quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

QUARESMA, TEMPO DE ABSTINÊNCIA




A abstinência quaresmal consiste em deixar de realizar algum ato, por quarenta dias, durante o tempo da quaresma, da quarta-feira de cinzas até a noite de quinta-feira santa, isto é, a Missa da Ceia do Senhor, exclusive, tendo como motivação uma mais intensa relação com a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, sobretudo com o mistério do seu sofrimento e morte na cruz, e unidade com aqueles que padecem no corpo, na alma e no espírito as misérias humanas e precisam de nossa caridade.

A abstinência não se identifica com o jejum, mas são realidades afins. A Igreja proclama dois dias de jejum, quarta-feira de cinzas e sexta-feira santa, para os que se encontram entre dezoito anos completos até os sessenta iniciados. Nestes dois dias, só fazemos uma refeição, almoço ou jantar, de modo frugal, sem consumo de qualquer tipo de carne, pois também são dias de abstinência de carne. Só comemos o estritamente necessário para não passarmos mal ou ficarmos enfraquecidos. Os doentes e enfermos estão isentos do jejum, mas podem, se o desejarem, fazer alguma abstinência, desde que não venha em prejuízo de sua condição de fragilidade.

À abstinência são chamados todos os que completaram quatorze anos de idade, mas devem ser formados para o “genuíno sentido da penitência também os que não estão obrigados à lei do jejum e da abstinência, em razão da pouca idade”. A quaresma é um tempo singular para a prática da abstinência, mas nada impede que ela seja realizada ao longo de todo o ano, com menos rigor aos domingos e dias santificados. A abstinência torna-se, à luz da fé e da caridade, um gesto de mortificação dos sentidos, uma atitude penitencial que clama aos céus o perdão dos nossos pecados e dos pecados da humanidade.  

O amor a Deus está intrinsecamente ligado ao amor ao próximo. O jejum e a abstinência estão estreitamente vinculados à caridade, isto é, o fruto de ambos deve ser destinado aos empobrecidos, à Igreja ou a alguma obra que se destine a fazer o bem. Jejuar e fazer abstinência sem doar o seu resultado não será obra perfeita e não atingirá o seu objetivo, que é demonstrar amor a Deus através do amor ao próximo. A caridade sublima o jejum e a penitência, oferece-lhes a cor divina, eleva-os do histórico ao transcendente, faz passar da simples renúncia à dimensão da graça.

A prática da abstinência é um exercício de disciplina que ajuda o fiel a ter o autocontrole de suas paixões e desejos, que em si não são maus, não deixando a “carne” sobrepor-se ou impor-se à psique e ao espírito. Ao fazer abstinência dizemos um não consciente e incisivo aos desejos vinculados ao olhar, ao olfato, ao paladar e à audição, em vista de um bem maior. Abster-se é silenciar percepções humanas para um aperfeiçoamento psíquico e espiritual, é dar espaço para o além do humano, para manifestações do mistério de Deus. Não é negação do humano, mas predispô-lo a abrir-se ao divino.
   
A abstinência mais comum é deixar de comer ou beber algum alimento que nos provoca um prazer ou satisfação especial. Para alguns, será abster-se de ingerir carnes, massas ou outro alimento; para outros, deixar de lado os doces, sorvetes, chocolates, refrigerantes e guloseimas. Temos aqueles que escolhem renunciar às drogas lícitas, bebidas alcoólicas e cigarros; outros ainda, dispensam composições químicas que provocam sensação de prazer. Bom seria a abstinência de todo e qualquer tipo de droga que leva à toxicodependência. Há um rol enorme de possibilidades, dependendo de cada fiel, para escolher uma abstinência como forma de penitência.

Podemos levar o nosso olhar à abstinência renunciando a manifestações do belo e às sensações que ele nos provoca: deixar de ver programas televisivos ou semelhantes, não ir ao cinema, ficar sem usar as novas mídias sociais, que são acessíveis através da internet, renunciar a tantas leituras pueris que não acrescentam nada à nossa sabedoria. Educar o olhar para ver o outro e ser compassivo com ele; saber ver e discernir os sinais dos tempos; deixar que a pureza interior se manifeste através do brilho do olhar marcado pela fé.  

