terça-feira, 31 de outubro de 2017

AUSÊNCIA DE VALORES TRANSCENDENTAIS E VIOLÊNCIA

A violência é uma referência da vida pessoal, familiar e social na atualidade. Não há uma violência, mas várias manifestações violentas que exprimem: o ódio arraigado no coração humano, uma forma de niilismo ou ainda agressão gratuita em busca de prazer ou de “adrenalina” como dizem os jovens. As violências não possuem apenas uma origem, mas são frutos do encontro de uma série de variantes: miséria, falta de educação, abandono, fatores genéticos e culturais, uso de entorpecentes, entre outras. Mas há um elemento que também contribui para a ação violenta e que não é recordado: a ausência de valores transcendentais. Os valores somente humanos parecem não “estar dando conta” de fazer dos indivíduos pessoas de paz.

Os valores transcendentais estão sendo banidos gradativamente, não só da sociedade, mas também da família e da vida das pessoas, num processo rápido ancorado pelo uso dos meios de comunicação social, sobretudo pelas novas mídias. A crença exclusiva no homem pelo homem diz que os valores humanos, somente humanos, seriam suficientes para gerar uma ética capaz de moldar a conduta humana. Porém os fatos mostram que não. A insuficiência do humano tem gerado as mais diversas crises e, entre estas, também a violência generalizada, que vai se tornando parte integrante da cultura atual, mais do que em tempos passados.

A transmissão dos valores humanos, sem os valores transcendentais, acontece hoje também nas famílias e no processo educacional, em seus diversos níveis, consequência das reminiscências do iluminismo. A infância é um período fundamental para a aquisição dos valores que contribuirão decisivamente para a formação do caráter e da personalidade das pessoas. Hoje, a partir dos seis meses, ou até menos, as crianças são retiradas, em boa parte do tempo, do convívio com os pais e demais familiares, pois são enviados para as “creches” que pululam nas nossas cidades, de todos os tipos, públicas ou particulares.

É inegável o valor das creches e o serviço que prestam às famílias: alimentação, higiene, socialização, introdução à educação letrada, entre outros. Sem dúvida, os educadores nestes espaços são também os transmissores dos valores para os pequeninos confiados aos seus cuidados. Mas que valores são passados? São repassados os valores humanos, não os transcendentais. No período em que poderiam e deveriam receber a semeadura dos valores transcendentais as crianças são deles privadas e no futuro desenvolverão sua vida pessoal e social usando somente dos instrumentais humanos sem fundamentação transcendente. O Estado, isto é, o Poder Público, nas suas várias expressões, abomina a fundamentação transcendental da vida e proíbe objetivamente a transmissão dos seus valores correspondentes nas creches.

Ora, a ausência dos valores transcendentais, ou da fundamentação transcendental dos valores humanos, mais cedo ou mais tarde será um dos elementos provocadores ou estimuladores da violência na adolescência e na juventude. No que diz respeito à violência, de algum modo, o Estado está colhendo o que ele mesmo semeia nas instituições de educação infantil. O Estado é impessoal, não sofre humanamente com a violência, mas a pessoa e a família são vítimas da violência e sofrem por causa dela no corpo e na alma. Por sua vez, o Estado tem que direcionar cada vez mais recursos, nunca suficientes, para coibir a violência ou penalizar os violentos. É um ciclo vicioso sem esperança, se não ocorrer uma volta à educação infanto-juvenil que privilegie valores fundados na transcendência.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

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