terça-feira, 10 de março de 2015

Silêncio Quaresmal

Nosso tempo, talvez mais do que outros, tem uma diversidade e proliferação de sons e imagens. Tudo é encantador e fascinante. Com a acessibilidade aos novos recursos e tecnologias, vivemos numa inundação de sons e imagens. A própria sociedade encontra dificuldade para disciplinar a “poluição sonora e visual”.

Ao mesmo tempo, vivemos na sociedade da mutabilidade e do movimento, nada permanece por tempo razoável, há uma sucessão interminável de versões de um mesmo fato, tudo caduca com rapidez. A comunicação, visual e oral, é feita para pessoas em movimento, que aprenderam a fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Vivemos como pessoas inquietas, irrequietas, incapazes de permanecer por um tempo bom em um determinado espaço ou condição. Somos agentes e vítimas de uma dispersão física que provoca uma falta de concentração da mente e do coração. Expulsamos a quietude e o silêncio da nossa vida.

No ciclo litúrgico da Igreja, a quaresma é um tempo que conclama os fiéis ao silêncio, exterior e interior. A supressão das flores e dos adornos nas igrejas e espaços celebrativos, o emudecer dos instrumentos musicais, a utilização da cor roxa, a supressão do toque festivo dos sinos, a omissão do “aleluia” e do “canto do glória” são alguns sinais litúrgicos de um tempo que deve  ser vivido no silêncio também, e antes de tudo, no dia a dia.

A ausência do silêncio na quaresma é um sinal, entre outros, de que os católicos vão desfigurando e fragilizando a identidade deste tempo santo que vai se tornando um tempo como qualquer outro ao longo do ano litúrgico.

A diluição do sentido da quaresma, com a perda ou esquecimento voluntário de seus sinais característicos, acarreta uma inadequada vivência e celebração do Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo na semana santa, no tempo pascal e no restante do ano litúgico.

Convido os fiéis católicos a retomarem o virtuoso hábito do silêncio, interior e exterior, como condição necessária  para uma saudável vida espiritual. A quaresma é um bom tempo para começar a experimentar o silêncio como companheiro inseparável de vida.

Nas celebrações litúrgicas, sobretudo na Missa, mas também nas outras celebrações, é preciso recuperar o tempo próprio do silêncio, por exemplo: no ato penitencial, após as leituras ou  homilia, no final da oração dos fiéis e após a comunhão eucarística.

Os sacerdotes e o conselho pastoral de cada paróquia, capela ou comunidade, devem estimular, promover e assegurar o silêncio nas igrejas e espaços sagrados, durante todo o tempo,  sobretudo nos momentos que antecedem e sucedem as celebrações, quando os fiéis devem se recolher para a oração pessoal e silenciosa.

O devido silêncio nas celebrações e nos espaços sagrados é um direito inalienável do fiel que deve ser buscado e promovido por todos. Que o silêncio sagrado, calar-se diante do Mistério, motive e leve ao silêncio existencial de cada dia, quando paramos para ouvir a Deus, pressuposto para falar com Deus na oração.

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

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