quarta-feira, 26 de novembro de 2014

“O MUNDO VAI ACABAR!”

Vivemos a aflição das poucas chuvas no sudeste, o que esvaziou os reservatórios das usinas hidrelétricas, mas também aqueles destinados ao consumo humano. Há muito se fala da escassez da “água doce” e de outros recursos naturais indispensáveis para a sobrevivência humana.

Os ecologistas, de modo incisivo, e os governos manifestam preocupação diante de fenômenos como desmatamento, aquecimento global, exaustão do planeta terra, uso indiscriminado dos recursos naturais, poluição ambiental e destruição de ecossistemas.

Alguns alarmistas, diante de um cenário mundial pouco comprometido com a natureza, falam da “proximidade” do fim da vida humana sobre a terra ou de sua possível destruição pela pessoa humana, consequência do uso irracional e irresponsável dos recursos naturais e do descuido generalizado com o planeta terra.

A ideia do “fim do mundo” não é nova. Sempre aparece e reaparece ao longo da história. A própria filosofia, através da cosmologia e da filosofia da história, acena para o fim de tudo o que é criado, tudo tem começo, meio e fim, ou nasce, cresce e morre.

Na vida litúrgica da Igreja Católica Apostólica Romana, nos aproximamos do “Tempo do Advento” que nos predispõe para a celebração do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas que na sua primeira parte, até dezessete de dezembro, nos convoca à vigilância diante da certeza e da perspectiva da volta de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando seremos glorificados como Ele, com a sua glória de Ressuscitado.

O tema dos últimos tempos e das últimas realidades que aguardam a pessoa humana, de modo pessoal ou coletivo, na teologia da Igreja Católica Apostólica Romana, é denominado de “escatologia”. Na Sagrada Escritura, estas realidades são tratadas, muitas vezes, em estilo apocalíptico, falando de convulsões naturais e sociais, de sofrimento e aflição para a pessoa humana. A manifestação gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo, no fim dos tempos, é denominada de “parusia”.

Vejamos o que diz a Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, no número trinta e nove, sobre o “fim do mundo”, uma síntese da fé da Igreja Católica Apostólica Romana.

“Nós ignoramos o tempo da consumação da terra e da humanidade e desconhecemos a maneira de transformação do universo. Passa certamente a figura deste mundo deformada pelo pecado, mas aprendemos que Deus prepara morada nova e nova terra. Nela habita a justiça e sua felicidade irá satisfazer e superar todos os desejos da paz que sobem nos corações dos homens. Então, vencida a morte, os filhos de Deus ressuscitarão em Cristo, e o que foi semeado na fraqueza e na corrupção revestir-se-á de incorrupção. Permanecerão o amor e sua obra e será libertada da servidão da vaidade toda aquela criação que Deus fez para o homem.

Somos advertidos, com efeito, de que não adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder a si mesmo. Contudo a esperança de uma nova terra, longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra. Nela cresce o Corpo da nova família humana que já pode apresentar algum esboço do novo século. Por isso, ainda que o progresso terreno deva ser cuidadosamente distinguido do aumento do Reino de Cristo, contudo é de grande interesse para o Reino de Deus, na medida em que pode contribuir para organizar a sociedade humana.

Depois que propagarmos na terra, no Espírito do Senhor e por Sua ordem, os valores da dignidade humana, da comunidade fraterna e da liberdade, todos estes bons frutos da natureza e do nosso trabalho, nós os encontraremos novamente, limpos contudo de toda impureza, iluminados e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal: ‘reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz’. O Reino já está presente em mistério aqui na terra. Chegando o Senhor, ele se consumará.”

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

NATAL ANTECIPADO NÃO É CORRETO E NÃO FAZ BEM

Ao final de outubro, quase sempre, já ouvimos os primeiros sinais e apelos do comércio para as “vendas do natal”: músicas; decorações; promoções; propagandas; presentes; comidas típicas; festas de confraternização e símbolos, sobretudo o “papai noel”.  A insistência é tanta, por tanto tempo, que chega a cansar e provocar repulsa. Quando chega propriamente o Natal, 25 de dezembro, estamos cansados e “enauseados”. O Tempo do Natal, que se prolonga até a festa do Batismo do Senhor, cai no vazio e no esquecimento, pois estão todos cansados dos sons, das cores e dos sabores do Natal, prejudicando, e muito, o ritmo da liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana.

Levados pelo embalo da sociedade, os fiéis católicos correm o risco de entrarem nesta onda de antecipação do Natal: confraternizações antecipadas de pastorais, movimentos e associações religiosas; novena de Natal realizada antes dos dias próprios da novena, que deveria começar no dia 15 ou 16 de dezembro; presépio construído e exposto de modo completo  durante o advento, quando deveria estar completamente pronto e com luzes acesas somente na noite de 24 de dezembro; missas de natal ainda durante os últimos dias do advento.

O Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma solenidade litúrgica de fundamental importância para os Católicos Apostólicos Romanos, memória do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Belém: “Naqueles dias, saiu um decreto do imperador Augusto mandando fazer o recenseamento de toda a terra – o primeiro recenseamento, feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade. Também José, que era da família e da descendência de Davi, subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, à cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Quando estavam ali, chegou o tempo do parto. Ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2, 1-7).

A solenidade litúrgica do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo é antecedida pelo “tempo do advento”, tempo d’Aquele que está para vir, para chegar. Neste ano de 2014, o advento começa no dia 30 de novembro. “O tempo do Advento possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens, é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda do Cristo no fim dos tempos. Por este duplo motivo, o temo do Advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa.”

É interessante observar algumas orientações litúrgicas que revelam o sentido do Advento: “O órgão e os outros instrumentos musicais devem usar-se, e o altar orna-se com flores, com aquela moderação que convém ao caráter próprio deste tempo, de modo a não antecipar a plena alegria do Natal do Senhor. (...) “.

Somente no dia 17 de dezembro inicia-se a preparação próxima e explícita do Natal: “Os dias de semana deste período visam de modo mais direto à preparação do Natal do Senhor”. Ao longo desta semana, de modo progressivo e crescente, a culminar na noite do dia 24, as igrejas e nossas casas devem revestir-se dos sinais próprios da solenidade do Natal.

É preciso não confundir a “Missa vespertina da Vigília do Natal”, a ser celebrada na tarde do dia 24, antes ou depois das primeiras vésperas, com a “Missa da noite” (ou “Missa do galo”), celebrada a meia noite; a “Missa da aurora”, celebrada na manhã do dia 25, com a “Missa do dia”, celebrada no decorrer das outras horas do dia 25. Para cada uma das celebrações há textos próprios, devendo ser celebradas nos horários devidos, pois há um dinamismo próprio que une estas celebrações. Uma missa não “substitui” a outra, pois cada uma tem uma “natureza” própria. O Dia de Natal é dia santo de guarda. Os horários das Missas devem ser os de domingo, não se deve suprimir nenhuma celebração, para o bem dos fiéis, ainda que tenha a presença de poucos participantes.

“O Tempo do Natal se estende desde as I Vésperas do Natal do Senhor até o Domingo após o dia 06 de janeiro. É a comemoração do nascimento do Senhor, em que celebramos a ‘troca de dons entre o céu e a terra’, pedindo que possamos ‘participar da divindade daquele que uniu ao Pai a nossa humanidade’. Na Epifania, celebramos a manifestação de Jesus Cristo, Filho de Deus, ‘luz para iluminar todos os povos no caminho da salvação’.” O Tempo do Natal terminará no dia 11 de janeiro, com a festa do Batismo do Senhor. No dia seguinte, desmontamos os presépios de nossas igrejas e casas, guardando também os símbolos cristãos do Natal.

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

terça-feira, 4 de novembro de 2014

ANO DA VIDA CONSAGRADA

O Santo Padre o Papa Francisco convoca a Igreja para realizar o “Ano da Vida Consagrada”, de novembro de 2014 a fevereiro de 2016. Para ilustrar e motivar este evento, a Congregação Para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica”, através de seu Prefeito, Cardeal João Braz de Aviz, publicou a “Carta Circular aos Consagrados e às Consagradas – Do Magistério do Papa Francisco “, intitulada “ALEGRAI-VOS”.

O texto da Carta inicia-se com a Palavra do Papa Francisco, retirada da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n.1 : “ A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Com Jesus Cristo sempre nasce e renasce a alegria.” A palavra dirigida a todos os fiéis, é agora evocada para os consagrados,  pessoas que vivem na alegria de Nosso Senhor Jesus Cristo pobre, casto e obediente.

No horizonte da recordação dos cinquenta anos do Concílio Ecumênico Vaticano II, estimulados pelo Ano da Vida Consagrada, é bom retomar o Decreto Conciliar “Perfectae Caitatis”, sobre a atualização dos religiosos. Como surgiu este Decreto?

“A comissão preconciliar dos Religiosos elaborara um longo projeto de Constituição, com mais de 100 páginas de texto e um total de 32 capítulos. Depois, em sua segunda redação, o texto fora reduzido a 30 páginas. Após nova ordem de redução, restaram 4 páginas, na forma de 20 Proposições, que foram enviadas aos Bispos em abril de 1964. Em novembro de 1964, durante a III Sessão, o texto foi rapidamente debatido e logo depois votado. Mas os 5638 votos modificativos ajudaram a melhorar o texto, que de fato foi sensivelmente modificado e aumentado. Na votação final durante a Sessão Pública de 28-10-1965 o documento foi aprovado por 2321 contra 4 votos.”

Os fiéis que abraçam a vida consagrada se colocam no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo com maior liberdade e procuram imitá-LO mais de perto: “ (...) consagram-se de maneira especial ao Senhor, seguindo a Cristo, que sendo virgem e pobre (cf Mt 8, 20; Lc 9,58), pela obediência até a morte da Cruz (cf Fl 2, 8), redimiu e santificou os homens. Assim, levados pela caridade que o Espírito Santo derramou em seus corações (cf Rm 5,5), mais e mais vivem para Cristo e para Seu corpo que é a Igreja” (cf Vat. II, 1217 e 1217a).

Os consagrados, respondendo ao chamado divino, mortos para o pecado, no batismo, renunciam livremente ao mundo para viverem unicamente para Deus, consagrando-se ao seu serviço, através da Igreja. O serviço de Deus é experimentado por eles através do exercício das virtudes, sobretudo da humildade, da obediência, da fortaleza e da castidade, através das quais se fazem participantes do aniquilamento de Cristo e da vida no Espírito Santo. Eles abandonam tudo por Cristo, seguem-no como único necessário, escutam sua Palavra  e se preocupam com o que é d’Ele.

Os consagrados vivem o primado da vida espiritual: amam a Deus, promovem a vida oculta com Cristo em Deus, cultivam o espírito de oração, se alimentam da Sagrada Escritura, da Sagrada Liturgia, sobretudo da Eucaristia. Ao mesmo tempo, a vida dos consagrados está impregnada de espírito e ação apostólica, inspiradas pela fé e espírito religioso. Uma vida apostólica que brota de íntima comunhão com Nosso Senhor Jesus Cristo.

O consagrado, vivendo a virtude da castidade por amor do Reino dos Céus (cf Mt 19,12), vive com coração livre para o Senhor, seu Esposo, e para os outros. Pela pobreza voluntária, participa da pobreza de Jesus Cristo que de rico se fez pobre por nós (cf 2 Cor 8,9; Mt 8,20). Confiado na Providência Divina, sabe que sua riqueza está no céu (cf Mt 6,20). Pela obediência, o religioso dedica a Deus a própria vontade como sacrifício de si próprio. 

O Ano da Vida Consagrada é para todos os fiéis. Seja este tempo de graça, kairós, oportunidade para compreender a vida religiosa como parte da natureza da Igreja, reconhecer os religiosos que trabalharam e trabalham na Diocese de São José do Rio Preto e promover as vocações à vida consagrada, mostrando aos adolescentes e jovens a beleza do seguimento a Nosso Senhor Jesus Cristo pobre, casto e obediente.

No dia 03 de dezembro,  19 horas, no Santuário da Vida – Rede Vida de Televisão, em São José do Rio Preto, em comunhão com a Igreja e o Santo Padre o Papa Francisco, assinalamos publicamente o início do Ano da Vida Consagrada com a celebração da Santa Missa.

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP