sexta-feira, 23 de março de 2018

NOSSA SENHORA DA PIEDADE

Quem não se emociona com a imagem da Pietá, na entrada da Basílica de São Pedro, em Roma, ainda que através da TV ou de uma fotografia? Ou diante de uma “réplica” como a que se encontra na Catedral em Brasília? Ou das múltiplas representações do mesmo motivo feitas pela escultura barroca ou outras simples representações largamente impressas?

A tradição e a piedade popular enxergam que o corpo inerte de Nosso Senhor Jesus Cristo, após ser descido da cruz, é acolhido no colo por Nossa Senhora. O colo que embalara o Menino Jesus quando “veio” ao mundo é o mesmo colo que agora acolhe Nosso Senhor Jesus Cristo quando “deixa” o mundo. A carne fria e sem autocontrole do filho contrasta com a carne viva e quente da mãe. Carne da minha carne e sangue do meu sangue, poderia ela dizer ao contemplar o filho morto, prestes a ser sepultado.

Se neste quadro a piedade fosse uma pessoa, quem seria? Piedade é o filho morto no colo da mãe ou piedade é a mãe que abraça a morte do filho? Duas piedades se encontram, filho e mãe. Ela somente é a Senhora da Piedade por que se fez discípula do piedoso Jesus. A piedade da mãe é extensão da piedade do filho, e somente à sua luz pode ser compreendida. Agora ao tê-lo no colo não o abraça estreitando-o no seu peito como um objeto de sua posse, como se desejasse retê-lo para si, mas o oferece ao mundo, ao sepulcro, para a salvação do mundo, para descer ao inferno e acordar os que dormiam na espera da redenção.

Nossa Senhora da Piedade nos mostra o caminho para sermos colo para as pessoas. Cumprimentar e tocar é bom, mas não suficiente. Abraçar é necessário, mas não basta. É preciso ser colo para o outro. Dar seu colo não para possuir o outro para si, mas para dá-lo ao mundo, depois de consolá-lo. Ser colo é curar o outro e devolvê-lo à autonomia para que de novo ele seja lutador no mundo.

Tenho sido colo para o outro que vive comigo? Sou colo para aqueles que Deus coloca em meu caminho? Na minha vida e no meu ministério tenho a coragem de sentar para oferecer colo aos que se aproximam de mim, pelas mais diversas razões? Sou colo para os doentes e enfermos? Sou colo para os cansados, estressados e deprimidos? Sou colo para os que vivem o luto? Sou colo para os que vivem dificuldades na vida pessoal, no casamento, na família, na vida profissional e no trabalho? Sou colo para os pecadores arrependidos? Sou colo para os pecadores que vivem como escravos dos seus pecados?

Nas minhas noites escuras, onde procuro colo? Procuro o colo de Deus? Procuro o colo de Nossa Senhora? O meu colo é a TV, o cinema, a internet e as mídias sociais? O meu colo é a bebida alcoólica, os restaurantes, o cigarro e as drogas?


Nossa Senhora da Piedade, rogai por nós! 
 
+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

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