sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A RECORDAÇÃO NA FÉ DOS FIÉIS DEFUNTOS

Dois de novembro, dia dos falecidos, poderia ser chamado de “dia da saudade”, nele nossa mente e coração são tomados por este sentimento único que torna presente em nós a pessoa ausente, fazendo-nos mais emotivos e susceptíveis às lágrimas, predispondo-nos e fazendo-nos desejosos de “abraços virtuais”, na oração, possibilitados pelo Divino Espírito Santo e pelo mistério da comunhão dos santos.
Vai se fortalecendo uma nova cultura sobre a morte, fruto da concatenação de diversos elementos, às vezes opostos,  contraditórios e complementares. Alguns  não temem a morte, morrer e viver são colocados no mesmo plano; outros desfiguram a crueldade da morte, tirando-a do ambiente familiar, usando dos recursos da ciência e da estética; temos os que morrem iluminados pela fé e cuja morte é experimentada, de algum modo, pelos familiares;   outros ainda desejam e buscam a morte com meios próprios.
“Para mim, a vida é Cristo, e morrer é lucro” (Fl 1,21). Há um modo cristão de morrer e de enfrentar o mistério da morte. Desde o momento da concepção estamos maduros para morrer. Ao viver, as pequenas fragilidades cotidianas, físicas, psíquicas e espirituais sinalizam o horizonte da morte, como que antecipando-a de algum modo. Vamos vivendo e morrendo. A experiência de viver em Cristo nos permite experimentar que morrer aqui e agora, no cotidiano, é um caminho ascético para a eternidade,  o morrer é a porta que permite passar definitivamente para a eternidade. Santa Terezinha do Menino Jesus afirma: “Eu não morro, entro na vida.”
“Ora, Deus criou o ser humano incorruptível e o fez à imagem de Sua própria natureza: foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo, e experimentam-na os que são do seu partido” (Sb 2, 23-24). O ato de morrer é marcado pela presença do pecado em nós, morremos do modo como morremos por causa do pecado. Espiritualmente, o modo como vivemos determina o modo como morreremos. Como vivemos sob o influxo do pecado, o mesmo ocorrerá com o morrer, morremos como pecadores, como pecadores arrependidos.
O Catecismo da Igreja Católica afirma: “A morte é transformada por Cristo. Jesus, o Filho de Deus, sofreu também a morte, própria da condição humana. Todavia, apesar de seu pavor diante dela, assumiu-a em um ato de submissão total e livre à vontade de seu Pai. A obediência de Jesus transformou a maldição da morte em bênção” (1009); “A novidade essencial da morte cristã está nisto: pelo batismo, o cristão já está sacramentalmente ‘morto com Cristo’, para viver de uma vida nova; e se morremos na graça de Cristo, a morte física consuma este ‘morrer com Cristo’ e completa assim a nossa incorporação a ele no seu ato redentor” (1010).
A liturgia da Igreja, no Prefácio dos defuntos, afirma: “Senhor, para os que acreditam em vós a vida não é tirada, mas transformada. E desfeito nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível.”  São Francisco de Assis canta: “Louvado sejais, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrerem em pecado mortal, felizes aqueles que ela encontrar conforme a vossa santíssima vontade, pois a segunda morte não lhes fará mal.”
Devemos nos preparar para morrer, pedir a Nossa Senhora que nos ajude na hora de nossa morte, entregar-nos a São José, padroeiro da boa morte. O livro Imitação de Cristo aconselha: “Em todas as tuas ações, em todos os teus pensamentos deverias comportar-te como se tivesses de morrer hoje. Se a tua consciência estivesse tranquila, não terias muito medo da morte. Seria melhor evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã?”
Belas e consoladoras são as palavras de uma oração realizada durante o rito da Unção dos Enfermos, após a absolvição dos pecados e a Comunhão Eucarística, o viático: “ Deixa este mundo, alma cristã, em nome do Pai todo-poderoso que te criou, em nome de Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo, que sofreu por ti, em nome do Espírito Santo que foi derramado em ti. Toma o teu lugar hoje na paz, e fixa tua morada com Deus na santa Sião, com a Virgem Maria, a Mãe de Deus, com São José, os anjos e todos os santos de Deus (...) Volta para junto do teu Criador que te formou do pó da terra. Que na hora em que a tua alma sair do teu corpo, se apressem a teu encontro Maria, os anjos e todos os santos. (...) Que possas ver o teu Redentor face a face (...)”.
No dia de finados, crendo nos mistérios da comunhão dos santos, na vida eterna e na ressurreição da carne, rezemos a Deus pelos mortos. A melhor oração é a participação na Santa Missa.

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A PEQUENA IGREJA


Na Santa Sé, em Roma, Itália, se desenvolve até o dia 19 de outubro, a IIIª Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, convocada pelo Santo Padre o Papa Francisco, com dois assuntos convergentes,  evangelização e família, que juntos formam um só tema: evangelizar a família e ou a família evangelizadora.

A ação evangelizadora da Igreja, no Brasil, encontra-se diante de uma situação peculiar, a diversificada tipologia familiar, isto é, variados tipos de família presentes na sociedade. Esta realidade não surgiu do dia para a noite, foi construída paulatinamente; porém, não foi percebida, por razões várias, pelos agentes pastorais; quando emergiu e tornou-se forçosamente visível, assustou.
A sociedade brasileira não é mais tão permeável à ação evangelizadora da Igreja.  Não atingindo o coração das pessoas, como a “chuva criadeira”, os atos da evangelização se vão como a água da chuva na enxurrada. A diversificação de formas de constituição familiar e a sua alta incidência na sociedade são sinais da resistência ou ignorância das pessoas à ação evangelizadora da Igreja: ou se desconhece o modelo de família proposto pelo Evangelho ou recusa-se conscientemente este modelo familiar.

As variadas formas de família são terreno natural para a evangelização, pois o núcleo familiar é o primeiro espaço e instrumento da transmissão e educação da fé, ambiente onde se vive a dimensão comunitária da fé, a “Pequena Igreja” ou “Igreja Doméstica”.

Como Pequena Igreja, a família é instrumento de evangelização, não só no seu interno, com seus membros, mas como instituição social e seus membros se espalhando pelos mais diversos espaços da sociedade. A ação evangelizadora não atinge seus propósitos se prescinde da ação pastoral da família. Eis aqui o desafio: fazer da família, na prática, agente de evangelização, sobretudo considerando-se que isto pressupõe a família evangelizada.

A questão parece ser simples nas não é; não é conceitual, mas existencial; não está no âmbito exclusivo da compreensão, mas da ação. Não tendo família evangelizada, não temos família evangelizadora. Não são momentos justapostos, mas duas faces de uma realidade dialética, que não se desenvolve linearmente, mas  em espiral. A dificuldade em evangelizar a família produz ausência de famílias evangelizadoras.

A evangelização da família exige a tenacidade e a paciência do agricultor que fere a terra, mas pacientemente espera o fruto da semente que germina, não mais passivamente, mas usando da tecnologia e dos insumos para corrigir ou aperfeiçoar as intempéries da natureza. Ousadia para evangelizar a família e paciente construção de famílias evangelizadoras.

O ideal cristão da família, que nasce com o sacramento do matrimônio, precisa ser proposto e reproposto como vocação, chamado de Deus, às novas gerações de crianças, adolescentes e jovens. Ele será acolhido se os mesmos tiverem vida cristã, que começa com uma adesão pessoal e consciente a Nosso Senhor Jesus Cristo, tal como é compreendido pela Igreja. Uma vida cristã que nasce e se estrutura a partir da audição do anúncio querigmático: Jesus Cristo nasceu e morreu para nos salvar! A experiência pessoal de Jesus Cristo como Salvador e Senhor é a coluna vertebral que sustenta a vida cristã. A vida cristã é a moldura que permite surgir, dá sentido e mantém  a família constituída à luz do evangelho.

No coração e na oração, acompanhemos o desenvolvimento da Assembleia Sinodal sobre evangelização e família. Valorizemos  nossa família, lutemos por ela, façamos com que seja cada vez mais uma Pequena Igreja, a casa do amor.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP.