sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

“FRATERNIDADE, FUNDAMENTO E CAMINHO PARA A PAZ.”

Em primeiro de janeiro de 2014 celebramos o 47º Dia Mundial da Paz. O Santo Padre o Papa Francisco preparou uma mensagem para esta data: “Fraternidade, fundamento e caminho para a paz.” São 43 parágrafos, distribuídos em 10 números, com 8 tópicos: “Onde está o teu irmão?”(Gn 4,9); “E vós sois todos irmãos”(Mt 23,8); “A fraternidade, fundamento e caminho para a paz”; “A fraternidade, premissa para vencer a pobreza”; “A redescoberta da fraternidade na economia”; “A fraternidade extingue a guerra”; “A corrupção e o crime organizado contrastam a fraternidade”; “A fraternidade ajuda a guardar e cultivar a natureza”.

A beleza e profundidade da mensagem impressionam, com linguagem precisa e direta, mostrando a sensibilidade do “Bispo de Roma” com os fiéis, cristãos ou não, espalhados pelo  mundo. Sem pretender resumir o texto, ou apresentá-lo sistematicamente, retomo livremente alguns pontos:

a) A fraternidade possui uma dimensão antropológica, deve ser aprendida, por isso é também uma virtude, começando na família, devendo originar uma cultura da solidariedade;

b) As éticas contemporâneas, ao eliminarem o Transcendente, são limitadas e insuficientes para gerar e sustentar vínculos de fraternidade duradouros;

c) A Sagrada Escritura, no livro do Gênesis, mostra que a fraternidade faz parte da vontade de Deus para a pessoa humana, desde a criação;

d) O mistério da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo transfigura a fraternidade, conferindo-lhe novas dimensões, à luz da salvação;

e) Há uma dimensão cristológica da fraternidade, que mostra que o outro não é inimigo, mas filho de Deus e irmão;

f) Ocorre uma relação de reciprocidade entre fraternidade e solidariedade, decisiva para a construção da paz, que pressupõe  um tríplice dever: solidariedade, justiça social e caridade universal;

g) A paz tem uma dimensão universal, visa o bem comum e não tem o outro, pessoa ou nação, como explorável;

h) A pobreza, absoluta ou relativa, é fruto da ausência de fraternidade, do uso da propriedade sem levar em consideração o bem comum;

i) A fraternidade requer e propõe um  estilo de vida fundado na sobriedade, na partilha e na eliminação do desperdício;

j) As crises econômicas, locais ou globais, geram ganância e estimulam a acumulação de bens, o que requer o repensar dos modelos de desenvolvimento e dos estilos de vida, retomando as virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza;

k) Algumas guerras se tornaram conflitos esquecidos pelas sociedades e organismos internacionais;

l) É preciso dizer não aos conflitos armados, ao comércio e contrabando de armas e promover o desarmamento, também o nuclear e químico;

m) Os acordos internacionais e as leis das nações não são, por si só, suficientes para a promoção da paz, que exige a conversão do coração;

n)  Os sonhos, aspirações e projetos justos da pessoa humana, sobretudo dos jovens, não podem ser supressos, mas devem ser estimulados e apoiados;

o) Enquanto a fraternidade gera a paz social, o  egoísmo individual gera o egoísmo social e leva à corrupção, devastação dos recursos naturais, poluição, exploração do trabalho, tráficos ilícitos de dinheiro, especulação financeira, prostituição, tráfico de pessoas humanas, crimes e abusos contra menores, escravidão  e migrações;

p) Não esquecer as condições desumanas dos estabelecimentos prisionais em muitos países;

q) A promoção de um desenvolvimento sustentável, com critérios responsáveis para a exploração da natureza, é uma urgência;

r) A agricultura deve voltar-se prioritariamente para a produção de alimentos, melhorando a sua distribuição para combater e superar a fome;

s) O destino universal dos bens é um dos princípios da doutrina social da Igreja;

t) O amor dado por Deus ao homem é pressuposto para a fraternidade; a caridade ilumina e transfigura a fraternidade;

u) Superando o tecnicismo e o pragmatismo na política e na economia, é preciso recuperar a transcendência da pessoa humana;

v) A Igreja, pela sua própria natureza e constituição histórica, deve colocar-se  a serviço da fraternidade, pois é contínua aprendiz de Jesus Cristo Salvador que está entre nós como aquele que serve. “O serviço é a alma da fraternidade que edifica a paz.”

w) “Que Maria, a Mãe de Jesus, nos ajude a compreender e a viver todos os dias a fraternidade que jorra do coração do seu Filho, para levar a paz a todo o homem que vive nesta nossa amada terra.”

Formulo votos de que em 2014 a busca e promoção da fraternidade, de nossa parte, seja  um valioso contributo para a paz. Feliz ano novo! Deus nos abençoe!


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

NATAL, ANIVERSÁRIO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO!

Recordar a data do nascimento, celebrar o aniversário, é um dado antropológico, faz parte da cultura humana, embora não ocorra do mesmo modo em todos os lugares. É o reconhecimento da beleza da vida e a consciência de que ela é um dom recebido, um mistério inesgotável que continua transcendendo nossa compreensão.

Dia 25 de dezembro é a data do aniversário de nascimento de Jesus Cristo, ocorrido há 2013 anos, em Belém, na
Judéia. Um nascimento que marca e transforma a humanidade, o mundo e a história, que assinala  diversas culturas e povos, pois Jesus Cristo não é um ser mitológico, como os deuses gregos ou romanos, ou fruto da imaginação humana.

“Naqueles dias, saiu um decreto do imperador Augusto mandando fazer o recenseamento de toda a terra, o primeiro recenseamento, feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade. Também José, que era da família e da descendência de Davi, subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, à cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Quando estavam ali, chegou o tempo do parto. Ela deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria”( Lc 1, 1-7).

No evangelho segundo São Lucas, capítulo terceiro, versículos vinte e três a trinta e oito, e no evangelho segundo São Mateus, capítulo um, versículos um a dezessete, encontramos a genealogia de Jesus Cristo, situando-o historicamente em uma família, um povo e em um território. Ele é uma pessoa que viveu entre e como nós, com identidade definida.

Jesus Cristo é uma pessoa humana peculiar: é Filho de Deus, nascido de Maria virgem, concebido por obra do Espírito Santo ( cf Mt 1, 18-25; Lc 1, 26-38). Ele vem com a missão, recebida de Deus Pai, de salvar a humanidade do pecado (cf Mt 1, 21), que afeta não só a vida humana, mas também a constituição do mundo e o desenrolar da história.

A alegria própria da celebração do nascimento de Jesus Cristo vem da certeza de que n’Ele  Deus está conosco, faz-se um de nós, assume nossa humanidade para termos sua divindade, estabelece a comunhão entre o eterno e o temporal, o divino e o humano, o céu e a terra, o santo e o pecador, o criador e a criatura. Na fé, há novas chances para a esperança, vida nova para o amor.

A celebração do Natal é ocasião para alegria, perdão e fraternidade, que serão autênticas e duradouras se iluminadas pela pessoa e ensinamentos de Jesus Cristo. Uma festa para ser vivida em família. E em família, somos convidados a  participar da Missa, ocasião em que o aniversariante nos acolhe na sua festa e nos alimenta com o seu corpo e sangue.

Diante do Menino Jesus, nossa atitude seja semelhante à dos magos que vieram do Oriente a Belém, conduzidos por uma estrela: “Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra”(Mt 2, 11). Ajoelhar-se e adorá-lo, eis o presente que o aniversariante espera de nós.

Acolha minha saudação, abraço e bênção de Natal. Que o vigor desta festa perdure ao longo dos dias do ano novo que chega. Deus nos abençoe! Santo Natal! Feliz Ano Novo.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP




sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

FRENESI DE NATAL.

Há no “ar” um incontrolável “frenesi de natal”. É bom viver e experimentar as alegrias e satisfações, espirituais ou não, deste tempo sagrado que nos recorda o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A manhã da festa litúrgica de Nossa Senhora de Guadalupe, 12 de dezembro, foi dedicada a uma visita ao Centro de Progressão Penitenciária, nos arredores de São José do Rio Preto e Talhado. Fui acompanhado de membros da Pastoral Carcerária e fomos acolhidos pelo Dr. Ademir Panciera e membros de sua equipe de trabalho. Entre outras coisas, tivemos um momento de oração, breve, com reeducandos e funcionários. Encontrei ali o resultado de um esforço coletivo para a promoção do bem, feito com o espírito cristão de amor ao próximo. Lembrei-me das palavras de Jesus Cristo: “Estive preso e fostes visitar-me”(Mt 25,36). Deve ser grande, diante de Deus, o mérito dos que cuidam dos presidiários, desenvolvendo o seu trabalho com o coração voltado para Nosso Senhor Jesus Cristo.

Faltando um quarto para o meio dia, em quatorze de dezembro, as ruas do centro de São José do Rio Preto fervilhavam de pessoas em “ritmo de Natal”. Quando o semáforo coloriu-se de vermelho, na praça situada nos fundos da Catedral, os carros pararam. No centro da rua, três ou quatro homens seguraram alguns cartazes, onde se lia mais ou menos o seguinte: “NÃO  ESQUEÇA QUE O NATAL É O NASCIMENTO DE JESUS CRISTO.” Não sei quem eram, mas tinham uma postura profética, mostravam o essencial: o aniversariante de 2013 anos é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao meio dia de 14 de dezembro, a Catedral de São José do Rio Preto, através do Padre Luís Rogério e sua equipe de trabalho, com a preciosa ajuda dos membros da Pastoral do Povo em Situação de Rua, sob a orientação do Padre Amilton, ofereceu um almoço para aproximadamente cem pessoas empobrecidas. Rezamos e almoçamos juntos. Ouvimos algumas histórias. Não foi um gesto isolado, pois a Pastoral das Pessoas em Situação de Rua realiza o seu trabalho durante todo o ano, com atividade intensificada aos sábados, domingos e feriados. No “espírito do Natal”, vivamos a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Pois eu estava com fome, e me destes de comer, (...), estava nu e me vestistes”(Mt 25, 35s).

No dia 18 de dezembro, dedicamos a manhã para o Hospital da Criança. Rezamos com médicos, profissionais da saúde, funcionários, hospitalizados  e seus familiares. Impressionou-me a estrutura física, a tecnologia, a organização, a limpeza. Impressionou-me muito mais a abnegação dos que ali trabalham no cuidado da vida, e da vida mais fragilizada e indefesa, a criança. Vi  crianças, algumas tão frágeis, lutando para viver, às vezes sofrendo consequências  do modo de vida dos próprios genitores. Ali se toca com as mãos o milagre da vida, da sua fragilidade, da sua beleza e dignidade. Saí pensando que o Menino Jesus, se fosse nascer hoje,  em São José do Rio Preto, certamente Maria e José seriam acolhidos ali, não lhes faltaria um lugar.

“OBRIGADO A TODAS AS PESSOAS QUE FAZEM O BEM SEM OLHAR A QUEM”. Deus lhes pague, pois fazem o Natal de Jesus Cristo acontecer todos os dias do ano, através da bondade e generosidade dos seus corações. Santo Natal e abençoado Ano Novo!

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

NOTA DE PESAR.

Faleceu na noite do dia 17 de dezembro, na cidade de Guapiaçu, SP, Paróquia de São Sebastião, na Diocese de São José do Rio Preto, SP, o Revmo. Sr. Padre João Maria Zanzi, nascido aos 08 de setembro de 1943, na cidade de Berra, Ferrara, na Itália.

Padre João Maria Zanzi foi religioso na Ordem dos Clérigos Regulares Somascos. Desde 1979 trabalhou na Diocese de São José do Rio Preto, SP, onde se incardinou em 2002. Após breve permanência em Nova Granada, SP, abril a julho de 1979, exerceu o ministério sacerdotal, com ânimo missionário e coração de operário, na Paróquia São Sebastião, em Guapiaçu, SP, até o momento de seu falecimento.

Formado em filosofia e teologia na Universidade Lateranense, na Itália, com  pós-graduação, mestrado, em Teologia Bíblica, Padre João Maria Zanzi dedicou-se com esmero ao apostolado, consumiu-se por amor a Deus no serviço à Igreja.

Nos últimos meses, a fragilidade humana manifestou-se na pessoa do Padre João Maria Zanzi, através da doença, que o associou mais de perto à cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo assim, permaneceu firme na fé, na esperança, na caridade e no exercício do ministério sacerdotal como Pároco na Paróquia São Sebastião, em Guapiaçu, SP.

Rezemos pelo descanso eterno do Padre João Maria Zanzi, um “servo bom e fiel”, que “combateu o bom combate”. Que Deus, na sua bondade, pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, o acolha na eternidade feliz.

Agradecemos a Deus a graça de termos convivido e usufruído da vida e do ministério sacerdotal do Padre João Maria Zanzi. Gratidão aos seus familiares e aos religiosos somascos que o educaram na fé e o prepararam para a vida sacerdotal.

Perene gratidão aos fiéis da Paróquia São Sebastião, em Guapiaçu, que o acolherem como padre e com sua amizade, oração e apoio, o ajudaram a levar adiante a missão que lhe foi confiada.

Na pessoa do Revmo. Sr. Padre Manoel Bezerra Lima e de Dona Rosa, nosso reconhecimento aos amigos do Padre João Maria Zanzi que o ajudaram neste período intenso de enfermidade. Deus lhes pague! Igualmente somos gratos aos médicos, enfermeiros e profissionais da saúde que o assistiram nos últimos meses.

Aos familiares do Padre João Maria Zanzi, na Itália, sobretudo às suas duas irmãs religiosas de clausura, e ao seu irmão, nosso abraço de condolências e certeza de humildes preces para que o bom Deus os console neste momento de dor e sofrimento.

No dia 23 de dezembro, as 19h30, na Capela de São Marcos, em Guapiaçu, celebraremos a “Missa de Sétimo Dia”, em sufrágio de sua alma.

Deus seja louvado!


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

Santo Natal e abençoado ano novo!

"O Senhor é o Deus eterno que criou os confins da terra; ele não falha nem se cansa, insondável é a sua sabedoria; ele dá coragem ao desvalido e aumenta o vigor do mais fraco"(Is 40, 28s)

Estamos próximos da celebração dos 2013 anos do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Divino Salvador, um fato histórico que marca indelevelmente a natureza e o destino da humanidade, da história e do mundo: introduz-se no tempo a salvação divina que redime a pessoa humana para que viva na liberdade peculiar dos filhos e filhas de Deus.

O Natal não se restringe a ser um divisor de águas na organização do calendário e na contagem do tempo, mas é o início da elevação da natureza humana, e por seu intermédio, também o que é criado, a um novo estado "metafisicamente" superior ao que se encontrava o homem, o mundo e a história subjugados às consequências do pecado das origens.

O Tempo do Natal inicia-se com a celebração das vésperas, na tarde do dia 24 de dezembro, e prolonga-se até à festa do Batismo do Senhor, no dia 12 de janeiro de 2014. A participação na Santa Missa, no dia de Natal, se possível, precedida do sacramento da confissão, é o melhor modo de celebrar o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Associo-me às famílias que se reúnem para viverem fraternalmente este tempo santo do Natal. Que encontre guarida no aconchego de lares amigos, os que se encontram distantes dos seus familiares. Aos que estão imersos no sofrimento, não falte a consolação de Deus. Sejamos caridosos com os empobrecidos!

Que a alegria do Natal do Senhor perdure e ilumine os dias do ano de 2014! Tenha confiança, pois, "os que esperam no Senhor renovam suas forças, criam asas como as águias, correm sem se cansar, caminham sem parar"(Is 40, 31).

Assegurando-lhe minhas humildes preces, confio-me às suas preciosas orações.

Amplexo e todo bem!


+ Tomé Ferreira da Silva.
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

Dia 18/12/2013 - Missa exequial do na capela São Marcos do Sr. Padre João Maria Zanzi, ex pároco de Guapiaçu/SP.




Dia 18/12/2013 - Missa no Hospital da Criança em SJRio Preto/SP.




terça-feira, 17 de dezembro de 2013

MANHÃ DE ESPIRITUALIDADE DE ADVENTO COM PADRES, RELIGIOSOS, CONSAGRADOS E SEMINARISTAS – 17 DE DEZEMBRO DE 2013.

Coincidência ou não, nossa manhã de espiritualidade do advento, de 2013, acontece em 17 de dezembro, primeiro dia da segunda parte do advento, em que somos levados, pela liturgia, a viver o mistério do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Começamos uma “contagem regressiva” para a celebração do Natal do Senhor.

Estamos na Paróquia Basílica de Nossa Senhora Aparecida, lugar emblemático para a Diocese de São José do Rio Preto. Somos leigos, seminaristas, religiosas, consagrados, diáconos, padres e bispo, bela e boa representação da Igreja em São José do Rio Preto. O que temos em comum? Somos fiéis, vivemos da mesma fé, pedras vivas da Igreja, Corpo Místico de Jesus Cristo,  parte do Povo de Deus, militantes.

O evangelho proclamado é o do dia de hoje: Mateus, capítulo um, versículos um a dezessete: a genealogia de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Uma genealogia esconde aspectos interessantes e complementares, úteis à verdade. Destaco dois: o histórico e o antropológico.

Uma genealogia tem preocupação histórica, é expressão de uma linhagem familiar que atravessa a história, possui valor documental. A história é produto humano, é fruto da categoria tempo, que conjugado com a categoria espaço, são  determinantes do fenômeno humano.

Há uma necessidade interna da pessoa humana, ao mesmo tempo transcendente, de voltar-se para trás, procurando com fervor a sua origem, a sua raiz, como meio de responder ao quem sou?, de onde vim?, para onde vou?. Este é o aspecto antropológico da genealogia. Aqui não se trata de uma antropologia cultural, mas uma antropologia filosófica, teológica, por isso mesmo metafísica.

O primeiro versículo do evangelho que ouvimos enuncia: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.” Há o desejo de sublinhar o “vínculo” de Nosso Senhor Jesus Cristo com Abraão e Davi: Ele é “herdeiro das bênçãos de Abraão e da glória de Davi.”

Em Nosso Senhor Jesus Cristo ocorre o encontro da universalidade da salvação oferecida por Deus em Abraão e a construção véterotestamentária de seu povo. São José, esposo de Maria, é da tribo de Judá, e, através dele, se estabelece o “vínculo histórico” de Nosso Senhor Jesus Cristo com o Povo Eleito, com a descendência de Davi.

A genealogia de Nosso Senhor Jesus Cristo, voltada para Abraão e Davi, de algum modo, diz quem Ele é e o de onde vem. É bom lembrar que, antropologicamente falando, dizer de onde vem, diz algo de quem é.

Tomo a seguir algumas considerações feitas pelo Papa Emérito Bento XVI, no livro “A Infância de Jesus”, retiradas do capítulo primeiro, ao comentar a genealogia do evangelho de São Mateus.

a) Depois da dispersão ocorrida após a Torre de Babel, é com Abraão que começa a história da promessa.
b) O peregrinar de Abraão não é só geográfico, mas temporal, enquanto sai do presente e se encaminha para o futuro. Diz a Carta aos Hebreus que ele “esperava a cidade que tem fundamentos, cujo arquiteto e construtor é o próprio Deus”(Hb 11,10).  “Por ele serão abençoadas todas as nações da terra”(Gn 18,18).
c) Desde o início da genealogia, a atenção está voltada para a conclusão do evangelho, quando Jesus Cristo Ressuscitado ordena: “Fazei que todas as nações se tornem discípulos”(Mt 28, 19).
d) Na estrutura da genealogia, e da história por ela narrada, em Mateus, é central a pessoa de Davi: são três grupos de 14 gerações. “As letras hebraicas do nome de Davi totalizam o valor numérico de 14, e assim, a partir do simbolismo dos números, Davi, o seu nome e a sua promessa caracterizam o caminho de Abraão até Jesus.
e) “A genealogia com os seus três grupos de 14 gerações é um verdadeiro Evangelho de Cristo Rei: a história inteira aponta para Ele, cujo trono estará firme para sempre.” Na genealogia há uma teologia da história, tudo se orienta para Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da história. Como não lembrar das palavras do Apocalipse?: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim”(Ap 22, 13). Ou ainda a jaculatória: “Ao Rei dos Séculos, Imortal e Invisível, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém! A salvação se desenvolve na história, a história se torna história da salvação, os percalços da história se manifestam de algum modo no lento desenrolar da histórica salvação.
f) Na menção de quatro mulheres na genealogia ( Tamar, Raab, Rute e a Mulher de Urias), não basta lembrar que são tidas como “pecadoras”, não vale recordar que não são judias, mostrando  que, por intermédio delas, entra na genealogia de Jesus Cristo o mundo dos gentios, a sua missão se destina a judeus e pagãos. Nosso Senhor Jesus Cristo vem para os pecadores, para todos, pois todos somos pecadores, há uma fraternidade no pecado.
g) A genealogia se encerra com outra mulher, a quinta, Maria. Aqui dá-se um novo início e ocorre uma relativização de toda a genealogia. Rompendo o ritmo da narrativa, de Jesus afirma-se: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”(Mt 1, 16). “Maria é um novo início: o seu filho não provém de um homem, mas é uma nova criação: foi concebido por obra do Espírito Santo.

“A genealogia mantém a sua importância: José é juridicamente o pai de Jesus. Por meio dele, Jesus pertence segundo a Lei, ‘legalmente’, à tribo de Davi. E, todavia, vem de outro lugar, ‘do alto’: do próprio Deus. O mistério sobre ‘de onde’ Ele é, da sua origem dupla, nos é colocado de forma muito concreta: a sua origem é determinável e, todavia, permanece um mistério. Só Deus é o seu ‘Pai’ em sentido próprio. A genealogia dos homens tem a sua importância no que diz respeito à história do mundo. E, apesar disso, no fim das contas é em Maria, a Virgem humilde de Nazaré, que acontece um novo início: recomeça de modo novo o ser humano.”

Com o olhar e o coração de Nossa Senhora caminhemos para celebrar o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tenhamos no nosso coração e em nossos braços o Menino Jesus. De nós, não se espera outra atitude, senão a dos Magos: “Quando entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra”(Mt 2, 11).

HOMILIA: ORDENAÇÃO PRESBITERAL DOS DIÁCONOS RAFAEL E ROBERTO CATEDRAL DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO, 06/12/13

“Bendito seja Deus que nos reúne no amor de Cristo”, nesta primeira sexta feira de dezembro, na igreja catedral de São José do Rio Preto, já imersos na mística do Tempo do Advento, para celebrar a Eucaristia e, nela, ordenar sacerdotes o Diácono Rafael Domingos, proveniente da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, no Jardim Maria Lúcia, desta cidade de São José do Rio Preto,  e o Diácono Roberto Bocalete, da Paróquia Nossa Senhora da Abadia, da cidade de Icém. Deus seja louvado!

O Evangelho proclamado apresenta-nos um diálogo de Jesus Cristo ressuscitado com o apóstolo São Pedro, ocorrido às margens do mar de Tiberíades, após uma pesca milagrosa, ocasião em que alguns apóstolos e discípulos degustaram com o Divino Salvador pão e peixe assado em brasas na praia.

Os apóstolos ainda estavam no mar, se bem que próximos da praia, a 100 metros, segundo o evangelista, pois do contrário não seria possível a comunicação,  com os 153 grandes peixes na rede, quando João, o “o discípulo que Jesus mais amava”, identificou Jesus Cristo Ressuscitado, na praia, e informou a São Pedro a identidade daquele que os espreitava a pescar e lhes dera a ordem de lançar a rede à direita do barco: “É o Senhor!”.

Interessante a reação de São Pedro ao ouvir o anúncio do Apóstolo São João, “É o Senhor!”: “vestiu e arregaçou a túnica, pois estava nu, e lançou-se ao mar.”

Era manhã. O sol seguia seu caminho, solene e só. As ondas beijavam simples e solenemente a areia da praia, de forma repetida e cadenciada. Os apóstolos e discípulos pescadores estavam saciados, embora o cansaço da noite de pesca, inicialmente infrutífera, fosse perceptível nos olhos cansados. Mas estavam felizes, com eles estava Jesus Cristo ressuscitado, que os alimentara com peixe que Ele mesmo assara, alguns dos quais Ele mesmo pescara, e pão que  consigo trouxera.  É neste o contexto em que se desenrola o diálogo que ouvimos proclamado no Evangelho.

O diálogo entre Jesus Cristo ressuscitado e o apóstolo São Pedro é constituído de três perguntas, repetidas, e três respostas, também repetidas. Na primeira formulação das perguntas há um acréscimo singular: “ Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?”  “...mais do que estes”, é uma exigência em vista de uma missão também única.

Na formulação das respostas do apóstolo Pedro, a terceira é também única, por conter um acréscimo: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo.”

“... Tu sabes tudo”, é o acréscimo da resposta que responde ao acréscimo do enunciado da primeira pergunta:  ao  “...mais do que estes”, corresponde o “...Tu sabes tudo.”

Na exortação de Jesus Cristo ressuscitado a Pedro, após pergunta e resposta, são usados dois verbos, com sentido igual: “cuidar”, usado duas vezes, e “apascentar”, uma vez. Apascentar é cuidar, cuidar é apascentar. E para tanto, apascentar e cuidar, é preciso amar, um amor em intensidade maior do que o encontrado em outras pessoas.

O versículo nove, da primeira leitura, é iluminador: “O Senhor estendeu a mão, tocou-me a boca e disse: ‘Eu ponho minhas palavras na tua boca.” Ser tocado pela mão do Senhor e receber d’Ele as palavras a serem transmitidas é um capítulo constitutivo da vida cristã e do ministério sacerdotal. O que somos e fazemos, como cristãos e ministros ordenados, somos e fazemos por obra de Deus.

São Paulo, o apóstolo, está em Mileto, mas fala aos presbíteros de Éfeso. Do capítulo 20 dos Atos dos Apóstolos, tomemos o versículo 28: “Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos estabeleceu como guardiães, como pastores da Igreja de Deus que ele adquiriu com o seu sangue”.

Três elementos são sotolineados, na segunda leitura: a Igreja é de Deus, adquirida com o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; é o Espírito Santo que nos envia como guardiães ou pastores do Povo de Deus; é preciso cuidar de si e do rebanho que  é colocado sob nossos cuidados.

A vida sacerdotal é graça de Deus que enriquece a Igreja e transforma o mundo. A sua fecundidade é dependente do modo como se acolhe e vive este dom. As leituras proclamadas nesta liturgia  propõem quatro elementos imprescindíveis para uma vida sacerdotal fecunda:

a) “Tu sabes tudo...”. Colocar-se diante de Deus com transparência, sem barreiras e sem máscaras, pois Ele nos conhece, melhor do que nós mesmos nos conhecemos;
b) “Tu me amas mais do que estes?” Há uma singularidade personificada na relação de amor entre o sacerdote e a pessoa de  Nosso Senhor Jesus Cristo;
c) O sacerdote é tocado pelo mistério de Deus, que coloca nele a sua Palavra;
d) Como pastor do Povo de Deus, o sacerdote deve cuidar de si, para cuidar e apascentar a porção do povo que a Igreja lhe confiará, iluminada pelo Divino Espírito Santo. Cuidar e apascentar é amar. Amar é cuidar e apascentar.

Caros familiares dos Diáconos Rafael e Roberto, obrigado pela graça da fé que possibilitaram a eles, conduzindo-os ao batismo e, por este, à Igreja. Deus lhes pague! Membros da família da Igreja, doravante estarão integrados à família do presbitério da Diocese de São José do Rio Preto.

Obrigado às paróquias Nossa Senhora Aparecida, no Jardim Maria Lúcia, e Nossa Senhora da Abadia, em Icém, pela preciosa cooperação na educação da fé destes dois ordinandos.

Gratidão aos formadores, que pela e na  Diocese, a Igreja local, contribuíram para dar forma ao coração sacerdotal   destes dois candidatos ao sacerdócio. Igual gratidão aos que rezam e os acompanham com sua amizade cristã.

Caros fiéis, criemos na Diocese de São José do Rio Preto uma cultura vocacional. Precisamos atender ao pedido do Senhor: “Pedi ao Senhor da Messe que envie operários para a Messe, pois grande é a messe e poucos são os operários.” Rezemos e promovamos as vocações sacerdotais, religiosas, missionárias e ao sacramento do matrimônio.

Queridos diáconos Rafael e Roberto, a ordenação sacerdotal não é ponto de chegada, mas de partida. Como São Pedro, no Evangelho, é agora a hora de vestir e arregaçar a sotaina e lançar-se ao trabalho, com coração e ânimo de operário. Mas a labuta diária só será fecunda se for permeada pelo amor, aquele amor que possibilitou ao apóstolo João, o discípulo que Jesus amava, dizer aos ouvidos de São Pedro, “É o Senhor”.

Que o Coração Imaculado de Maria, Mãe dos Sacerdotes, os proteja e os guarde, terna e maternalmente, até ao final da vida e do exercício do ministério sacerdotal que hoje lhes será dado. O espírito de humildade e serviço de São José impregne o coração sacerdotal dos senhores. O exemplo de santidade do Beato Padre Mariano de la Mata, que viveu e trabalhou entre nós, esteja sempre diante dos nossos olhos e coração.

Deus seja louvado!

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto.