segunda-feira, 25 de novembro de 2013

“O FILHO DO HOMEM, QUANDO VIER, ENCONTRARÁ FÉ SOBRE A TERRA?”(Lc 18,8)

A proximidade do “Tempo do Advento”,  com sua primeira parte dedicada à “Parusia”, isto é, à manifestação gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo no fim dos tempos, até 16 de dezembro, inclusive, e a conclusão do “Ano da Fé”, ocorrida neste domingo próximo passado, na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, repropõe a intrigante pergunta deixada pelo Divino Salvador: “O Filho do Homem, quando vier, encontrará fé sobre a terra?”( Lc 18,8).

O “Ano da Fé”, convocado pelo Papa Emérito Bento XVI, em 11 de outubro de 2012, através da “Carta Apostólica Sob Forma de ‘Motu Proprio’ Porta  Fidei, teve um caráter profético ao expressar a crise da vivência da fé cristã católica e a sua transmissão às novas gerações, mas sobretudo por convocar os fiéis cristãos católicos, ordenados e leigos, a uma recuperação da dimensão missionária da Igreja, pois o testemunho e anúncio explícito e vigoroso da fé é condição para que as pessoas se abram ao “senhorio” e “reinado” de Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso único e insubstituível Salvador.

Entre tantas outras publicações ocorridas durante o “Ano da Fé”, a carta encíclica ‘Lumen Fidei’ do Sumo Pontífice Francisco aos Bispos, Presbíteros, Diáconos, Pessoas Consagradas e a todos os Fiéis Leigos, fica como  um legado referencial para a nossa vida de fé e ação apostólica neste mundo secularizado que, muitas vezes, nega ou restringe espaço à fé cristã católica, não poucas vezes acolhida ou tolerada por setores da  sociedade e segmentos governamentais apenas enquanto prestadora de serviços sociais, fonte de cultura ou olhada somente como raiz de manifestações folclóricas.

O encerramento do “Ano da fé” nos deixa um vigoroso apelo para acolher a fé como dom de Deus, vivê-la e transmiti-la de modo novo e vigoroso, respondendo aos “sinais dos tempos” que marcam nossos dias, pois vivemos não só em processo de mudanças, mas experimentamos  uma “mudança de época”, que sinaliza um novo tempo. Para tanto, contamos com o precioso auxílio do Divino Espírito Santo que nos fortalece com seus dons, nos precede na atividade apostólica e coloca em nossa mente, coração e lábios o quê e como devemos proclamar a Boa Nova da Salvação que Deus Pai nos oferece prodigamente em Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor e Rei.

Não nos iludamos na dimensão missionária de nossa fé cristã católica, pois nos depararemos com pessoas, instituições e porções da sociedade, organizada ou não, que propugnam uma “fé light”, “genérica”, restrita ao indivíduo e sem incidência social. Na atividade apostólica e missionária,  encontraremos com pessoas que pedem “as razões de nossa fé”, com outras que são indiferentes à fé, outras ainda que negam a fé e ainda um significativo grupo crescente que trabalha ardorosamente contra a fé cristã católica.

Somos gratos ao Papa Emérito Bento XVI pela coragem profética em propiciar-nos o “ Ano da Fé”. Não tenhamos medo ou receio de testemunhar a nossa fé cristã católica, pela vida e pela palavra, ainda que venhamos a experimentar um novo tempo de incompreensão, perseguição e martírio, pois  “Deus é fiel” e não nos faltará, mesmo quando somos infiéis!

Creio que são oportunas estas palavras encontradas na Segunda Carta de São Pedro: “ Dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, ao conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraterno e ao amor fraterno, a caridade. Se estas virtudes existirem e crescerem em vós, não vos deixarão vazios e estéreis no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.”( 1Pd 1, 5-8 ).


+ Tomé Ferreira da Silva.
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

“ENTÃO, TU ÉS REI?”(Jo 18,37)

Nos seus anos de “vida pública”, os três últimos, quando anunciou o evangelho, curou doentes e libertou endemoninhados, as pessoas, várias vezes, desejaram fazer de Nosso Senhor Jesus Cristo o seu rei, mas Ele nunca aceitou: “Quando Jesus percebeu que queriam levá-lo para proclamá-lo rei, novamente se retirou sozinho para a montanha”(Jo 6, 15).

Ao final de sua vida, no momento de seu julgamento, diante de Pilatos, Nosso Senhor Jesus Cristo assumiu sua realeza:

“Pilatos entrou, de volta, no palácio, chamou Jesus e perguntou-lhe: ‘Tu és o Rei dos Judeus?’ Jesus respondeu: ‘Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isso de mim?’ Pilatos respondeu: ‘Acaso sou eu judeu? Teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?’ Jesus respondeu: ‘O meu reio não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui.’ Pilatos então disse: ‘Então, tu és rei?’ Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei’”(Jo 18, 33-37).

Algumas pessoas, diante da pregação de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre o Reino de Deus,  também chegaram a pensar que Ele era rei a modo humano: “Os fariseus perguntaram a Jesus sobre o momento em que chegaria o Reino de Deus. Ele respondeu: ‘O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: ‘Está aqui’, ou ‘Está ali’, pois o Reino de Deus está no meio de vós”(Lc 17, 20-21).

Escrevendo aos cristãos de Corinto, São Paulo afirma: “Pois o Reino de Deus não consiste em palavras, mas em força ativa”(1Cor 4,20). São ilustrativas também estas outras palavras: “Pois o Reino de Deus não é comida e bebida, mas é justiça e paz e alegria no Espírito Santo”(Rm 14, 17).

Sim, Nosso Senhor Jesus Cristo é Rei, com Ele também reinamos. No livro do Apocalipse encontramos: “O reinado sobre o mundo pertence agora ao nosso Senhor e ao seu Cristo, e Ele reinará para todo o sempre.”(Ap 11,15). E ainda:
“Eles vão combater contra o Cordeiro, mas o Cordeiro, Senhor dos Senhores e Rei dos reis, os vencerá, e também serão vencedores os que com ele são chamados, eleitos, fiéis”(Ap 17, 14).

Em Nosso Senhor Jesus Cristo, “a realeza é de origem divina e tem o primado sobre tudo, porque nele o Pai pôs a plenitude de todas as coisas. O evangelho de Lucas apresenta a realeza de Jesus narrando a paródia da sua investidura como Rei dos Judeus na cruz, que lembra a outra paródia que se deu no pretório de Pilatos (...) A investidura real de Jesus se desenrola em torno da cruz, trono improvisado do novo Messias.” As duas testemunhas da entronização real de Nosso Senhor Jesus Cristo são dois bandidos, aos quais oferece o perdão, aceito por Dimas, o bom ladrão.

É um bálsamo a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”(Lc 23,34). “Cristo é rei porque, perdoando e morrendo para a remissão dos pecados, cria uma nova unidade entre os homens. Quebrando a corrente do ódio, oferece a possibilidade de um novo futuro.”

Encontramos uma bela síntese teológica da realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo no Prefácio da “Missa de Cristo Rei”: “(...) Com óleo de exultação ungistes vosso Unigênito, Jesus Cristo e Senhor nosso, Sacerdote eterno e Rei do universo, para que, oferecendo-se na cruz, vítima pura e pacífica, realizasse a redenção dos homens; e, submetendo ao seu poder toda criatura, entregou à vossa infinita majestade o reino eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz. (...)”.

Como amigos do Rei e participantes do seu reinado, rezemos: “Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, Rei do universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!”

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

terça-feira, 19 de novembro de 2013

PARUSIA.

Novembro e dois mil e treze terminando. Com o “tempo do advento”, novo ano litúrgico na Igreja. A Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, marca o fim de um ciclo anual e convida a iniciar um outro com o olhar voltado para a “parusia”.

A expressão “parusia” vem da língua grega, “parousia”, e significa “presença”. No helenismo, quando a cultura grega se espalha pelo império romano, a expressão passou a ser usada para designar a visita de um príncipe ou a manifestação de um deus.

Na Bíblia, Novo Testamento, a expressão “parusia” designa a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo em sua glória. O termo aparece seis vezes nas cartas aos tessalonicenses: 1Ts 2,19; 3,13; 4,15; 5,23; 2Ts 2,1.8; uma vez em 1Cor 15,23. Nos evangelhos sinóticos aparece em São Mateus: 24, 3.27.37.39. Pode ainda ser encontrado em: 1Jo 2,28; 2Pd 1,16; 3,4.12; Tg 5, 7s. O evangelista São Lucas não usa o termo parusia, mas o equivalente “dia do Filho do Homem”: Lc 17,24.26.

Para nós cristãos, a Parusia significa  a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo em sua glória. Esta expectativa tem origem  logo após a Páscoa. “O retorno glorioso de Cristo, ainda por acontecer, para o juízo, mas também para a consumação do evento salvífico que começou com sua encarnação e chegou ao seu ponto alto provisório no mistério pascal e se realiza continuamente  no encontro salutar do ser humano com Cristo na Palavra, no sacramento e na vida cristã. Essa parusia é um componente alvo de cada celebração litúrgica, especialmente da Eucaristia (‘até que Ele venha’; cf 1Cor 11,26), e tem grande importância nos textos litúrgicos da primeira fase  do Advento até inclusive 16 de dezembro e na estrutura da noite de Páscoa.”(Berger, Rupert, Dicionário de Liturgia Pastoral, Edições Loyola).

A Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, nos introduz na contemplação do mistério de sua parusia, que aguardamos na fé e na esperança: “Maranatá”, vem Senhor Jesus! Ao mesmo tempo, neste ano de 2013 esta Solenidade assinala a conclusão do “Ano da Fé”, iniciado pelo Papa Emérito Bento XVI, em novembro de 2012. Deixemos  ressoar no nosso coração a pergunta de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Mas o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar fé sobre a terra?”(Lc 18,8)

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP