terça-feira, 30 de dezembro de 2014

“NÃO MAIS ESCRAVOS, MAS IRMÃOS.”

O dia primeiro de janeiro é o “Dia mundial da Paz e da Fraternidade Universal.” A paz é um  desejo genuíno e profundo que nasce i. é cultivado no coração humano. Somos irmãos, partilhamos a mesma natureza humana, recebida como dom de Deus, nosso Criador e Salvador. Nosso Deus é o Deus da Paz e nos propõe viver em paz e a edificá-la na convivência social.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, nos convoca para fazer de 2015 um “Ano da Paz”, como resposta a uma violência multifacetada e generalizada que se espalha pelo País e torna-se um problema social que clama aos céus e exige dos governantes uma política pública de segurança que seja eficaz, proteja os cidadãos e permita-lhes viver em paz.

A violência institucionalizada, estrutural, em suas múltiplas manifestações, nasce, em última instância, do coração humano e se manifesta primeiramente no indivíduo e se alastra na família, nos grupos e instituições sociais, povos e nações. Variados  fatores, de ordem pessoal e social, levam os cidadãos ao uso da violência. As desigualdades sociais e o consumismo exacerbado, fruto da criação ininterrupta de novas e artificiais necessidades, constituem uma moldura que sustenta, estimula e alimenta a cadeia da violência.

Um componente que potencializa a ação violenta é o consumo de bebidas alcoólicas e de drogas, fato sem nenhum controle e que cresce a passos largos, sem perspectiva de diminuição e extinção. Além da inexistência de uma vontade política firme e contínua para combater o tráfico e o consumo de drogas lícitas e ilícitas, faltam políticas públicas consistentes, nos diversos níveis de governo, de combate ao consumo e comércio de bebidas alcoólicas e drogas.

O Papa Francisco propõe para o dia primeiro de janeiro de 2015, Quadragésimo Oitavo Dia Mundial da Paz, uma mensagem intitulada “Não mais escravos, mas irmãos”, que está em consonância e continuidade com a mensagem do primeiro dia do ano de 2014 “Fraternidade, fundamento e caminho para a paz.” O olhar do Santo Padre dirige-se para horizontes mais amplos, reconhecendo que no mundo parcelas significativas das sociedades vivem escravizadas ou em condição análoga a de escravidão. A sua mensagem é uma convocação para a promoção da fraternidade entre povos e culturas, chamando as nações enriquecidas a gestos substanciais de solidariedade que possam eliminar questões que denigrem a dignidade humana como a fome, a miséria, condições insalubres de vida, falta de liberdade e de trabalho.

Estamos iniciando o ano novo de 2015, um tempo de graça, dom de Deus que nos permite continuar vivendo e construindo este novo tempo. Como projeto de vida para este novo ano podemos nos comprometer a viver em paz e a promovê-la na família, nas instituições em que participamos e na sociedade. Podemos fazer muito: assimilar em nossa vida a paz de Deus que nos é dada por Nosso Senhor Jesus Cristo; abolir o consumo de bebidas alcoólicas e drogas; buscar uma convivência fraterna e amiga na família, na escola, no trabalho, no bairro e na cidade; combater a desigualdade social, para isto fazendo uso da solidariedade como expressão da caridade; combater o consumismo nefasto; exigir dos governantes políticas públicas eficazes que combatam o tráfico e consumo de drogas e promovam a segurança dos cidadãos.

Acolha minha saudação e amplexo de Ano Novo! Deus nos abençoe! Que ao longo de 2015 não nos falte o carinho terno e materno de Nossa Senhora, Mãe de Deus.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP.



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

EVOCAÇÕES DE NATAL

Há 2014 anos nasceu em Belém de Judá o Menino Jesus: “Naqueles dias, saiu um decreto do imperador Augusto mandando fazer o recenseamento de toda a terra – o primeiro recenseamento, feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade. Também José, que era da família e da descendência de Davi, subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, à cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Quando estavam ali, chegou o tempo do parto. Ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc2, 1-7).

A memória e a celebração litúrgica do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Divino Salvador, nos propicia evocações natalinas que são fundamentais para a humanidade:

O anjo anuncia aos pastores, que se encontravam no campo, nos arredores de Belém: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também a de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor!” (Lc2, 10-11). O Menino Jesus é homem como os homens, menos no pecado. Ao mesmo tempo, é “diverso” dos homens, pois é Filho de Deus, como disse o anjo Gabriel a Nossa Senhora: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer será chamado santo, Filho de Deus” (Lc1, 35). O nascimento que celebramos no Natal não é de uma pessoa como as outras, mas o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Divino Salvador, único e insubstituível.

“Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura” (Lc2, 16). Nas breves palavras deste versículo está registrada a Sagrada Família de Nazaré: Jesus, Maria e José. Ao vir ao mundo, Deus desejou e preparou para si uma família. Cada um de nós tem a sua família. E a nossa família, como foi a Sagrada Família de Nazaré, é a casa do amor, onde somos amados e aprendemos a amar. Vamos preservar, amar e estimular a família, tal como vem proposta pela Sagrada Escritura: “ Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne.”(Gn2, 24). Uma família abençoada por Nosso Senhor Jesus Cristo: “De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe” (Mt19,6). O Natal é a festa da Sagrada Família, uma festa a ser celebrada em família.

Em sonho, um anjo do Senhor diz a São José: “Ela dará à luz um filho, e tu lhe porás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1, 21). São José e Nossa Senhora acolhem na fé e na alegria o filho que lhes é dado, filho que tem a missão de salvar a humanidade do pecado. Para um casal, os filhos são uma bênção de Deus, a realização de um dos fins do sacramento do matrimônio, a realização de um desejo de Deus: “Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou. E Deus abençoou e lhes disse: ‘Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a!’”(Gn 1, 27-28ª). Trabalhemos para que nossas famílias estejam sempre abertas para acolher os filhos. Façamos o impossível para que a vida nascente não seja extirpada. A vida é dom de Deus, um dom a ser acolhido e cultivado em na família.

“Glória a Deus no mais alto dos céus, e na terra, paz aos que são do seu agrado!” (Lc 2, 14). É este o canto dos anjos depois do anúncio aos pastores do nascimento do Menino Jesus. A paz é um dos grandes desejos do coração humano e da humanidade. Assistimos, estarrecidos, o desenvolvimento da cultura da violência, que se exprime em diversos níveis: pessoal, entre indivíduos, em família, entre grupos, povos e nações. A violência, que brota do coração humano, desenvolve-se nas instituições sociais e chega a ser estrutural, é a rejeição da paz que Nosso Senhor Jesus Cristo veio trazer para a humanidade: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não é à maneira do mundo que eu a dou. Não se perturbe, nem se atemorize o vosso coração” (Jo 14,27). O Natal é a festa da paz, da paz que vem de Deus. Vivamos o Natal em paz, pessoalmente, com os outros e em família. Que no tempo do Natal cessem as guerras e a terra tenha um tempo de paz.

Diante do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, nossa atitude deve ser a de prostração e adoração, como fizeram os magos: “Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra”(Mt2, 11). A adoração silenciosa é a mais sublime e bela forma de oração, cala a voz, fala a pessoa através dos seus gestos corporais, o silêncio torna-se um brado que fende o céu e chega a Deus. Ajoelhemo-nos diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, deixemos que ele seja Deus em nossa vida, digamos sim  e deixemos que ele reine e seja Senhor em nós, e por nosso intermédio se estabeleça o seu senhorio e o seu reinado de amor e paz no mundo.

Santo Natal! Que a alegria deste tempo perdure ao longo do ano de 2015. Feliz ano novo!

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

NOSSA SENHORA DO Ó!


Passou a primeira parte do Advento. Através dos textos bíblicos e litúrgicos, cultivamos a expectativa da vinda gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, no fim dos tempos, quando virá julgar os vivos e os mortos e sua glória de ressuscitado será manifesta nos filhos e filhas de Deus, no mundo criado e na história, produto da ação humana e orientada para Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Como peregrinos em terra estrangeira, pois nossa pátria é o céu, também clamamos: “Vem, Senhor Jesus!”

Entre os dias dezessete e vinte e quatro de dezembro, nos preparamos para celebrar na liturgia e na vida os dois mil e quatorze anos do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os textos bíblicos e litúrgicos nos recordarão as profecias e os fatos que marcaram o nascimento do nosso Divino Salvador, em Belém de Judá, acolhido por Maria, Nossa Senhora, e São José, que lhe garantiu a ascendência davídica, cumprindo as profecias.

Nestes dias, a liturgia da Missa, na aclamação ao Evangelho, e a Liturgia das Horas, na antífona das vésperas, trazem sete aclamações ou antífonas que começam com a exclamação “Ó”, manifestando a grandiosidade do nascimento do Divino Salvador. Estes oito dias são marcados pelo nosso olhar dirigido a Maria, chamada de Nossa Senhora do Ó ou Nossa Senhora da Expectação, que segue para Belém, montada em um burrico, nos últimos dias da gravidez, conduzida por São José, onde nascerá o Menino Jesus.

Proponho para nossa meditação e oração as antífonas do “Ó”:

1.“Ó Sabedoria, que saístes da boca do Altíssimo, e atingis até os confins de todo o universo e com força e suavidade governais o mundo inteiro: oh vinde ensinar-nos o caminho da prudência!”
2.“Ó Adonai, guia da casa de Israel, que aparecestes a Moisés na sarça ardente e lhe destes vossa lei sobre o Sinai: vinde salvar-nos com o braço poderoso!”
3.“Ó Raiz de Jessé, ó estandarte, levantado em sinal para as nações! Ante vós se calarão os reis da terra, e as nações implorarão misericórdia: Vinde salvar-nos! Libertai-nos sem demora!”
4.“Ó Chave de Davi, Cetro da casa de Israel, que abris e ninguém fecha, que fechais e ninguém abre: vinde logo e libertai o homem prisioneiro, que, nas trevas e na sombra da morte, está sentado!”
5.“Ó Sol nascente justiceiro, resplendor da Luz eterna: Oh, vinde e iluminai os que jazem entre as trevas e, na sombra do pecado e da morte, estão sentados!”
6.“Ó Rei das nações. Desejado dos povos; Ó Pedra angular, que os opostos unis: Ó, vinde e salvai este homem tão frágil, que um dia criastes do barro da terra!”
7.“Ó Emanuel: Deus-conosco, nosso Rei Legislador, Esperança das nações e dos povos Salvador: Vinde enfim para salvar-nos, ó Senhor e nosso Deus!”

Ao longo desta semana que precede a memória do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, podemos rezar diariamente uma destas antífonas ou exclamações, repetindo-a diversas vezes ao longo do dia. Elas nos ajudam a rezar o Natal inspirados e iluminados por fatos e linguagem da Sagrada Escritura, pois Nosso Senhor Jesus Cristo é evocado com expressões que remetem à História da Salvação. Na celebração da Missa e na recitação da Liturgia das Horas, vésperas, podemos ressaltar a beleza destas aclamações cantando-as correta e dignamente.

Em nossas famílias e igrejas, bem como nos locais de trabalho, é hora de iniciar a preparação do presépio, para que esteja pronto na noite do dia vinte e quatro, quando aí colocamos a imagem do Menino Jesus e acendemos a vela ou as luzes. Este momento deve ser acompanhado por um momento de oração, que deve ser de adoração e gratidão a Deus, que veio ao mundo para nos salvar.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP