quinta-feira, 25 de outubro de 2018

UNIÃO PELO BRASIL


Não é um “chavão” pós-eleitoral, mas é momento oportuno para promover a unidade dos brasileiros pelo Brasil, pensá-lo e construí-lo diuturnamente, com afinco e sem receios do tempo presente e futuro. Se num primeiro momento havia uma apatia generalizada diante da política e dos políticos, depois experimentamos um tempo de acalorados posicionamentos que desembocaram em atitudes de violência verbal, escrita, física e virtual. Os ânimos ficaram exaltados e em alguns momentos assistimos à ausência do uso da razão.
Os meses de novembro e dezembro são oportunos para avaliar o que vivemos no tempo eleitoral, tomar decisões e construir projetos em âmbito pessoal e coletivo que contribuam para superar as “feridas” oriundas  dos últimos governos e do tempo eleitoral e que deixaram profundas cicatrizes na vida social, econômica e política do Brasil. É tempo de serenar os ânimos, apaziguar as diferenças e buscar o horizonte comum do bem de todos os que vivem neste país chamado Brasil, olhando com justiça para os que vivem como deserdados, privados dos bens primários para uma vida digna.
Foram eleitos para o legislativo federal, Senado e Câmara, pessoas dos mais diversos partidos políticos, pluralidade e fragmentação ao mesmo tempo. Neste cenário, o Presidente da República terá que ser resiliente para o diálogo, sem perder de vista os pontos principais de seu programa de governo apresentado aos eleitores. Por sua vez, os legisladores terão que “pensar grande” ultrapassando os limites partidários e buscando o consenso razoável para a promoção do bem dos brasileiros.
São muitas as questões sociais a serem trabalhadas, algumas imprescindíveis como moradia digna, educação de qualidade, oportunidade de trabalho, acesso ao sistema de saúde e alimentação saudável. Para ultrapassar estes desafios não se parte do ponto zero, várias políticas públicas já foram iniciadas ou estão em andamento e precisam ser reestruturadas e receberem novos investimentos. Neste sentido, o uso do dinheiro público proveniente dos impostos pagos pelos cidadãos precisa ser criteriosamente usado para atender não só necessidades emergenciais, mas também financiar projetos que perdurem a médio e longo prazo e que resolvam de fato problemas sociais até agora constantes.
Sob o risco de não acompanhar os países desenvolvidos, o Brasil precisa investir com urgência em infraestrutura, talvez com participação da iniciativa privada, para solucionar questões importantes de logística na área dos transportes, pesquisa, ciência e tecnologia, agregar valores em produtos para exportação e propiciar condições que favoreçam a implantação de novos campos industriais e que venham gerar novos postos de trabalho para segmentos diversos da população. Isto não ocorrerá se a estrutura do Estado não for menor e se não forem realizadas importantes reformas que criem ambiente favorável ao desenvolvimento.
Ora, estas e outras questões são importantes para os novos governantes e legisladores que assumirão seus mandatos a partir de janeiro de 2019. Estas proposições afetam também a nós cidadãos comuns que precisamos amadurecer nossa consciência política de promoção do bem comum mudando hábitos não saudáveis e que afetam com maior ou menor intensidade a vida do Brasil. O cultivo da verdade, da honestidade, da justiça e da solidariedade contribuirão sem dúvida para as mudanças sociais que queremos. Não somos plateia, mas atores chamados a atuar em mudanças locais que afetam o conjunto da Nação.
A vida de fé, a partir da revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo, é um anteparo seguro para vencermos resistências de toda ordem às mudanças necessárias em âmbito pessoal e social. O término do ano nacional do laicato clama por uma vida cristã e cidadã com novos valores e atitudes onde o bem público não esteja a serviço de interesses privados. A proximidade do tempo do Advento nos predispõe a olhar para o mistério do Reino de Deus desde já iluminando nossa história. A tarefa de construir um Brasil melhor não é dos outros, mas nossa.

+ Tomé Ferreira da Silva
 Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

SE MORRE COMO SE VIVE


Algumas pessoas banalizam a morte: para uns, por não acreditarem na vida eterna, a morte é o fim de tudo, com ela tudo acaba e tudo é reduzido ao nada; para outros, porque não valorizam a vida, a morte é um detalhe sem importância e sem significação, por isto matam por qualquer razão ou sem nenhuma razão. O modo de viver é um fator determinante para enfrentar a morte.

Há ‘forças” na sociedade que são fontes disseminadoras de uma compreensão da vida e da morte sem mistério, contribuindo para incentivar ou reafirmar um modo de “ignorar” ou disfarçar a morte, de modo proposital ou não. Para um número significativo de pessoas, não há mais “indignação” diante da morte provocada. Alguns até “torcem” ou contribuem para que outros venham a morrer.

Por outro lado, há uma “indústria” que se desenvolve no entorno da morte, que virou mercadoria, e cobra muito alto. Os ritos da morte, para um determinado segmento da sociedade, são pagos a “peso de ouro”. Há um processo de despersonalização da morte, onde o morto é desvinculado do ambiente familiar e o fim do rito obituário é abreviado o mais possível, com a alegação de não provocar mais desconforto aos familiares que já estariam cansados com o tempo da enfermidade ou doença do finado.

O mistério da vida compreende a morte, que por sua vez também é um mistério. No horizonte da vida está inscrita a morte. Em algum momento, ou em algum instante, teremos que passar pelo ato de morrer, que se distingue pela sua singularidade de todos os outros atos da vida. Morrer é uma “questão” antropológica, mas antes um dado ontológico, inscrito no cerne da existência da pessoa humana. De algum modo somos reféns da morte, é a única certeza humana em meio a uma infinidade de incertezas.

A Sagrada Escritura, sobretudo o Novo Testamento, nos ajuda a compreender e viver o mistério da morte à luz da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Como consequência do pecado, a morte tal qual a experimentamos, acompanhada de sofrimento, é vencida pelo mistério da Encarnação, Morte e Ressurreição do Divino Salvador: a sua vitória é também a nossa esperança e nos faz livres para morrer, assumindo a morte como porta que nos possibilita entrar na eternidade, saindo do tempo; experimentar a imortalidade, passando pelo crivo maior da mortalidade.

Há um modo cristão de viver e morrer: “vivemos e morremos para o Senhor”. Não apressar ou postergar a morte, eutanásia e distanásia, mas acolhê-la no momento em que se nos apresenta é uma atitude de sabedoria. A hora da morte, como limite extremo da temporalidade da pessoa humana, é também o momento maior de liberdade e supressão de todo e qualquer limite que nos impede da comunhão plena com Deus, graça possível para nós com o mistério da vida e obra de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se vivemos no amor, morremos no amor; se vivemos distantes de Deus, morremos sozinhos e d’Ele nos apartamos para sempre; se vivemos na graça de Deus, nele morremos e para ele fazemos nossa última viagem.

Neste tempo de recordação dos mortos, elevemos nossa oração a Deus, sobretudo através da celebração da santa missa, agradecendo o dom da vida, nossa e dos outros, pedindo que Ele nos conceda sabedoria para viver e morrer bem; que pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo Ele conceda a vida eterna feliz para nós e para os que nos antecederam na morte. 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP