terça-feira, 24 de março de 2015

“Bendita sejais, Senhora das Dores; ouvi nossos rogos, Mãe dos pecadores!”

Na piedade popular, os sete dias que antecedem a “Semana Santa”, a “Semana Maior”, são dedicados à meditação e contemplação das “Sete Dores de Nossa Senhora”. Este ciclo mostra a participação de Nossa Senhora  no sofrimento de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, desde a sua infância até o seu sepultamento.
Emoldurada pela quaresma e pela  liturgia quaresmal, a solene recordação  das Dores de Nossa Senhora tornar-se para o fiel uma introdução pedagógica  no mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Uma espada traspassará a tua alma” (Lc 2, 35). “O pai e a mãe ficavam admirados com aquilo que diziam do menino. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe: ‘Este menino será causa de queda e de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição – uma espada traspassará a tua alma! – e assim serão revelados os pensamentos de muitos corações’” (Lc 2, 33-35).

A profecia do velho Simeão descortina  um horizonte de preocupação para Nossa Senhora: Como seu filho seria causa de queda e reerguimento para muitos em Israel? Como ele seria um sinal de contradição? O que queria dizer que seriam revelados os pensamentos de muitos corações? E mais, o que significaria concretamente que uma espada traspassaria a sua alma? 

Ao término da primeira  peregrinação em Jerusalém, resta no coração de Nossa Senhora mais perguntas que respostas, mais incerteza do que segurança. Uma nuvem escura começa a pairar na vida de Nossa Senhora, a primeira espada de dor está cravada em seu doce e imaculado coração. Nossa Senhora das Dores, rogai por nós!

“José levantou-se, de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para o Egito”(Mt 2, 14). “Depois que os magos se retiraram, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para mata-lo.’ José levantou-se, de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para o Egito; e lá ficou até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: ‘Do Egito chamei o meu filho’”(Mt 2, 13-15).

A volta de Belém, depois dos acontecimentos do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo,  não foi para o aconchego da casinha em Nazaré. Interrompendo o silêncio de uma noite, era preciso ajuntar o pouco que tinham levado a Belém, juntamente com os presentes dos pastores e dos magos, e partir para o desconhecido, o desterro, fugir da fúria de Herodes que desejava matar o Menino Jesus.

Os planos de José e Maria foram interrompidos, frustrados. Era preciso mudar de rota, refazer as estratégias, começar de novo em lugar desconhecido, sem estarem preparados. A nuvem escura na vida de Nossa Senhora torna-se mais densa, a segunda espada de dor está cravada em seu terno e materno coração. Nossa Senhora do Desterro, rogai por nós!

“Filho, por que agiste assim conosco? Olha, teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”(Lc 2, 48). “Todos os anos, os pais de Jesus iam a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando completou doze anos, eles foram para a festa, como de costume (...) ‘Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?’ Eles, porém, não compreenderam a palavra que ele lhes falou”(Lc 2, 41-52).

A peregrinação em Jerusalém, fato vivido anualmente na alegria da fé e da convivência com familiares e vizinhos, transforma-se em apreensão: na hora de voltar para casa, o adolescente Jesus não é encontrado, ficara no templo, entre os doutores, ouvindo e questionando-os inteligentemente.

José e Maria começam a compreender que Jesus adolescente começa a escapar-lhes, ele tem uma missão, que recebeu do Pai, e dela não se afastará, ainda que isto provoque angústia no coração daqueles que mais ama. A nuvem escura no coração de Maria assume contornos ilimitados, a terceira espada de dor está cravada no coração de Nossa Senhora. Nossa Senhora da Angústia, rogai por nós!

“Mulheres de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos!”(Lc 23, 28). “Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo  Simão, de Cirene, que voltava do campo, e mandaram-no carregar a cruz atrás de Jesus. Seguia-o uma grande multidão do povo, bem como de mulheres que batiam no peito e choravam por ele”(Lc 23, 26-27).

Nosso Senhor Jesus Cristo não estava só em Jerusalém, acompanhava-o os apóstolos, as piedosas mulheres, os discípulos e, certamente, Maria, sua mãe. Nossa Senhora acompanhou os acontecimentos da noite, após a Última Ceia: a agonia, prisão, flagelação e condenação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Agora, acompanhava-o no caminho do calvário.

Naquele meio da  manhã de sexta feira, no caminho do calvário, não foi possível sequer um abraço, mas houve o encontro dos olhares do Filho e da Mãe, acompanhado do silêncio, em contraste com o burburinho da turba. A nuvem escura no coração de Maria preanuncia tempestade, a quarta espada de dor está cravada no coração de Nossa Senhora. Nossa Senhora do Caminho do Calvário, rogai por nós!

“Junto à cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena”(Jo 19, 25). “Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe!’. A partir daquela hora, o discípulo a acolheu no que era seu”(Jo 19, 26-27).

Na solidão do calvário, na hora derradeira, mesmo entre soldados e curiosos, suspenso entre a terra e o céu, Nosso Senhor Jesus Cristo vê sua mãe e o discípulo São João; dirige-lhes não só o olhar, mas palavras derradeiras de cuidado; através de João, complementando o seu testamento, confia a Igreja a Maria e entrega Maria à Igreja.

Doravante, a Igreja não estará só, terá a companhia de Maria; Maria, não estará só, estará na Igreja. A nuvem escura no coração de Maria transforma-se em violenta tempestade, a quinta espada de dor está cravada no coração  de Nossa Senhora. Nossa Senhora das Lágrimas, rogai por nós!

“Então Pilatos mandou que lhe entregassem o corpo”(Mt 27,58). “Ao entardecer, veio um homem rico de Arimatéia, chamado José, que também se tornara discípulo de Jesus. Ele foi procurar Pilatos e pediu o corpo de Jesus”(Jo 27, 57-58).

Arimatéia, ajudado por João, o discípulo amado, pelas mulheres piedosas, e outros que ali se encontravam, desce o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo da cruz e entrega-o a Nossa Senhora que, genuflexa, o recebe sem vida em seus braços.

A fonte da vida, sem vida, repousa no abraço da mãe desfalecida. A nuvem escura no coração de Maria torna-se noite, solidão e abandono,  a sexta espada de dor é cravada  no coração de Nossa Senhora. Nossa Senhora da Piedade, rogai por nós!

“José comprou um lençol de linho, desceu Jesus da cruz, envolveu-o no lençol e colocou-o num túmulo escavado na rocha; depois, rolou uma pedra na entrada do túmulo”(Mc 15,46). “As mulheres que com Jesus vieram da Galiléia, acompanharam José e observaram o túmulo e o modo como o corpo ali era colocado”(Lc 23, 55).

Nossa Senhora acompanha, na esperança, o sepultamento do Filho. Tudo está terminado. Podemos colocar em seus lábios o canto triste da Verônica: “Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor semelhante à minha dor!”

Nosso Senhor Jesus Cristo, no silêncio máximo do sábado santo, desce ao “inferno” para resgatar as pessoas boas que o aguardaram por séculos. A nuvem atinge o máximo da escuridão no coração de Nossa Senhora, a sétima espada de dor é cravada em seu coração. Nossa Senhora Abandonada, rogai por nós!

Nossa Senhora nos ajude a aproximarmos do mistério da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, com o seu olhar e o seu coração. Santa  Semana Santa a todos!

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP 

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