terça-feira, 24 de março de 2015

“Bendita sejais, Senhora das Dores; ouvi nossos rogos, Mãe dos pecadores!”

Na piedade popular, os sete dias que antecedem a “Semana Santa”, a “Semana Maior”, são dedicados à meditação e contemplação das “Sete Dores de Nossa Senhora”. Este ciclo mostra a participação de Nossa Senhora  no sofrimento de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, desde a sua infância até o seu sepultamento.
Emoldurada pela quaresma e pela  liturgia quaresmal, a solene recordação  das Dores de Nossa Senhora tornar-se para o fiel uma introdução pedagógica  no mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Uma espada traspassará a tua alma” (Lc 2, 35). “O pai e a mãe ficavam admirados com aquilo que diziam do menino. Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe: ‘Este menino será causa de queda e de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição – uma espada traspassará a tua alma! – e assim serão revelados os pensamentos de muitos corações’” (Lc 2, 33-35).

A profecia do velho Simeão descortina  um horizonte de preocupação para Nossa Senhora: Como seu filho seria causa de queda e reerguimento para muitos em Israel? Como ele seria um sinal de contradição? O que queria dizer que seriam revelados os pensamentos de muitos corações? E mais, o que significaria concretamente que uma espada traspassaria a sua alma? 

Ao término da primeira  peregrinação em Jerusalém, resta no coração de Nossa Senhora mais perguntas que respostas, mais incerteza do que segurança. Uma nuvem escura começa a pairar na vida de Nossa Senhora, a primeira espada de dor está cravada em seu doce e imaculado coração. Nossa Senhora das Dores, rogai por nós!

“José levantou-se, de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para o Egito”(Mt 2, 14). “Depois que os magos se retiraram, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para mata-lo.’ José levantou-se, de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para o Egito; e lá ficou até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: ‘Do Egito chamei o meu filho’”(Mt 2, 13-15).

A volta de Belém, depois dos acontecimentos do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo,  não foi para o aconchego da casinha em Nazaré. Interrompendo o silêncio de uma noite, era preciso ajuntar o pouco que tinham levado a Belém, juntamente com os presentes dos pastores e dos magos, e partir para o desconhecido, o desterro, fugir da fúria de Herodes que desejava matar o Menino Jesus.

Os planos de José e Maria foram interrompidos, frustrados. Era preciso mudar de rota, refazer as estratégias, começar de novo em lugar desconhecido, sem estarem preparados. A nuvem escura na vida de Nossa Senhora torna-se mais densa, a segunda espada de dor está cravada em seu terno e materno coração. Nossa Senhora do Desterro, rogai por nós!

“Filho, por que agiste assim conosco? Olha, teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”(Lc 2, 48). “Todos os anos, os pais de Jesus iam a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando completou doze anos, eles foram para a festa, como de costume (...) ‘Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devo estar naquilo que é de meu Pai?’ Eles, porém, não compreenderam a palavra que ele lhes falou”(Lc 2, 41-52).

A peregrinação em Jerusalém, fato vivido anualmente na alegria da fé e da convivência com familiares e vizinhos, transforma-se em apreensão: na hora de voltar para casa, o adolescente Jesus não é encontrado, ficara no templo, entre os doutores, ouvindo e questionando-os inteligentemente.

José e Maria começam a compreender que Jesus adolescente começa a escapar-lhes, ele tem uma missão, que recebeu do Pai, e dela não se afastará, ainda que isto provoque angústia no coração daqueles que mais ama. A nuvem escura no coração de Maria assume contornos ilimitados, a terceira espada de dor está cravada no coração de Nossa Senhora. Nossa Senhora da Angústia, rogai por nós!

“Mulheres de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos!”(Lc 23, 28). “Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo  Simão, de Cirene, que voltava do campo, e mandaram-no carregar a cruz atrás de Jesus. Seguia-o uma grande multidão do povo, bem como de mulheres que batiam no peito e choravam por ele”(Lc 23, 26-27).

Nosso Senhor Jesus Cristo não estava só em Jerusalém, acompanhava-o os apóstolos, as piedosas mulheres, os discípulos e, certamente, Maria, sua mãe. Nossa Senhora acompanhou os acontecimentos da noite, após a Última Ceia: a agonia, prisão, flagelação e condenação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Agora, acompanhava-o no caminho do calvário.

Naquele meio da  manhã de sexta feira, no caminho do calvário, não foi possível sequer um abraço, mas houve o encontro dos olhares do Filho e da Mãe, acompanhado do silêncio, em contraste com o burburinho da turba. A nuvem escura no coração de Maria preanuncia tempestade, a quarta espada de dor está cravada no coração de Nossa Senhora. Nossa Senhora do Caminho do Calvário, rogai por nós!

