseudo-informações, análises e opiniões, que são construídas a partir dos quatro fatos acima elencados. Não raras vezes, para um observador atento, os “dados” oferecidos pelos meios de comunicação não são objetivos, não batem, são repetidos ininterruptamente, à exaustão, como variações de um mesmo tema. Abundam narrativas e para chegar aos indícios da verdade é preciso garimpar para descartar os excessos.
A tragédia de Brumadinho deve fazer pensar se vale a pena a atividade mineradora no Brasil voltada para a exportação do produto “in natura”, com pouca ou nenhuma agregação de valor, pois depois acabamos importando os produtos derivados, já industrializados e acrescidos de novos valores. A ânsia pela exportação, a busca de saldo positivo na balança comercial, pode e deve continuar guiando a atividade mineradora no Brasil? A mesma pergunta deve ser feita em relação ao agronegócio. O dano provocado por tais atividades, e congêneres, ao homem e à natureza, compensam os dividendos recebidos pela atividade exportadora em grande escala, sem a garantia da sustentabilidade? Quem realmente é beneficiado com os lucros?
As chuvas que produziram mortes no Rio de Janeiro, o que se repete em outros lugares do Brasil, deve colocar diante das autoridades brasileiras, nos três níveis, o grave problema habitacional e a ocupação irregular das terras urbanas, com o consequente crescimento desordenado das cidades, sem planejamento a longo prazo. Ninguém vai morar “no morro” ou na margem de um rio ou córrego por que quer, mas o faz porque não possui outra alternativa. O planejamento das cidades e o processo de urbanização precisam ser pensados com acessibilidade para todos e não para alguns. Há muitos terrenos urbanos ociosos, localizados em bairros com infraestrutura, usados para a especulação imobiliária, e que deveriam e poderiam ser adquiridos pelo poder público para novos projetos habitacionais.
O esporte é um bem para a pessoa humana, de modo especial para os jovens, adolescentes e crianças. Entre nós, e também alhures, há forte “ideologização mercantilista” do futebol e da atividade esportiva em geral, como fábrica de ricos, através dos grandes times e corporações desportivas. Mas esta não é a realidade. São muitos os times e corporações endividados e grande número de jogadores e esportistas sem acesso à dinheirama propalada. Na indústria do esporte, há uma narrativa que não corresponde à realidade. A atividade esportiva deveria ser melhor acompanhada no Brasil, de modo especial o futebol, por causa de sua popularidade e das grandes cifras que movimenta, despertando “sonhos” em muitas crianças e adolescentes. Este é um segmento da sociedade brasileira que precisa do olhar e da mão do judiciário, pois parece ter se tornado terreno fértil para muitas mazelas de toda ordem, incluindo a manipulação de pessoas, a violência e negócios escusos.
Igualmente na cidade do Rio de Janeiro, de uma só vez, em uma ação em uma “comunidade”, mais de uma dezena de pessoas foram mortas violentamente. Por causa dos outros fatos, este não obteve tanta publicidade na imprensa. Mas é preocupante também esta manifestação da violência que não pode ser olvidada, mas necessita da ação das autoridades no combate ao crime e à violência, mas preservando a vida das pessoas. Pergunto: é correta a lógica de que “bandido bom é bandido morto”? O “bandido” tem que responder e “pagar” pelos seus atos, mas a sociedade não deve garantir-lhe a possiblidade da reeducação e reinserção na sociedade? Precisamos pensar melhor nestas questões e procurar políticas públicas de segurança que assegurem a todos o direito de viver bem, para que ninguém seja prisioneiro em sua própria casa.
O drama das nossas tragédias pode ser um sinal dos tempos para vislumbrarmos novos horizontes para o Brasil. Que as lágrimas e os sofrimentos de tantos brasileiros não sejam em vão.
+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP


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