quarta-feira, 9 de agosto de 2017

UM TEMPO DE INCERTEZA OU DE INCERTEZAS?

A sociedade brasileira vive momentos dramáticos. Como se não bastassem as questões históricas não resolvidas: reforma agrária, educação, saúde, habitação, meio ambiente, infraestrutura, desigualdade social, vivemos um tempo de desconstrução da credibilidade das instituições e dos homens públicos. Temos a impressão, certamente falsa, que todos criticam todos, todos se arvoram em ser juízes, todos reivindicam direitos, todos são do contra.

A julgar pela publicidade veiculada dos fatos, o Brasil se encontra numa bagunça, caos total, à beira do precipício, na mesma direção do mundo, uma “caixa de pandora”. Chega-se a esta conclusão quando se assimila de qualquer modo as informações nem sempre objetivas e repetitivas veiculadas nas mídias, que a cada hora fazem variações dos mesmos fatos, na ausência do novo para veicular. O dinamismo “midiático” exige sempre fatos novos, e na ausência deles, os fatos vão sento relidos indefinidamente como se novos fossem.

Tantas incertezas criadas e recriadas, fictícias ou reais, e insistentemente veiculadas, à exaustão, dão a impressão de que o Estado brasileiro está em uma incerteza estrutural. O pessimismo avança a passos largos, entre aqueles que conseguem acompanhar minimamente as informações, mas a indiferença, como mecanismo de defesa da maioria, alastra-se assustadoramente. A soma dos pessimistas e dos indiferentes obscurece o número daqueles que agem com a razão e que ainda confiam nas pessoas que ocupam funções públicas e nas instituições.

Não nego a existência de pessoas públicas que não são probas. Não dá para ignorar a existência de profissionais que não agem eticamente e em função do bem comum em todas as áreas da vida social. Sabemos que as instituições sociais passam por momentos cruciais, com desvio de finalidade, apropriação pessoal do que era para ser de todos, com crises de identidade provocadas pela confusão que se estabeleceu entre os Poderes da República, num jogo incerto onde os egos não se controlam diante dos holofotes da visibilidade das mídias.

Não sou pessimista. Não creio na incerteza, mas sou realista diante das muitas incertezas que nós mesmos criamos, frutos maduros da nossa cultura sempre sujeita a desvios básicos do proveito pessoal, da falta de transparência, do compadrio, de uma vida não comedida, de pautar o agir sem o equilíbrio entre sentimento e razão, de fazer das mentiras uma verdade e do pouco caso em construir uma vida de modo planejado, mesmo apesar da imprevisibilidade do viver.

Eu acredito na República e confio nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Tenho fé nas instituições. Vejo pessoas boas em todos os segmentos da sociedade: na política, na economia, nas profissões liberais, nas empresas, no mundo da educação, nas religiões, na imprensa, no operariado, nas organizações não governamentais. Tem muita gente boa e competente no Brasil e são elas que asseguram, para além das incertezas, a tênue esperança, mas real, de que estamos vencendo, muito embora ainda seja longo o caminho a percorrer. Creio na recuperação das pessoas, pecadoras ou infratoras, e que uma vez transfiguradas poderão em muito contribuir para o bem da sociedade.

A desconstrução da sociedade brasileira, sobretudo na última década, com todas as consequências maléficas que agora vivemos, não justifica a desconstrução da credibilidade nas pessoas e nas instituições legitimamente constituídas. Os desvios de rota, das pessoas e instituições, podem e por isso mesmo, devem ser refeitos, voltando às finalidades originárias. A criação de um ambiente de caos, de que tudo está perdido, de que ninguém presta, é um desserviço à sociedade brasileira e ao mundo. Ser realista, sim; ser pessimista, não. Andar a passos curtos pode ser a solução; cruzar os braços e esperar milagres, certamente não.

É preciso compreender que o limite humano, se não transformado e reorientado para o bem, causa graves prejuízos pessoais e sociais. Mas não somos perfeitos. Aprender a conviver com a limitação das pessoas e das instituições é uma arte e exige sabedoria. Limitados e imperfeitos, mas unidos e na correção fraterna podemos avançar para além das incertezas e construir o Brasil que queremos e podemos.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

Nenhum comentário:

Postar um comentário