“Junto à cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe e a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena”(Jo 19, 25). “Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe!’. A partir daquela hora, o discípulo a acolheu no que era seu”(Jo 19, 26-27).

Na solidão do calvário, na hora derradeira, mesmo entre soldados e curiosos, suspenso entre a terra e o céu, Nosso Senhor Jesus Cristo vê sua mãe e o discípulo São João; dirige-lhes não só o olhar, mas palavras derradeiras de cuidado; através de João, complementando o seu testamento, confia a Igreja a Maria e entrega Maria à Igreja.

Doravante, a Igreja não estará só, terá a companhia de Maria; Maria, não estará só, estará na Igreja. A nuvem escura no coração de Maria transforma-se em violenta tempestade, a quinta espada de dor está cravada no coração  de Nossa Senhora. Nossa Senhora das Lágrimas, rogai por nós!

“Então Pilatos mandou que lhe entregassem o corpo”(Mt 27,58). “Ao entardecer, veio um homem rico de Arimatéia, chamado José, que também se tornara discípulo de Jesus. Ele foi procurar Pilatos e pediu o corpo de Jesus”(Jo 27, 57-58).

Arimatéia, ajudado por João, o discípulo amado, pelas mulheres piedosas, e outros que ali se encontravam, desce o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo da cruz e entrega-o a Nossa Senhora que, genuflexa, o recebe sem vida em seus braços.

A fonte da vida, sem vida, repousa no abraço da mãe desfalecida. A nuvem escura no coração de Maria torna-se noite, solidão e abandono,  a sexta espada de dor é cravada  no coração de Nossa Senhora. Nossa Senhora da Piedade, rogai por nós!

“José comprou um lençol de linho, desceu Jesus da cruz, envolveu-o no lençol e colocou-o num túmulo escavado na rocha; depois, rolou uma pedra na entrada do túmulo”(Mc 15,46). “As mulheres que com Jesus vieram da Galiléia, acompanharam José e observaram o túmulo e o modo como o corpo ali era colocado”(Lc 23, 55).

Nossa Senhora acompanha, na esperança, o sepultamento do Filho. Tudo está terminado. Podemos colocar em seus lábios o canto triste da Verônica: “Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor semelhante à minha dor!”

Nosso Senhor Jesus Cristo, no silêncio máximo do sábado santo, desce ao “inferno” para resgatar as pessoas boas que o aguardaram por séculos. A nuvem atinge o máximo da escuridão no coração de Nossa Senhora, a sétima espada de dor é cravada em seu coração. Nossa Senhora Abandonada, rogai por nós!

Nossa Senhora nos ajude a aproximarmos do mistério da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, com o seu olhar e o seu coração. Santa  Semana Santa a todos!

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP 

sexta-feira, 20 de março de 2015

São José e o projeto divino para a família humana

Alegres e esperançosos, celebramos a Santa Missa, na Solenidade de São José, anjo tutelar  da cidade de São José do Rio Preto, que celebra 163 anos de fecunda existência, colocada, desde os primórdios, sob os auspícios  de tão insigne santo.

Iluminados pela Palavra de Deus, proclamada e ouvida, convido-os a contemplar a pessoa de São José, à luz do Mistério Pascal, como membro da Sagrada Família, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria e pai custódio de Nosso Senhor Jesus Cristo, no contexto da realização do próximo Sínodo dos Bispos, que terá a família como foco.

Desde a origem, homem e mulher experimentam o encantamento um pelo outro. Diz a Sagrada Escritura, no livro do Gênesis: “Da costela tirada do homem, o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. E o homem exclamou: ‘Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada humana porque do homem foi  tirada.’ Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne”(Gn 2, 22-24). 
A reação do homem diante da beleza da mulher suscita nele uma exclamação, fruto de um êxtase, de um maravilhamento. O mesmo enlevo deve ter sentido a mulher diante do homem. A unidade simpática que se estabelece entre os dois é indescritível, profunda, essencial, dita aqui com a expressão “uma só carne”, que fala de algo materialmente impossível para ilustrar quão intenso e profundo é o sentimento que se estabelece entre os dois: o homem olha a mulher e se vê nela; a mulher olha o homem e se vê nele.
O encantamento humano entre o homem e a mulher é sagrado, coisa santa, desejado por Deus,  merecedor de um livro na Bíblia, feito poesia no Cântico dos Cânticos. Ouçamos um único exemplo: o homem canta, “Como o lírio entre espinhos, assim é minha amada, entre as moças”; canta a mulher, “Como a macieira entre as árvores dos bosques, assim é o meu amado, entre os moços”(Ct 2, 2-3).

O evangelho proclamado fala de uma família, a “Sagrada Família de Nazaré”, que nasce da  união entre José e Maria, e um filho que é obra da ação do Divino Espírito Santo. O que foi criado por Deus no início, o amor entre um homem e uma mulher, é santificado na Sagrada Família, desejada e formada para acolher a Deus mesmo em sua humanidade. 
A família formada pelo esposo, esposa e filhos, não é uma contingência ou acidente histórico, uma criação cultural,  é parte constitutiva do projeto de Deus para a pessoa humana, condição para a sua felicidade. As raízes desta família não se assentam no mundo e na história,  estão fincadas no coração de Deus, é um mistério. 
Durante sua vida, com sua ação e palavra, Nosso Senhor Jesus Cristo eleva a família assim constituída em sacramento, sinal de salvação. Ele afirma: “Nunca lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: ‘Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois formarão uma só carne?’ De modo que eles já não são dois , mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”(Mt 19, 4-6).

A fragilização e fragmentação  do modelo divino de família, compromete o presente e o futuro da Igreja e da sociedade, afetando gravemente a natureza e missão de cada uma delas. Muitos dos males que experimentamos hoje, como a violência, a indisciplina generalizada, a drogadição desenfreada,  o desrespeito pelo outro, o esquecimento de valores essenciais para uma sadia convivência, a corrupção, o abandono da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, e o consequente comprometimento na transmissão desta mesma fé a outras gerações, o distanciamento da dimensão comunitária da fé, nas comunidades e paróquias, entre tantos  outros males, podem ser ecos de famílias desestruturadas ou em processo de desintegração.  
Urge propor e educar as novas gerações, adolescentes e  jovens, para a beleza e dignidade do matrimonio cristão e da vida familiar conforme o projeto de Deus. É preciso restaurar e propor-lhes o namoro e o noivado, a serem vividos como uma escola para o matrimônio e a vida famíliar, condições necessárias para que uma família seja constituída de modo estável e capaz de resistir às muitas intempéries e tentações que assolam a vida conjugal e familiar neste terceiro milênio.

A contemplação de São José, sustentado na moldura da Sagrada Família, nos convoca a sermos missionários do casamento cristão e da família cristã na sociedade hodierna. Isto não poderá ser feito, ou não terá consistência, se não ajudarmos as pessoas a recuperarem a dimensão metafísica e transcendental da vida, se não fizerem uma experiência de Deus, se não acolherem Nosso Senhor Jesus Cristo como Salvador, se não forem conduzidos e introduzidos à vivência comunitária da fé, nos grupos, comunidades e paróquias. 

Estamos envolvidos na preparação do próximo Sínodo, a ser realizado em outubro do ano em curso, que tem como tema: “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. É neste contexto, e com as bênçãos desejadas de São José, que realizaremos neste sábado e domingo, em São José do Rio Preto, o Congresso sobre Família, com o mesmo tema “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo.”

Não deixemos de propor e repropor, insistentemente, aos adolescentes e jovens, o sacramento do matrimônio e a família cristã como vocação, uma resposta a ser dada a um chamado de Deus. Só assim serão felizes e contribuirão para o bem da Igreja e da sociedade.
“Jesus, Maria e José, nossa família vossa é!”


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP 

quarta-feira, 18 de março de 2015

São José, servo bom, prudente e fiel

São José, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria e padroeiro da Igreja. São José é recordado duas vezes na liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana: em dezenove de março, como solenidade; e primeiro de maio, com o título de São José Operário, como memória facultativa. Celebramos  o mistério de Nosso Senhor Jesus Cristo na vida de São José, membro da Sagrada Família e inspiração para os trabalhadores.

São José, servo bom, prudente e fiel. A antífona de entrada da solenidade, inspirada em Lucas 12, 42, mostra  o modo como a Igreja contempla a pessoa de São José: “Eis o servo fiel e prudente, a quem o Senhor confiou a sua casa”. A ele Deus confiou as “primícias da Igreja”, reza a oração da coleta, mostrando a sua missão de esposo de Maria e “pai nutrício” de Nosso Senhor Jesus Cristo. Na Sagrada Família, São José desempenha a sua missão como servo cuja ação é marcada pela bondade, prudência e fidelidade.

São José, da família de Davi. Cumprindo a promessa feita a Davi (cf 2Sm 7, 4-16), através de São José é garantida a Nosso Senhor Jesus Cristo a ascendência davídica, conforme descrito no evangelho de São Mateus 1, 1-16. A genealogia descrita termina com estas palavras: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo.” Ao acolher Nossa Senhora como esposa, São José acolhe legalmente Nosso Senhor Jesus Cristo como filho e garante a Ele o vínculo com Davi e Abraão: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”(Mt 1,1).

São José, um peregrino.  Os evangelhos mostram que São José realiza três peregrinações: de Nazaré a Belém (Lc 2,4); de Belém ao Egito (Mt 2, 14); do Egito a Nazaré (Mt 2, 19-23). Pensar São José como peregrino, para preservar a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora, é contemplá-lo à sombra das grandes peregrinações vétero-testamentárias, sobretudo de Abraão e Moisés. São José fez-se um peregrino pela causa do Reino de Deus, presente em Nosso Senhor Jesus Cristo.

São José, cumpridor da Lei. São José era frequentador do Templo, em Jerusalém: leva o Menino Jesus e Maria, após o nascimento, para cumprir as prescrições da circuncisão e apresentação do Menino  e a purificação da Mãe (Lc 2, 21-24);  era seu costume ir ao Templo por ocasião da festa da Páscoa (Lc  2, 41-51). A sua atenção à Lei mostra um aspecto da sua justiça: “José, seu esposo, sendo justo (...)”(Mt 1,19). Ele contribui com sua práxis para introduzir Nosso Senhor Jesus Cristo na “fé judaica”.

São José, atento à Vontade de Deus e pronto para agir. Ao tomar consciência da gravidez de Nossa Senhora, São José, em sonho, é informado dos planos de Deus (Mt 1, 18-25). Ao final, a sua atitude é resoluta: “Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor tinha mandado e acolheu sua esposa” (Mt 1, 24). Semelhante discernimento e resolução ocorre por ocasião da “fuga para o Egito”(Mt 2, 13-15). Conhecendo a Vontade de Deus, São José não titubeia, mas crê, confia e faz sua a Vontade de Deus, participa como “coadjuvante” da História da Salvação, pronta e humildemente.
São José, servo bom, prudente e fiel, rogai por nós!

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

terça-feira, 10 de março de 2015

Silêncio Quaresmal

Nosso tempo, talvez mais do que outros, tem uma diversidade e proliferação de sons e imagens. Tudo é encantador e fascinante. Com a acessibilidade aos novos recursos e tecnologias, vivemos numa inundação de sons e imagens. A própria sociedade encontra dificuldade para disciplinar a “poluição sonora e visual”.

Ao mesmo tempo, vivemos na sociedade da mutabilidade e do movimento, nada permanece por tempo razoável, há uma sucessão interminável de versões de um mesmo fato, tudo caduca com rapidez. A comunicação, visual e oral, é feita para pessoas em movimento, que aprenderam a fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Vivemos como pessoas inquietas, irrequietas, incapazes de permanecer por um tempo bom em um determinado espaço ou condição. Somos agentes e vítimas de uma dispersão física que provoca uma falta de concentração da mente e do coração. Expulsamos a quietude e o silêncio da nossa vida.

No ciclo litúrgico da Igreja, a quaresma é um tempo que conclama os fiéis ao silêncio, exterior e interior. A supressão das flores e dos adornos nas igrejas e espaços celebrativos, o emudecer dos instrumentos musicais, a utilização da cor roxa, a supressão do toque festivo dos sinos, a omissão do “aleluia” e do “canto do glória” são alguns sinais litúrgicos de um tempo que deve  ser vivido no silêncio também, e antes de tudo, no dia a dia.

A ausência do silêncio na quaresma é um sinal, entre outros, de que os católicos vão desfigurando e fragilizando a identidade deste tempo santo que vai se tornando um tempo como qualquer outro ao longo do ano litúrgico.

A diluição do sentido da quaresma, com a perda ou esquecimento voluntário de seus sinais característicos, acarreta uma inadequada vivência e celebração do Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo na semana santa, no tempo pascal e no restante do ano litúgico.

Convido os fiéis católicos a retomarem o virtuoso hábito do silêncio, interior e exterior, como condição necessária  para uma saudável vida espiritual. A quaresma é um bom tempo para começar a experimentar o silêncio como companheiro inseparável de vida.

Nas celebrações litúrgicas, sobretudo na Missa, mas também nas outras celebrações, é preciso recuperar o tempo próprio do silêncio, por exemplo: no ato penitencial, após as leituras ou  homilia, no final da oração dos fiéis e após a comunhão eucarística.

Os sacerdotes e o conselho pastoral de cada paróquia, capela ou comunidade, devem estimular, promover e assegurar o silêncio nas igrejas e espaços sagrados, durante todo o tempo,  sobretudo nos momentos que antecedem e sucedem as celebrações, quando os fiéis devem se recolher para a oração pessoal e silenciosa.

O devido silêncio nas celebrações e nos espaços sagrados é um direito inalienável do fiel que deve ser buscado e promovido por todos. Que o silêncio sagrado, calar-se diante do Mistério, motive e leve ao silêncio existencial de cada dia, quando paramos para ouvir a Deus, pressuposto para falar com Deus na oração.

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

sexta-feira, 6 de março de 2015

Fraternidade: Igreja e Sociedade


Desde 1964, a Igreja Católica Apostólica Romana realiza no Brasil a Campanha da Fraternidade, uma ação pastoral que envolve as dioceses no território nacional, buscando a renovação interna da Igreja, preocupando-se com a realidade social do povo brasileiro, denunciando o pecado social e promovendo a justiça, e voltando-se para situações existenciais específicas dos brasileiros.

Neste ano de 2015, com o tema “Fraternidade: Igreja e Sociedade”, e com o lema “Eu vim para servir”, os católicos são chamados a “Aprofundar, à luz do Evangelho, o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a Sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus.”

A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, 42, faz uma afirmação assustadora: “ o cristão que descuida dos seus deveres temporais falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio Deus, e põe em risco a sua salvação eterna.”

Diante das periferias existenciais que perduram na sociedade brasileira e não desejando a globalização da indiferença diante do sofrimento do outro, a Campanha da Fraternidade propõe ao católico:

1. Recuperar a dimensão missionária do Batismo, construindo uma Igreja em saída, para testemunhar a alegria do Evangelho, doando Nosso Jesus Cristo, nosso único e inestimável tesouro, aos homens e mulheres do nosso tempo;

2. Realizar o discernimento evangélico dos sinais dos tempos, procurando escutar o que Deus quer de nós hoje;

3. Participar das Pastorais Sociais promovendo uma caridade responsável e libertadora, sem assumir espaços e papéis que são do Estado;

4. Dialogar e cooperar com o Estado na busca e promoção do bem comum;

5. Buscar a superação da violência e construir a paz;

6. Participar das associações de bairros, organizações populares, conselhos paritários e sindicatos, difundindo nestes ambientes os valores cristãos e a Doutrina Social da Igreja;

7. Apresentar-se como candidatos aos cargos do executivo e legislativo, em todas as esferas, ocupando espaços políticos como oportunidades únicas de vivenciar, para o bem comum, uma alta e singularíssima forma de caridade;

8. Trabalhar no judiciário, para que seja autêntico promotor da justiça, imbuído de espírito cristão;

9. Participar ativamente da “Coalizão Democrática para a Reforma Política e Eleições Limpas” apoiando o projeto de iniciativa popular que propõe: afastar o poder econômico das eleições e implantar o financiamento democrático, público e de pessoas físicas, ambos com limites; adotar o sistema eleitoral proporcional em dois turnos, pelo qual o eleitor inicialmente vota num programa partidário e posteriormente escolhe um dos nomes da lista ordenada no partido; fortalecer a democracia direta, através dos preceitos constitucionais do plebiscito, do referendo e do projeto de lei de iniciativa popular; ampliar o papel da mulher na política, pois as mulheres representam 51% dos eleitores, mas com apenas 9% de mulheres na ação política.

10. Nunca esquecer que a pessoa não existe para o Estado, mas o Estado existe em função da pessoa.

A Igreja Católica tem consciência que “O Estado, como Estado, independe de uma religião, mas não independe da sociedade, das pessoas que creem. (…) Os cristãos têm como direito de cidadão, de cidadã, serem ativos e propositivos em relação à sociedade e, por isso, ao Estado.”

“Na sociedade, vive-se a crise da modernidade, erigida sem referência ao transcendente e sobre a independência do indivíduo.” Neste contexto, é preciso garantir aos católicos, já de alguma forma discriminados em algumas instâncias e organismos, a liberdade de anunciar o Evangelho de modo integral, mesmo quando ele está em contraste com o mundo.

São José, o Carpinteiro de Nazaré e Guarda da Sagrada Família, padroeiro da nossa cidade, que recebeu o seu nome, nos ajude a não esquecermos a dimensão social da nossa fé.

Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, nos acompanhe, com seu coração e olhar terno e materno, a uma aproximação sincera e pia da celebração litúrgica do Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo, para o qual nos preparamos, desde já, com este tempo santo da quaresma.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP