quinta-feira, 2 de março de 2017

DESERTOS E DESERTO.

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo”(Mt 4, 1).

A realidade do deserto impõe aridez, agressividade, perigos, exigindo das criaturas ali existentes a capacidade de buscar e economizar água e alimento, resistência, luta e busca pela sobrevivência. Há pouco ou nenhum romantismo na vida do deserto. Em analogia ao deserto, podemos pensar em dois “desertos” na vida humana: um, consequência do pecado; outro, uma escolha para uma experiência de Deus.

O pecado é um “acidente de percurso” na vida humana; mas um acidente determinante, segundo o livro do Gênesis, está presente desde as origens e mudou o rumo da história e, de certo modo, a “determina” ainda hoje. Em última instância, os males da humanidade, e muitas vezes da natureza, encontram sua fonte no coração humano pecador: “É do coração que saem as más intenções: homicídios, adultérios, imoralidade sexual, roubos, falsos testemunhos e calúnias”(Mt 15, 19).

Por razões culturais e sociais, poucas pessoas são humildes para se reconhecerem pecadoras. A diluição da fé cristã no contexto econômico e político, com as correntes ideológicas que negam a transcendência, contribuem para anestesiar a pessoa e afastá-la da consciência do pecado. Mas não podemos negar que o pecado é sempre uma escolha pessoal, no horizonte da liberdade, e que comporta a responsabilidade da pessoa, ainda que ela esteja sob o influxo de tantos condicionantes. A inconsciência do pecado não significa que ele não esteja presente na pessoa e na história humana.

O deserto social que experimentamos, situação de pecado social e estrutural, é produto da liberdade e das escolhas humanas que nascem sempre no coração, isto é, no intelecto e na vontade. As migrações forçadas, os conflitos entre nações, povos, etnias e tribos, as variadas expressões de violência pessoal e coletiva, as diversas matizes da corrupção privada e pública, a má distribuição dos alimentos, que gera a fome extrema em diversos lugares, como a que ocorre agora no Sudão do Sul, e a progressiva destruição da natureza são máximas expressões do pecado que desertifica a história e torna penosa a vida humana.

A recuperação da consciência do pecado no intelecto e na vontade humana é um passo necessário para recuperar o paraíso perdido ou para construir o paraíso possível. As experiências bíblicas do deserto e a realizada por Jesus Cristo no início de sua missão pública (Mt 4,1-11), conduzido pelo Espírito, nos fazem pensar que podemos proporcionar-nos também um tempo de deserto voluntário, como afastamento do cotidiano que massifica, para estar a sós com Deus e consigo mesmo, o que revitalizará a nossa relação com o outro.

Encontramos na quaresma uma ocasião propícia para fazermos uma experiência de deserto, conduzidos pelo Espírito, fortalecidos pela oração, jejum, penitência e abstinência, e pela caridade, para intensificar nossa luta contra o mal e o maligno, tão próximos a nós através das tentações. Neste tempo quaresmal, o afastamento das festas e do burburinho dos meios de comunicação, a privação voluntária de prazeres do comer, do beber, do vestir e do sentir, o propósito de novos comportamentos misericordiosos com o próximo e novas posturas na sociedade fundadas na verdade, na ética e na moral, podem ser sementes de esperança de um homem novo e de uma sociedade renovada, um sinal pascal.

O fiel católico não pode e não deve passar indiferente o tempo da quaresma. Ignorar este tempo penitencial e de conversão compromete a participação e celebração do Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por livre vontade e deliberação, não participar e não celebrar devidamente o Tríduo Pascal é pecado grave, pois mostra uma escolha que contraria a fé da Igreja e que virá em prejuízo do fiel, do Povo de Deus, da sociedade e do mundo. Se precisamos e queremos mudar o mundo, a nossa mudança pessoal é um bom começo e um passo sólido para outras transformações coletivas.

“Jejuando quarenta dias no deserto, Jesus consagrou a observância quaresmal. Desarmando as ciladas do antigo inimigo, ensinou-nos a vencer o fermento da maldade. Celebrando agora o mistério pascal, nós nos preparamos para a Páscoa definitiva. Enquanto esperamos a plenitude eterna...” (Prefácio da Tentação do Senhor).


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

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