quarta-feira, 1 de abril de 2015

Homilia - Missa dos Santos Óleos na Catedral de São José

DA UNIDADE DA FÉ À UNIDADE DA VIDA PASTORAL

Os lutadores, no mundo greco-romano, passavam óleo no corpo para se tornarem ágeis, para não se tornarem presas fáceis do inimigo. Hoje, alguns atletas, levados pela ambição, tomam composições químicas que potencializam sua ação, mas acabam descaracterizando a beleza do esporte e sendo punidos.

Alegres, acolhemos de Deus e da Igreja, nesta santa Missa, os “santos óleos”.

O Óleo dos Catecúmenos nos convida a uma ação pastoral catecumenal, que efetivamente introduza o fiel na vivência cristã.

O Óleo dos Enfermos recorda a presença de Deus que consola, fortalece e cura o seu povo a caminho da eternidade feliz.

O Óleo do Crisma nos coloca diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, o ungido do Pai. Ele será usado na unção do cristão no batismo e na crisma; nas ordenações sacerdotais e episcopais; e na sagração dos altares e das igrejas.

A bênção do Óleo dos Catecúmenos propõe à Igreja, e a cada um de nós, a dimensão missionária da fé: fazer novos cristãos, semeando a fé no coração dos não batizados; recuperar os que acolheram a fé e não a desenvolveram; buscar os que acolheram a fé e não a vivem comunitariamente; buscar os que acolheram a fé, mas ficaram ao longo do caminho.

A ação missionária não depende exclusivamente de análises e projetos, de encaminhamentos voluntários vinculados a uma pessoa, segmento pastoral, movimento, associação religiosa ou nova comunidade.

A ação missionária é resultante da confluência da ação do Divino Espírito Santo na vida do Povo de Deus e da resposta do Povo de Deus às inspirações e moções do mesmo Espírito.

Ser missionário pressupõe o encantamento com a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e, consequentemente, com a sua Igreja.

Homens e mulheres desencantados com Nosso Senhor Jesus Cristo, que perderam o brilho do olhar contemplativo no Cristo glorificado pela cruz e ressurreição, que não mais são enamorados pela Igreja, que não são capazes de oferecer a sua vida por ela, incondicional e irrestritamente, não só não serão  missionários, mas serão agentes dificultadores da missão.

O encantamento com a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e com a Igreja é fruto da ação do Divino Espírito Santo em nós, mas também é resposta do fiel. A ação do Espírito nunca falha, é sempre garantida e certa, por isso não pode ser a causa da frigidez da vida missionária dos fiéis e da Igreja.

 A resposta do fiel à ação do Divino Espírito Santo é obnubilada pela presença do pecado em sua vida. O pecado impede a resposta do fiel, ou dificulta-a, ou faz com que ela não seja como poderia e deveria ser.

Há anos ocorre uma descaracterização e ou negação do pecado. Até mesmo, se poderia dizer, que evita-se usar a palavra “pecado”, preferindo-se falar, quando se fala, em erros e falhas. Parece que falar em pecado tornou-se algo politicamente incorreto na Igreja e na sociedade.

A negação do pecado, ou a tendência em reduzi-lo a qualquer outra coisa que não seja propriamente pecado, é negar o mal, é negar a ação do maligno, é negar a história e a necessidade da salvação.
A descaracterização do pecado é agravada por uma tendência  de julgar ou atenuar o ato pecaminoso  alegando fatores de ordem psíquica, social e cultural, que dificultariam ou impediriam o exercício da liberdade humana, bem como da vontade humana em deliberar, mesmo após a inteligência detectar a verdade.

A liberdade humana não é supressa por nenhum condicionamento, de qualquer natureza que seja este condicionamento. Por maiores e mais incisivos que sejam os condicionamentos, sempre permanece a capacidade da pessoa em dizer não ao pecado e ao tentador.

O fiel cristão não é  ontologicamente escravo do pecado e de satanás. Ele é livre, pela graça de Deus, em Cristo, para dizer não ao mal e sim à vida da graça.

Se não existe pecado, se a pessoa não peca, ou não tem consciência dele, não há necessidade da salvação, não há necessidade de Nosso Senhor Jesus Cristo e, consequentemente, não haverá necessidade da dimensão missionária da fé e da ação missionária na Igreja.

Só haverá missão se houver a convicção de que a pessoa humana é pecadora, que o pecado está aí, entranhado na vida, no coração, mente e vontade dos homens e mulheres e, por intermédio deles, presente na sociedade, nas instituições e nas estruturas de todo tipo resultantes da ação humana.

A perda da capacidade de indignar-se contra os pecados sociais e estruturais, como a violência, a corrupção, o roubo, o desrespeito à vida nascente e poente, está enraizada na pessoa humana que tornou light, ou aboliu, o pecado, ou a consciência dele, em sua vida.

Quem não se vê pecador, não terá olhos para os pecados sociais e estruturais. Quem não se vê pecador, encontra justificativas na sociedade e nas estruturas para continuar agindo como pecador inveterado.

A pessoa humana precisa de salvação, e esta salvação encontra-se única e exclusivamente em Nosso Senhor Jesus Cristo, tal como é compreendido e guardado na Igreja, Mãe e Mestra. Para nós, Nosso Senhor Jesus Cristo é o caminho ordinário da salvação.

O relativismo introduzido e alimentado na Igreja, por algumas vertentes das ciências da religião, como reflexo ou álibi da sociedade, procura mostrar, direta ou indiretamente, que todos os caminhos religiosos levam a Deus. Que caminhos religiosos são estes? Eles conduzem a que Deus?

Soa aos nossos ouvidos a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” ( Jo 14,6).

A negação do pecado leva à negação do inferno. A negação do inferno leva à negação do pecado. O pecado existe. O inferno existe. Por isso, precisamos de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Igreja, que é a nossa Igreja, Católica Apostólica Romana. Precisamos da vida missionária do fiel e da ação missionária da Igreja. E como faremos isso?

A ação missionária do fiel e da Igreja deveria desenvolver-se de modo catecumenal, não com a exclusividade ou primazia da dimensão informativa ou da dimensão existencial, mas na interação e integração destas duas dimensões.

Apresentando Nosso Senhor Jesus Cristo ao pecador, ajudá-lo a conhecê-lo e aceitá-lo. A aceitação só ocorrerá se ele, pecador, tiver consciência de ser pecador e sentir a necessidade da salvação, que não pode ser inventada ou criada por ele mesmo.

Despertar a consciência do pecado na vida da pessoa é um passo sem o qual não se sentirá necessidade da salvação em Cristo, e se não se sente necessidade de salvação, não se acolherá a Nosso Senhor Jesus Cristo.

É preciso averiguar se a dificuldade da missão, na vida do cristão e na Igreja, não tem raízes assentadas no fato de que se perdeu a consciência da existência do pecado, e a consequente desnecessidade do Divino Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo e, por isso, todas as religiões são iguais, ou tanto faz ter fé ou não em Nosso Senhor Jesus Cristo, ou tanto faz ter ou não uma religião.

A bênção dos óleos dos Catecúmenos e dos Enfermos, e a sagração do óleo do Crisma, realizadas anualmente, é garantia de que não estamos sós na ação missionária, a ser desenvolvida de modo catecumenal, seja em nível pessoal ou comunitário. O Divino Espírito Santo age em nós, como agiu em Nosso Senhor Jesus Cristo.

O despertar da consciência do pecado implica recuperar o profetismo na sua dimensão de denúncia, reconhecendo que a presença do pecado ocorre em nível pessoal, comunitário, social, institucional e estrutural.

Os fiéis, ungidos no batismo e na crisma, os sacerdotes e o bispo também ungidos na ordenação sacerdotal e episcopal, não podemos deixar as pessoas serem contaminadas e dopadas pela química de que não existe pecado, de que não há necessidade da salvação em Nosso Senhor Jesus Cristo e de que todas as religiões são iguais.

Que o Coração Imaculado de Maria, e São José, nos ajudem, como consagrados pelas ações sacramentais que recebemos, a vivermos missionariamente a vida de fé, legado de Nosso Senhor Jesus Cristo à Igreja.

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP







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