sexta-feira, 23 de março de 2018

NOSSA SENHORA DA SOLEDADE

A palavra soledade nos faz pensar em solidão, em estar sozinho, isolado. São muitas as solidões e algumas são doentias. Há uma sagrada solidão. Pensemos nos eremitas, nos monges e em todos aqueles que se retiram do mundo e das realidades mundanas para viverem mais intensamente o sagrado. Há uma boa solidão estreitamente vinculada à fé cristã católica. Na ortografia, é pequena a distância entre solitário e o solidário. O solitário da fé é solidário com todos na sua sagrada solidão.

Ao descrever o sepultamento de Nosso Senhor Jesus Cristo, o evangelista Marcos afirma: “Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Jesus era colocado” ( Mc 15, 47).

O evangelista São João. O discípulo amado, afirma que o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo foi ungido e sepultado. Trinta quilos de perfumes de mirra e aloés foram trazidos por Nicodemos ( cf Jo 19, 39).

Nossa Senhora estava presente no ato do sepultamento? O evangelista São Lucas fala de algumas mulheres que observavam o sepultamento: “As mulheres que com Jesus vieram da Galileia, acompanharam José e observaram o túmulo e o modo como o corpo ali era colocado” (Lc 23, 55). Nossa Senhora estaria junto com essas mulheres?

Não há uma menção direta de Nossa Senhora. Diante do silêncio dos evangelistas, a tradição diz que sim. É a sétima dor, a mãe que sepulta o seu filho. É aqui que contemplamos a soledade de Nossa Senhora: só, sem José, sem Jesus, abandono, embora confiada aos cuidados de João, o mais jovem entre os apóstolos. É noite no coração da mãe. E ela vive só nesta dor, dor vivida de modo peculiar e único. É a materialização da soledade. Nossa Senhora da soledade. Nossa Senhora da sagrada solidão.

Mas já pensamos também na solidão de Jesus sepultado? Ele está só no sepulcro. Ele, só, vai à mansão dos mortos. Soledade fora e dentro do sepulcro. Soledade da espera. Soledade do morto que espera ser ressuscitado. Soledade da mãe que espera a ressurreição. Sagrada solidão. Santas soledades. Soledade do Filho, soledade da mãe. Soledade da mãe, soledade do Filho. A soledade do filho é a nascente da soledade da mãe. A soledade da mãe encontra seu ponto de chegada na soledade do filho.

Tenho meu tempo de sagrada solidão? Sou silêncio, para saber fazer silêncio? Sei calar quando não devo falar? Como vivo a solidão do meu ministério ou de minha consagração? Consigo silenciar para rezar? Como é meu silêncio nos retiros? Retiro-me mensalmente para um tempo maior de solidão? Sei usar com equilíbrio os meios de comunicação? Estou envolvido na divulgação de notícias falsas, sobretudo dentro da Igreja? Repasso mensagens que deveriam imediatamente serem deletadas? Sei estar em silêncio ao lado dos que precisam de minha presença silenciosa?

Nossa Senhora da Soledade, rogai por nós!
+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

Nenhum comentário:

Postar um comentário