sexta-feira, 20 de março de 2015

São José e o projeto divino para a família humana

Alegres e esperançosos, celebramos a Santa Missa, na Solenidade de São José, anjo tutelar  da cidade de São José do Rio Preto, que celebra 163 anos de fecunda existência, colocada, desde os primórdios, sob os auspícios  de tão insigne santo.

Iluminados pela Palavra de Deus, proclamada e ouvida, convido-os a contemplar a pessoa de São José, à luz do Mistério Pascal, como membro da Sagrada Família, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria e pai custódio de Nosso Senhor Jesus Cristo, no contexto da realização do próximo Sínodo dos Bispos, que terá a família como foco.

Desde a origem, homem e mulher experimentam o encantamento um pelo outro. Diz a Sagrada Escritura, no livro do Gênesis: “Da costela tirada do homem, o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. E o homem exclamou: ‘Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada humana porque do homem foi  tirada.’ Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”(Gn 2, 22-24). 
A reação do homem diante da beleza da mulher suscita nele uma exclamação, fruto de um êxtase, de um maravilhamento. O mesmo enlevo deve ter sentido a mulher diante do homem. A unidade simpática que se estabelece entre os dois é indescritível, profunda, essencial, dita aqui com a expressão “uma só carne”, que fala de algo materialmente impossível para ilustrar quão intenso e profundo é o sentimento que se estabelece entre os dois: o homem olha a mulher e se vê nela; a mulher olha o homem e se vê nele.
O encantamento humano entre o homem e a mulher é sagrado, coisa santa, desejado por Deus,  merecedor de um livro na Bíblia, feito poesia no Cântico dos Cânticos. Ouçamos um único exemplo: o homem canta, “Como o lírio entre espinhos, assim é minha amada, entre as moças”; canta a mulher, “Como a macieira entre as árvores dos bosques, assim é o meu amado, entre os moços”(Ct 2, 2-3).

O evangelho proclamado fala de uma família, a “Sagrada Família de Nazaré”, que nasce da  união entre José e Maria, e um filho que é obra da ação do Divino Espírito Santo. O que foi criado por Deus no início, o amor entre um homem e uma mulher, é santificado na Sagrada Família, desejada e formada para acolher a Deus mesmo em sua humanidade. 
A família formada pelo esposo, esposa e filhos, não é uma contingência ou acidente histórico, uma criação cultural,  é parte constitutiva do projeto de Deus para a pessoa humana, condição para a sua felicidade. As raízes desta família não se assentam no mundo e na história,  estão fincadas no coração de Deus, é um mistério. 
Durante sua vida, com sua ação e palavra, Nosso Senhor Jesus Cristo eleva a família assim constituída em sacramento, sinal de salvação. Ele afirma: “Nunca lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: ‘Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois formarão uma só carne?’ De modo que eles já não são dois , mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”(Mt 19, 4-6).

A fragilização e fragmentação  do modelo divino de família, compromete o presente e o futuro da Igreja e da sociedade, afetando gravemente a natureza e missão de cada uma delas. Muitos dos males que experimentamos hoje, como a violência, a indisciplina generalizada, a drogadição desenfreada,  o desrespeito pelo outro, o esquecimento de valores essenciais para uma sadia convivência, a corrupção, o abandono da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, e o consequente comprometimento na transmissão desta mesma fé a outras gerações, o distanciamento da dimensão comunitária da fé, nas comunidades e paróquias, entre tantos  outros males, podem ser ecos de famílias desestruturadas ou em processo de desintegração.  
Urge propor e educar as novas gerações, adolescentes e  jovens, para a beleza e dignidade do matrimonio cristão e da vida familiar conforme o projeto de Deus. É preciso restaurar e propor-lhes o namoro e o noivado, a serem vividos como uma escola para o matrimônio e a vida famíliar, condições necessárias para que uma família seja constituída de modo estável e capaz de resistir às muitas intempéries e tentações que assolam a vida conjugal e familiar neste terceiro milênio.

A contemplação de São José, sustentado na moldura da Sagrada Família, nos convoca a sermos missionários do casamento cristão e da família cristã na sociedade hodierna. Isto não poderá ser feito, ou não terá consistência, se não ajudarmos as pessoas a recuperarem a dimensão metafísica e transcendental da vida, se não fizerem uma experiência de Deus, se não acolherem Nosso Senhor Jesus Cristo como Salvador, se não forem conduzidos e introduzidos à vivência comunitária da fé, nos grupos, comunidades e paróquias. 

Estamos envolvidos na preparação do próximo Sínodo, a ser realizado em outubro do ano em curso, que tem como tema: “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. É neste contexto, e com as bênçãos desejadas de São José, que realizaremos neste sábado e domingo, em São José do Rio Preto, o Congresso sobre Família, com o mesmo tema “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo.”

Não deixemos de propor e repropor, insistentemente, aos adolescentes e jovens, o sacramento do matrimônio e a família cristã como vocação, uma resposta a ser dada a um chamado de Deus. Só assim serão felizes e contribuirão para o bem da Igreja e da sociedade.
“Jesus, Maria e José, nossa família vossa é!”


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP 

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