Podemos levar nossos ouvidos à abstinência, deixando de ouvir música, áudios fake news, de dar atenção e ouvir o que é mal, a palavra dos ímpios. Deixando de ouvir tantas coisas, por algum tempo, ao menos, talvez assim nos tornemos sensíveis à voz e ao brado de tantas pessoas que esperam nossa atenção. Mais do que isso, talvez arrumemos tempo bom e suficiente para ouvir a Palavra e a Vontade de Deus.    

Outra alternativa é promover a abstinência do olfato, renunciando ao uso dos perfumes e cosméticos que são componentes da indústria da beleza e que muitas vezes nos levam ao consumo do supérfluo. Hoje temos milhares de produtos que ajudam na apresentação pessoal, mas a abstinência pode nos ajudar a usá-los com parcimônia, sem ferir a modéstia própria do cristão, que deve exalar o bom odor da unção batismal e crismal.

A língua pode ser mortificada, falando menos e só o necessário e o que for conveniente para promover o bem. Calar-se, em muitas situações, pode ser sabedoria; em outras, pode ser omissão. Não propagar o mal, o que denigre as pessoas, o que diz respeito à intimidade de cada ser humano. Por isso mesmo a escritura diz que é preciso dominar a língua com cabresto e freio. Quem não cala, também não escuta. Vivemos uma crise da escuta, todos querem falar e emitir suas opiniões, poucos os que se educam para ouvir. Falar sem ouvir não suscita diálogo. Sem diálogo não há comunhão, não há respeito.

A quaresma, através do jejum e da abstinência, nos chama à partilha. Não conservar o supérfluo. Repartir também o necessário. Doar nossas vestes, calçados, joias e bijuterias, e tudo mais que tenhamos, é sinal de amor a Deus e ao próximo. A caridade é nossa identidade cristã. O que acumulamos sem necessidade falta ao próximo. Se tenho pequena ou grande fortuna, por que não fazer um significativo gesto de caridade a um empobrecido ou instituição de caridade ou filantropia? Vivamos bem o tempo desta quaresma de 2019. A abstinência e o jejum podem nos ajudar a realizar este bom propósito.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

