quarta-feira, 24 de outubro de 2018

SE MORRE COMO SE VIVE


Algumas pessoas banalizam a morte: para uns, por não acreditarem na vida eterna, a morte é o fim de tudo, com ela tudo acaba e tudo é reduzido ao nada; para outros, porque não valorizam a vida, a morte é um detalhe sem importância e sem significação, por isto matam por qualquer razão ou sem nenhuma razão. O modo de viver é um fator determinante para enfrentar a morte.

Há ‘forças” na sociedade que são fontes disseminadoras de uma compreensão da vida e da morte sem mistério, contribuindo para incentivar ou reafirmar um modo de “ignorar” ou disfarçar a morte, de modo proposital ou não. Para um número significativo de pessoas, não há mais “indignação” diante da morte provocada. Alguns até “torcem” ou contribuem para que outros venham a morrer.

Por outro lado, há uma “indústria” que se desenvolve no entorno da morte, que virou mercadoria, e cobra muito alto. Os ritos da morte, para um determinado segmento da sociedade, são pagos a “peso de ouro”. Há um processo de despersonalização da morte, onde o morto é desvinculado do ambiente familiar e o fim do rito obituário é abreviado o mais possível, com a alegação de não provocar mais desconforto aos familiares que já estariam cansados com o tempo da enfermidade ou doença do finado.

O mistério da vida compreende a morte, que por sua vez também é um mistério. No horizonte da vida está inscrita a morte. Em algum momento, ou em algum instante, teremos que passar pelo ato de morrer, que se distingue pela sua singularidade de todos os outros atos da vida. Morrer é uma “questão” antropológica, mas antes um dado ontológico, inscrito no cerne da existência da pessoa humana. De algum modo somos reféns da morte, é a única certeza humana em meio a uma infinidade de incertezas.

A Sagrada Escritura, sobretudo o Novo Testamento, nos ajuda a compreender e viver o mistério da morte à luz da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Como consequência do pecado, a morte tal qual a experimentamos, acompanhada de sofrimento, é vencida pelo mistério da Encarnação, Morte e Ressurreição do Divino Salvador: a sua vitória é também a nossa esperança e nos faz livres para morrer, assumindo a morte como porta que nos possibilita entrar na eternidade, saindo do tempo; experimentar a imortalidade, passando pelo crivo maior da mortalidade.

Há um modo cristão de viver e morrer: “vivemos e morremos para o Senhor”. Não apressar ou postergar a morte, eutanásia e distanásia, mas acolhê-la no momento em que se nos apresenta é uma atitude de sabedoria. A hora da morte, como limite extremo da temporalidade da pessoa humana, é também o momento maior de liberdade e supressão de todo e qualquer limite que nos impede da comunhão plena com Deus, graça possível para nós com o mistério da vida e obra de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se vivemos no amor, morremos no amor; se vivemos distantes de Deus, morremos sozinhos e d’Ele nos apartamos para sempre; se vivemos na graça de Deus, nele morremos e para ele fazemos nossa última viagem.

Neste tempo de recordação dos mortos, elevemos nossa oração a Deus, sobretudo através da celebração da santa missa, agradecendo o dom da vida, nossa e dos outros, pedindo que Ele nos conceda sabedoria para viver e morrer bem; que pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo Ele conceda a vida eterna feliz para nós e para os que nos antecederam na morte. 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP
 


Nenhum comentário:

Postar um comentário