quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

DIOCESE DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO – 90 ANOS: NÃO ESQUECER A HISTÓRIA PARA FAZER HISTÓRIA




São José do Rio Preto é uma “diocese jovem”, não é centenária; porém há mais de um século germina nestas terras férteis, iluminadas e quentes do noroeste do Estado de São Paulo a boa semente da Palavra de Deus, que plantada, regada e cuidada fez surgir pessoas tementes a Deus, comunidades de fé e paróquias que vieram a formar esta Igreja Particular, colocada sob o patrocínio do Imaculado Coração da Bem-Aventurada Virgem Maria, nosso auxílio e proteção.

Nonagenária, a Diocese de São José do Rio Preto viu nascer de si mesma, ou cooperou em parte, para o surgimento de outras dioceses: Jales, Catanduva e Votuporanga. A expansão da Igreja Católica Apostólica Romana nesta região está vinculada ao aumento da densidade demográfica, fruto do desenvolvimento econômico e social, vinculado aos ciclos do algodão, do café, da laranja e da cana, como atividades predominantes e geradoras de riqueza, as quais permitiram a migração para estas terras de pessoas provenientes de vários países e de outros estados brasileiros. Todos foram bem-vindos e conquistaram seu “lugar ao sol.”  No amálgama das diferenças culturais, surgiu a beleza da complementariedade para a vida das cidades e da Igreja. As histórias, civil e religiosa, se encontram, se confundem e se tornam apenas aspectos distintos de uma única história: da sociedade que possibilita a Igreja e da Igreja que fecunda a sociedade. 

Na origem da cidade de São José do Rio Preto, os operários da primeira hora que semearam a fé foram leigos, que cultivavam um genuíno amor à pessoa de São José. Um detalhe, São José de Botas, para expressar as lutas do desbravamento do interior do Estado de São Paulo, mas que mostrava também a ousadia do profetismo que avançava ao encontro das pessoas e novas realidades. Para os “forasteiros”, as botas protegiam das intempéries da natureza e davam segurança ao ímpeto desbravador que abria caminho para o avançar da fé que traziam guardada no alforje dos seus corações, como um tesouro precioso, e que os impelia a seguirem adiante. Foi acreditando, e levantando o chapéu ao pronunciar o nome de Deus, que os desbravadores fundaram aldeias e cidades, cravando no centro delas a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, onde sempre surgia uma igreja, como que a acenar que no coração da vida do arraial e da urbe devia estar o mistério de Deus.

Nossas cidades surgiram, cresceram e amadureceram a partir de uma igreja, que era precedida por um cruzeiro, como que em círculos concêntricos. A partir e ao redor da igreja circulava a vida, desenvolviam-se relações sociais e a história era construída devagar e morosamente, como o movimento do velho trem que passou a cortar essas terras e a integrar nossas gentes, melhorando o acesso aos bens de consumo e a venda dos produtos aqui cultivados. Porém hoje, à medida que nos distanciamos de Deus, nossas cidades correm o risco de perderem sua identidade originária e nos vemos afogados em um “tsunami” de drogas, violências, marginalidade excludente, injustiça e uma variedade de males e mazelas que sugam a vitalidade da fé, da esperança e da caridade nas pessoas, nas famílias e nas sociedades locais.

Na celebração dos 90 anos da Diocese de São José do Rio Preto, a recordação da história das paróquias é uma viva exortação a recolocarmos Deus no centro da nossa vida e da vida de nossas cidades, de onde nunca deveríamos tê-Lo tirado. A exclusão de Deus da vida e da história humana, que Ele assumiu através do mistério da encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a cooperação do “sim” de Nossa Senhora, Virgem e Mãe, traz o prognóstico de uma nova identidade urbana fragmentada e relativista, individualista e egoísta, perdida em seus próprios e múltiplos paradigmas, fruto da ausência de referências transcendentais. 

É preciso exaltar a todos quantos viveram da fé e iluminados por ela construíram nossas cidades, paróquias e a Diocese de São José do Rio Preto: leigos, religiosos, consagradas, diáconos, sacerdotes e bispos. Não nos esqueçamos de quantos deles foram operários da segunda hora, quando ainda pertencíamos a outras dioceses em “priscas eras”. O sagrado anonimato de tantas histórias de vidas santas, que não procuraram reconhecimento e aplauso, é a causa remota e próxima da colheita do que hoje somos e devemos transmitir às novas gerações, com espírito e ânimo missionários: Jesus Cristo é o Salvador e Senhor! 

Agora é a nossa hora de fazer história a partir da história, de calçarmos as botas, seguirmos adiante com coração e mente inflados pela fé, esperança e caridade, virtudes depositadas em nós pelo próprio Deus, através do mistério da salvação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não podemos esquecer a história. Para nós, humanos, a partir do nada, nada se faz. Abertos à ação do Divino Espírito Santo, podemos fazer das nossas vidas uma história e das nossas histórias uma vida. Sob o olhar do Imaculado Coração da Bem-Aventurada Virgem Maria e de São José de Botas, vivamos o presente da Diocese de São José do Rio Preto com o olhar voltado para o futuro e sem esquecer o passado.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP  

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