QUARESMA E SILÊNCIO



O silêncio contribui para a saúde física, psíquica e espiritual da pessoa humana. No cristianismo, a fé não é possível sem o exercício regular do silêncio, ele é uma realidade sagrada.  Nosso Senhor Jesus Cristo, após os 30 anos de “ocultamento” em Nazaré, nos três anos de “vida pública”, em diversas circunstâncias, retirou-se em silêncio para rezar. Com a palavra e o exemplo, o Divino Salvador nos propõe o silêncio como práxis vital para a nossa “saúde integral”. A quaresma é um tempo propício para nos dedicarmos à prática do silêncio, que exige empenho de nossa parte, pois aqui não basta apenas a boa vontade. Silenciar é um hábito que se adquire.
Nossos dias são marcados por uma poluição sonora e visual, sem precedentes, que infesta todos os cantos e recantos do nosso ambiente pessoal, comunitário e social. Somos diuturnamente subjugados por “toneladas de lixo áudio – visual”, despejados sobre nós, mesmo quando não queremos. Falamos demais. Escrevemos ou teclamos em demasia. Produzimos imagens e sons excessivamente. Eu, nós, a sociedade, clamamos por silêncio, mesmo sem sabermos. O silêncio pode ser uma fonte de “salvação”.
Quebramos o silêncio ao falar e ao escutar; ao teclar e escrever; ao produzir, transmitir e receber imagens; ao elaborarmos sons das mais diversas espécies. São inumeráveis os modos que temos para não silenciar e produzirmos ruídos de toda natureza. Mesmo quando estamos quietos não significa que estejamos necessariamente em silêncio. Vivemos tumultuados, na balbúrdia. O excesso de provocações vindas do exterior não estimula e impede a interioridade. E sem interioridade não há profundidade. Sem profundidade, nos tornamos “fúteis”, caímos na “cotidianidade”, nos nivelamos por baixo.
Construímos uma “selva de ruídos e barulhos” que incomoda e leva à dispersão. Nem sempre a fala e a escrita, nas suas diversas expressões, bem como os sons e imagens, estão conectados com a realidade e a verdade. Em muitas situações elas se tornam “palavraria”, mentira, narrativas sem referência, reproduzem opiniões que evoluem no horizonte do “achismo” e da subjetividade, que se torna “a medida de todas as coisas”. Diante do silêncio, falta-nos discrição, consciência e vontade de promovê-lo.
Quebramos também o silêncio através da audição e da visão, receptoras de tantas narrativas orais e visuais falseadas, sem lastro, desnecessárias e descartáveis. Também aqui precisamos ser seletivos, para criar espaços para o necessário e o vital. Se nos enchemos do que não precisamos, faltará em nós espaço para o que nos é indispensável. Muitas confusões entre as pessoas, grupos, sociedades e nações têm a sua origem no excesso de narrativas, isto é, nas palavras orais ou escritas, e nas imagens, que hoje acabam “valendo por mil palavras”.
Vivemos em um tempo da primazia da imagem, que vai ocupando espaços que antes eram dos sons e da escrita. A imagem coloca em voga a visão, estamos construindo a “civilização da imagem”. Também a imagem, ou o uso que dela fazemos, pode provocar em nós o repúdio ao silêncio, criando uma poluição visual em âmbito pessoal, comunitário e social. Embora de modo precário, hoje você pode comunicar-se através dos “emojis”, pequenas imagens, que substituem a palavra oral e escrita.
A música, instrumental ou canto, tão rica e diversa no Brasil, pode também constituir-se num fator de ruptura do silêncio. A audição musical desenfreada, agravada pelo uso dos fones de ouvido, tem provocado doenças que comprometem a capacidade de ouvir. O que é expressão e forma do belo pode acabar por constituir-se em um mal, dependendo dos critérios que elaboramos para usá-la. O que pensar dos “pancadões”? Das músicas nos restaurantes e similares? Dos sistemas de sons instalados em alguns automóveis? Isto só para lembrar algumas situações.
O silêncio antecede a escrita, a fala, a imagem e o som. É do silêncio que nasce a autenticidade e a sanidade destas realidades. O silêncio não é negação delas, mas é a nascente que assegura a cada uma delas o sentido, a autenticidade, a utilidade e a bondade para a pessoa humana na sua vida pessoal, comunitária e social.
A morte do silêncio é um “sinal dos tempos” e assinala uma doença crônica da humanidade. Se não recuperarmos o silêncio iremos continuar morrendo afogados em bobagens que se nos apresentam como se importantes e necessárias fossem. Aproveitemos a quaresma e nos dediquemos à prática do silêncio para nossa saúde física, psíquica e espiritual. A busca do silêncio nos quarenta dias quaresmais, através da abstinência das palavras, dos sons e das imagens, pode ser um bom começo para uma nova vida que busca suas saudáveis raízes na interioridade, fonte de sentido e de verdade.
 
+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Refletindo sobre os valores


O processo de maturação humana e espiritual nos insere na dinâmica da reflexão sobre questões de ordem existencial. Nosso olhar inevitavelmente se direciona para o nosso interior, e nos perguntamos sobre as pessoas que somos. Consideramos simultaneamente o nosso agir, nossas opções e atitudes, confrontando-as com as atitudes que nossa consciência nos mostra que deveríamos ter desenvolvido e assumido. Como resultado, percebemos uma distância, adequada ou não, equilibrada ou não, entre o que somos e o que deveríamos ser.
São os valores que nos orientam nesta reflexão, porque são eles que definem a natureza do nosso agir. São o conteúdo de nossa identidade, e marcam o ritmo e o colorido de nossa existência. As pessoas são o que são, em grande parte, por consequência do sistema de valores que estão internalizados em sua personalidade.
Carl Jung, psicólogo suíço, entende os valores não somente como realidades mentais. Para Jung, uma pessoa não precisa dizer quais são os seus valores. Basta observar como se comporta. Se a relação interpessoal, por exemplo, se constitui num valor para determinada pessoa, necessariamente esta pessoa gastará muito de seu tempo e de sua energia mental estabelecendo e zelando por seus relacionamentos interpessoais. É o que mais lhe estará ao coração e dará sentido à sua existência.
Em determinado sentido, é equivocado falar de ausência de valores, expressão comumente muito repetida. Excetuando as situações de patologia, a realidade é submetida invariavelmente a alguma forma de hierarquia, diferenciando-se o que vale e o que não vale, o que tem sentido e o que é neutro, o que tem mais e o que tem menos significado.
Numa perspectiva evolutiva, a fase inicial da vida é caracterizada pelos valores vinculados aos sentidos, ao bem-estar físico, corpóreo. Para um recém-nascido o seio é mais importante que a mãe, cuja presença e significado escapam à capacidade de percepção e compreensão. O mundo interior, nesta etapa, é um complexo de sensações, e tem valor o que é prazeroso, o que provoca a sensação de bem-estar.
Na medida em que o desenvolvimento do bebê progride, o mundo interior deixa de ser dominado pela busca do hedonismo sensorial, e a atenção migra para as relações interpessoais. Nesta nova e prolongada etapa, tudo o que interfere nos relacionamentos, sobretudo com as pessoas mais próximas e significativas, assume uma valência valorativa especial. Torna-se mais importante ser amado pelos pais, ser aceito pelo grupo, ser elogiado e aplaudido que os valores da etapa anterior. É a partir desta específica organização mental que a criança se empenha para o desenvolvimento da inteligência, que são moldados os gostos artísticos, que a força de vontade é constituída e direcionada. Valor, nesta fase, é tudo aquilo que permite ocupar um lugar de destaque no universo humano.
A partir da adolescência, uma nova etapa se descortina no processo de desenvolvimento, e irá culminar na idade adulta. Nesta etapa a pessoa desenvolve uma especial capacidade de pensar criticamente (raciocínio abstrato), o que permite ir além do que é comum, do que é aceito pela maioria, do que é ensinado e valorizado pelo grupo, e buscar o que é bom, o que é verdadeiro. É nesta etapa que se tem a capacidade de criar uma organização interior, em que os determinismos físicos e psíquicos, presentes nas etapas anteriores, cedem lugar à liberdade de escolha e de autodeterminação. Só o homem, porque criado à imagem e semelhança de Deus, como um ser capaz de encontrar a verdade, de buscar o que é bom, consegue construir uma vida que não seja dominada pelos prazeres dos sentidos e pela busca da fama e do sucesso.
Contudo, devemos reconhecer que nem sempre o desenvolvimento humano progride da imaturidade para a maturidade. Há muitas situações em que a mente adulta permanece dominada por componentes característicos da infância. São os casos em que, para uma pessoa adulta, somente tem valor o que é agradável e prazeroso. As escolhas e os comportamentos permanecem fechados num horizonte egoísta, que somente reconhece a si mesmo e os próprios desejos. Para outras pessoas, há o reconhecimento e a presença do outro, mas numa semelhante ótica egocêntrica. Valor é o que engrandece o ego, o que traz reconhecimento e status. Configura-se uma personalidade essencialmente narcisista.
Concluindo, a pergunta que nos fazemos é muito simples e direta: qual a natureza dos nossos valores? Meu mundo interior é orientado para o que é útil à vida humana, ao que é verdadeiro e bom, ou permaneço dominado por um mundo interior imaturo, hedonista, egocêntrico e infantil?

O DRAMA DAS TRAGÉDIAS NO BRASIL, BRUMADINHO E RIO DE JANEIRO




O início do ano de 2019 tem sido dramático para o Brasil, com as tragédias que atingiram Brumadinho, em Minas Gerais, e das chuvas, do incêndio e chacina na cidade do Rio de Janeiro. Isto só para lembrar alguns fatos que nos levaram à comoção nestes meses de janeiro e fevereiro do ano em curso.
Ficamos atordoados com o bombardeio diário de informações e pseudo-informações, análises e opiniões, que são construídas a partir dos quatro fatos acima elencados. Não raras vezes, para um observador atento, os “dados” oferecidos pelos meios de comunicação não são objetivos, não batem, são repetidos ininterruptamente, à exaustão, como variações de um mesmo tema. Abundam narrativas e para chegar aos indícios da verdade é preciso garimpar para descartar os excessos.
A tragédia de Brumadinho deve fazer pensar se vale a pena a atividade mineradora no Brasil voltada para a exportação do produto “in natura”, com pouca ou nenhuma agregação de valor, pois depois acabamos importando os produtos derivados, já industrializados e acrescidos de novos valores. A ânsia pela exportação, a busca de saldo positivo na balança comercial, pode e deve continuar guiando a atividade mineradora no Brasil? A mesma pergunta deve ser feita em relação ao agronegócio. O dano provocado por tais atividades, e congêneres, ao homem e à natureza, compensam os dividendos recebidos pela atividade exportadora em grande escala, sem a garantia da sustentabilidade? Quem realmente é beneficiado com os lucros?
As chuvas que produziram mortes no Rio de Janeiro, o que se repete em outros lugares do Brasil, deve colocar diante das autoridades brasileiras, nos três níveis, o grave problema habitacional e a ocupação irregular das terras urbanas, com o consequente crescimento desordenado das cidades, sem planejamento a longo prazo. Ninguém vai morar “no morro” ou na margem de um rio ou córrego por que quer, mas o faz porque não possui outra alternativa. O planejamento das cidades e o processo de urbanização precisam ser pensados com acessibilidade para todos e não para alguns. Há muitos terrenos urbanos ociosos, localizados em bairros com infraestrutura, usados para a especulação imobiliária, e que deveriam e poderiam ser adquiridos pelo poder público para novos projetos habitacionais.
O esporte é um bem para a pessoa humana, de modo especial para os jovens, adolescentes e crianças. Entre nós, e também alhures, há forte “ideologização mercantilista” do futebol e da atividade esportiva em geral, como fábrica de ricos, através dos grandes times e corporações desportivas. Mas esta não é a realidade. São muitos os times e corporações endividados e grande número de jogadores e esportistas sem acesso à dinheirama propalada. Na indústria do esporte, há uma narrativa que não corresponde à realidade. A atividade esportiva deveria ser melhor acompanhada no Brasil, de modo especial o futebol, por causa de sua popularidade e das grandes cifras que movimenta, despertando “sonhos” em muitas crianças e adolescentes. Este é um segmento da sociedade brasileira que precisa do olhar e da mão do judiciário, pois parece ter se tornado terreno fértil para muitas mazelas de toda ordem, incluindo a manipulação de pessoas, a violência e negócios escusos.
Igualmente na cidade do Rio de Janeiro, de uma só vez, em uma ação em uma “comunidade”, mais de uma dezena de pessoas foram mortas violentamente. Por causa dos outros fatos, este não obteve tanta publicidade na imprensa. Mas é preocupante também esta manifestação da violência que não pode ser olvidada, mas necessita da ação das autoridades no combate ao crime e à violência, mas preservando a vida das pessoas. Pergunto: é correta a lógica de que “bandido bom é bandido morto”? O “bandido” tem que responder e “pagar” pelos seus atos, mas a sociedade não deve garantir-lhe a possiblidade da reeducação e reinserção na sociedade? Precisamos pensar melhor nestas questões e procurar políticas públicas de segurança que assegurem a todos o direito de viver bem, para que ninguém seja prisioneiro em sua própria casa.
O drama das nossas tragédias pode ser um sinal dos tempos para vislumbrarmos novos horizontes para o Brasil. Que as lágrimas e os sofrimentos de tantos brasileiros não sejam em vão.
+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

ANO PASTORAL 2019 EM CINCO PONTOS, NA DIOCESE DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO




A celebração dos noventa anos de criação da Diocese de São José do Rio Preto, em 25 de janeiro passado, em solene Eucaristia, na Catedral, marcou a retomada das atividades pastorais em âmbito diocesano. Foi um momento singular de agradecimento a Deus pela sua presença e ação nestas terras do interior do estado de São Paulo. Com isso, iniciamos a contagem regressiva para os cem anos desta Igreja Particular, o que nos leva a um impulso missionário, isto é, um novo ardor no trabalho nos “campos do Senhor”.

Recordo cinco pontos que marcarão a vida pastoral da Diocese de São José do Rio Preto, neste ano de 2019, e que todas as paróquias, comunidades, pastorais, movimentos, associações religiosas e novas comunidades devem tomar em consideração:


  1. A partir da Assembleia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, na primeira quinzena de maio, em Aparecida, e que elaborará as Diretrizes Para a Ação Pastoral da Igreja no Brasil, para o próximo quadriênio, iniciaremos os trabalhos de elaboração do 8º Plano Diocesano de Pastoral, para o período de 2020 a 2023. Será um empenho longo que deverá durar todo o segundo semestre deste ano de 2019. A revisão em âmbito paroquial do 7º Plano Diocesano de Pastoral (2017-2019), neste primeiro semestre, poderá ajudar nos trabalhos posteriores. Precisamos nos abrir à ação do Divino Espírito Santo para ouvirmos, compreendermos e assumirmos a vontade de Deus para nossa Diocese. 
  2. A Igreja Católica realizará o 4º Congresso Vocacional do Brasil, de 05 a 08 de setembro, com o tema “Vocação e Discernimento”, e com o lema: “Mostra-me, Senhor, os teus caminhos” (Sl 25,4), como uma forma de reverberar em nossa Pátria o Sínodo dos Bispos sobre os Jovens, em outubro passado, que abordou a fé e o discernimento vocacional dos jovens. Neste ano, de modo particular, precisamos estimular a vida de fé e o discernimento vocacional dos jovens, mostrando-lhes a beleza do conhecimento, amor e seguimento de Jesus Cristo, respondendo ao chamado vocacional para o matrimônio, a vida religiosa e consagrada e para o sacerdócio. Nossa Igreja é uma Igreja de ministros ordenados, por isso a promoção vocacional situa-se antes de   qualquer outra prioridade. 
  3.  O Santo Padre o Papa Francisco convida a Igreja em todo o mundo a fazer do mês de outubro, neste ano, um “Mês Missionário Extraordinário”, como forma de redescobrir e assumir a dimensão missionária da vida cristã e da Igreja. Apesar de inúmeras iniciativas missionárias, em nossa Diocese, precisamos ir nos tornando verdadeiramente uma Igreja Missionária aqui, indo ao encontro dos “batizados e não evangelizados” e dos que se encontram distantes da vivência comunitária da fé e dos sacramentos, mas também voltada para outras regiões do Brasil e do mundo, a missão “ad gentes”, uma cooperação concreta e mais incisiva com alguma região missionária distante, seja no Brasil ou alhures. Neste sentido, estaremos unidos ao Sínodo dos Bispos para a Amazônia e desejamos intensificar nossa ajuda à Igreja que se encontra na Amazônia Legal Brasileira. 
  4. A Campanha da Fraternidade 2019, com o tema “Fraternidade e Políticas Públicas”, com o lema “Serás libertado pelo direito e pela justiça”(Is1,27), orientará nossa ação social ao longo deste ano. Não há vida de fé sem caridade. E a caridade possui múltiplas expressões que vão do pessoal ao comunitário e deste ao social, passando necessariamente também pela política, horizonte das políticas públicas. Nós cristãos somos chamados a nos empenharmos efetivamente na gestão destas políticas públicas, nas suas mais diversas expressões, pois são meios efetivos de caridade que atinge a muitos ao mesmo tempo, através da promoção da justiça para todos. As pastorais sociais devem ser assumidas e promovidas como expressões  da caridade voltada para o bem comum.
  5. Prosseguindo nos esforços dos anos anteriores, precisamos continuar trabalhando a Iniciação à Vida Cristã como itinerário para formar discípulos missionários, sobretudo com os adolescentes, jovens, adultos e idosos. As orientações do Documento 107 da CNBB são luzes que devem ser traduzidas em passos concretos nas nossas paróquias, comunidades, pastorais, movimentos, associações religiosas e novas comunidades. Não basta informar, mas “formar” a pessoa para o amor e o seguimento a Jesus Cristo, na Igreja. 


Vamos iniciar bem o nosso ano pastoral, no desejo de uma fidelidade amorosa a Nosso Senhor Jesus Cristo, felizes por pertencermos à sua Igreja. Estejamos abertos à luz do Divino Espirito Santo para que ele nos ilumine no discernimento dos sinais dos tempos, nos predisponha para abraçarmos a vontade de Deus e nos fortaleça diante dos desafios da ação evangelizadora da Igreja.
Amplexo e todo bem!


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP