segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O DRAMA DE MORRER.

A recordação dos “fiéis defuntos”, no “Dia das almas”, “Dia dos mortos” ou “Finados”, é oportunidade de não deixar morrer na mente e no coração a lembrança das pessoas que amamos, fizeram parte da nossa vida e já realizaram a experiência da passagem pelo mistério da morte. É ocasião oportuna que me recorda que vou morrer, chegará o meu dia e a minha hora de fazer esta viagem solitária e sem retorno.

A morte não existe. A morte como ser, ente ou entidade não existe e por isso não é possível representá-la. Morrer  é um verbo. A morte não vem ao nosso encontro, sou eu que caminho para experimentá-la em algum momento no horizonte de minha vida.

A morte é um ato solitário. Morrer é um ato pessoal: eu morro. Ninguém morre comigo. Ninguém morre no meu lugar. Na minha hora, viverei a morte sozinho, na mais profunda e extrema solidão, ainda que ao meu lado estejam muitas pessoas. 

Vivo para morrer e morro para viver. O mistério da vida inclui necessariamente o mistério da morte. Viver e morrer são duas dimensões de um único mistério, a existência de tudo o que é criado. Ser criado é caminhar para morrer. Não é possível viver sem morrer. Por outro lado, a experiência a morte é necessária para a vida, sem morrer não viverei. Vivo uma só vez e morro uma única vez.

A morte não é destruição da pessoa. A experiência da morte não arruína ou destrói a  pessoa. Passo pela morte, mas continuo a viver, embora de outro modo. A minha “alma”, “espírito”, subsiste à corrupção do corpo. Na morte não sou reduzido a nada, mas transforma-se a minha existência, que assume outro modo de ser. “ Morto”, sou de outra maneira.

Nasço mortal, morro imortal. Ao ser criado, torno-me “mundano”, cidadão do mundo e histórico, porém mortal, necessariamente frágil e caduco. Na experiência da morte emerge para mim a imortalidade, saio do tempo e do espaço para não mais experimentar a fragilidade e a caducidade.

A dor da morte. A medicina é capaz de amenizar e suprimir a dor física da morte. Há  outra dor “insuprimível” no ato de morrer, fruto de uma experiência singular de auto-consciência. Ao morrer, terei a oportunidade de “ter a minha vida em minhas mãos”. No fragmento de um instante, diante dos meus olhos e do meu coração, “verei”, numa experiência espiritual singular,  o que fui e o que poderia ter sido, o que fiz e o que poderia ter feito, a realidade construída pelas minhas escolhas livres e o projeto de Deus para mim. O resultado deste “olhar comparativo” me fará sofrer, uma dor absoluta e espiritual, pois não terei a possibilidade de refazer a minha participação no mundo e na história.

Recordo-me que ouvi sempre que jamais devemos pedir para morrer, mas devemos pensar neste mistério diariamente, como forma de vigilância, de prontidão para experimentá-la. Aproveitemos estes dias também para isso, refletir sobre o mistério do ato de morrer.

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP.

3 comentários:

  1. ola dom Tome, fui seu aluno em Pouso Alegre, penso q esta vivendo uma angustia em sua vida, quero lhe dar uma palavra de alento, o senhor é um homem bom, e o pastoreio é o lugar da solidão, vá aos seus amigos neles encontrará consolo e peça aos seus pais vivos ou mortos que lhe deem colo. tudo passa, a sua mestra disse isso. clezio76@yahoo.com.br

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  2. A morte é implacável, não se tem ninguém neste momento, será sua existência finda, não há soluções de reverter o que poderia ser, não há mais "Poderia", ja foi, já é, sem rodeios ou arrependimentos, apenas um click e adeus luz!

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  3. A morte é implacável, não se tem ninguém neste momento, será sua existência finda, não há soluções de reverter o que poderia ser, não há mais "Poderia", ja foi, já é, sem rodeios ou arrependimentos, apenas um click e adeus luz!

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