quarta-feira, 19 de junho de 2013

HOMILIA NA CELEBRAÇÃO DA MISSA EM TAMBAÚ-PADRE DONIZETE.

INTRODUÇÃO:

Minas Gerais, de seus riachos e veias, deu o ouro ao Brasil; das entranhas de suas serras, reparte o minério; empresta suas encostas para o plantio do café e do milho; do leite, faz e reparte o queijo; de suas fontes dá de beber suas boas águas virtuosas. E de Cássia, Minas deu ao mundo e à Igreja o Padre Donizete Tavares de Lima, que plantou sua alma nesta cidade de Tambaú, em terras paulistas. Outrora, Padre Donizete de Tambaú; hoje, Tambaú do Padre Donizete. Um homem, vestido de preto, alto, solene e austero, soberano, da soberania da fé, mudou a história e o curso deste chão, desta gente, desta Igreja. Salve Padre Donizete! Salve Tambaú!

EVANGELHO:

“Tua fé te salvou. Vai em paz!”(Lc 7, 50)

A presença de Nosso Senhor Jesus Cristo na casa de um fariseu, de nome Simão, é a moldura que sustenta a mais bela expressão do amor de Deus: a sua misericórdia diante do pecador arrependido.

Uma pecadora se desdobra em gestos de atenção com a pessoa do Divino Salvador. A sociabilidade do Divino Mestre é ocasião oportuna para aproximar-se das ovelhas perdidas, resgatá-las e reconduzi-las ao redil do Bom Pastor.

Da mulher pecadora, as lágrimas profusas lavaram os divinos pés, os cabelos foram usados para enxugá-los, beijos em profusão neles foram derramados, bom perfume os ungiu. Gestos que mostraram a personalidade e singularidade de quem muito ama. Não encontramos outro caso semelhante nas Sagradas Escrituras. Foi o investimento que ela fez para receber a sublime declaração: “ Tua fé te salvou. Vá em paz!”(Lc 7,50). Na compreensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, “Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela mostrou muito amor.”(Lc 7,47)

PRIMEIRA LEITURA

Como Davi, na primeira leitura do segundo livro de Samuel, nós romeiros somos também pecadores, muito pecadores, pobres pecadores. Também exclamamos: “Pequei contra o Senhor!”(2 Sm 12, 13). Reconhecemos que desprezamos a Palavra do Senhor, não tendo-a, não conhecendo-a, não vivendo-a e não anunciando-a.

Não confiados em nossas obras, mas única e exclusivamente no Senhor Jesus Cristo, clamamos, do fundo do coração, misericórdia! Também queremos escutar a palavra salvadora dos divinos lábios: “Tua fé te salvou. Vai em paz!”(Lc 7, 50) . Queremos voltar em paz para nossa casa, nossa cidade, nossa paróquia, nossa diocese.

SALMO RESPONSORIAL

Busquemos o perdão de Deus no sacramento da confissão, como nos sugere o salmo responsorial que rezamos: “Eu confessei, afinal, meu pecado e perdoastes, Senhor, minha falta”.

De fato, “É feliz o homem que foi perdoado e cuja falta já foi encoberta! Feliz o homem a quem o Senhor não olha mais como sendo culpado e em cuja alma não há falsidade”.

SEGUNDA LEITURA

Na segunda leitura, São Paulo, escrevendo aos Gálatas, mostra a centralidade da fé na vida do cristão e do católico, pois nós “abraçamos a fé em Jesus Cristo”, Ele nos santifica, nos faz justos, nos possibilita “viver para Deus”.

O que o Apóstolo Paulo afirma de si mesmo, podemos afirmar do Padre Donizete: “Com Cristo, eu fui pregado na cruz. Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim. Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou.”(Gl 2, 19-20)

Ora, como admiradores do Padre Donizete, que possamos exclamar com São Paulo: “Eu não desprezo a graça de Deus”(Gl 2, 21). Foi isto que ocorreu na vida do nosso Padre Donizete, ele não desprezou a graça de Deus, por isso o amamos, o veneramos e queremos seguir o seu exemplo.

A PESSOA HUMANA DO PADRE DONIZETE.

A pessoa humana do Padre Donizete nos apresenta belas surpresas: um homem família, cultor da música e da filosofia. Promotor de atividades sociais como o futebol, os círculos operários, as quermesses como meios de aproximação evangelizadora das pessoas.

Padre Donizete teve uma profunda ligação com os seus pais e irmãos. Experimentou a alegria da família bem constituída, fundada no sacramento do matrimônio. Viveu em seu lar a experiência da Igreja Doméstica. Atento ao mandamento da Lei de Deus, honrou seus pais e deles cuidou na velhice até a hora da morte dos mesmos. A vida familiar influenciou profundamente a sua existência e deu-lhe o equilíbrio humano necessário para enfrentar e vencer as adversidades cotidianas.

Por influência da família, Padre Donizete amou e cultivou a música, fez do belo musical um meio de evangelização, uma ferramenta para a catequese, um meio de elevação ao sublime para contemplar o mistério da salvação de Deus em Jesus Cristo.

Nas horas vagas, quem sabe influenciado pelo pai advogado, também pelos estudos realizados em São Paulo, tornou-se um leitor de tratados de filosofia, ciência que o ajudou a compreender a pessoa humana e o mundo, e abriu a sua inteligência para o transcendente, predispondo seu coração e sua razão para dar as razões de sua fé.

Com o Padre Donizete, vamos valorizar a família, recuperemos o sentido do namoro e noivado, busquemos o sacramento do matrimônio como bases para uma família saudável e feliz. Façamos da música instrumento de encontro com Deus e da evangelização. Aprendamos a usar as ciências humanas para mostrar a razoabilidade da fé aos que vivem conosco.

PADRE DONIZETE, O CRISTÃO, PESSOA DE FÉ.

Padre Donizete bebeu na convivência diária com sua família o alimento da fé, recebeu-a dos seus pais que tudo fizeram para apoiá-la e educá-la, burilando-a de eventuais entraves e distorções. O seu lar, a sua família, era uma Igreja Doméstica, primeiro espaço da experiência comunitária da fé e de sua transmissão.

Vivendo o batismo como graça de Deus, bem como sua crisma, Padre Donizete, ainda menino e jovem, foi assíduo freqüentador da Santa Missa, demorando-se longamente diante do Santíssimo Sacramento, em adoração. Era na Missa que alimentava-se da Palavra de Deus e da Eucaristia, que unidas ao sacramento da Confissão, fortaleceram a sua alma num amor fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo e a uma fidelidade amorosa à Igreja.

A freqüente oração do terço com os seus, imprimiu em sua alma um profundo amor a Nossa Senhora, expresso pela sua perene e substancial devoção a Nossa Senhora Aparecida, que se tornou sua amiga, mãe e companheira.

Padre Donizete teve em sua vida a presença marcante de duas mulheres, sua mãe e Nossa Senhora Aparecida. Vindo a faltar-lhe a mãe, Nossa Senhora permaneceu como sua consoladora e amparo. Para ela, trabalhou incansavelmente, até as últimas horas de sua vida, para construir um santuário, que ele mesmo não teve a graça de ver concluído; como Moisés, que depois de longos anos de caminhada pelo deserto, não teve a alegria de entrar na terra prometida, mas somente a avistou de longe.

PADRE DONIZETE, O SACERDOTE SACERDOTE.

Um olhar panorâmico sobre os anos da longa e fecunda vida sacerdotal do Padre Donizete nos faz perceber como seu coração sacerdotal foi terreno fértil que produziu frutos cem por um, de boa cepa e excelente qualidade.

Padre Donizete foi um sacerdote sacerdote, configurado com Nosso Senhor Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote. O modo como acolheu o dom da vocação fez dele um padre, um pai, do povo de Tambaú, mas também dos que aqui se aportaram e aportam nesta interminável, bela e piedosa romaria da esperança dos que correm o risco de perdê-la e estão sujeitos ao desespero, a não saber esperar.

A vida sacerdotal do Padre Donizete foi vivida como uma intensa e prolongada história de amor a Deus, dentro da comunhão da Igreja, acolhida por ele como Mãe e Mestra. Não viveu para si, viveu para Deus e para a Igreja, sem vontade própria, em tudo fazendo a Vontade Divina e na obediência à Igreja, sobretudo na incondicional solicitude aos seus bispos, de Pouso Alegre, Campinas, Ribeirão Preto e de São João da Boa Vista. Mesmo quando tinha razão, preferiu caminhar com a Igreja, mas nunca caminhou sozinho, certo de que “quem espera sempre alcança”. O reconhecimento que não teve em vida, pela sua humildade, o tem agora, como instrumento que chama outros fiéis à santidade de vida.

No trato com as pessoas, Padre Donizete foi um mestre. Sabia que, por graça de Deus, diante dos outros era sacerdote, jamais separando o sacerdócio ministerial de sua vida pessoal; nele, vida pessoal e ministerial se encontraram e confundiram, numa harmônica, bela e fecunda sintonia e sinfonia, onde o maestro não era outro senão o Espírito Santo. Como padre, soube ser pai, irmão, amigo e companheiro. Sabia puxar a orelha, se preciso fosse, mas também afagava, quando conveniente.

Padre Donizete se consumiu de zelo pelas coisas do Senhor, na liturgia e na administração dos sacramentos, na pregação do evangelho e no ensino da moral e dos bons costumes, na caridade para com todos, sobretudo com os empobrecidos e os afastados da vida de fé e eclesial. Ele soube sorrir com os que sorriam, chorar com os que choravam, trabalhar com os que trabalhavam, brincar com os que brincavam, cantar com os que cantavam, jogar com os que jogavam e amar com os que amavam e ensinando a amar os que odiavam.

COROLÁRIO

Recordo-me, quando menino, ver minha mãe escutar em uma rádio, a gravação da bênção oferecida pelo Padre Donizete. Ela guardava consigo uma pequena estampa com a fotografia do Padre. Hoje fico pensando o que ela esperava e o quanto lhe ajudava a bênção do Padre de Tambaú.

O meu predecessor e primeiro bispo da Diocese de São José do Rio Preto, Dom Lafaete, no ano das grandes romarias, também veio a Tambaú, agradecer ao Padre Donizete uma graça recebida através da sua oração: uma úlcera no estômago. O Bispo desejou a todo custo beijar as mãos do Padre, ao que este recusava. Só depois de muita insistência isto foi possível.

É com estes dois fatos no coração, que acolhendo o convite de nosso bispo da Diocese de São João da Boa Vista, que também tem raízes na Diocese de São José do Rio Preto, venho hoje a Tambaú do Padre Donizete, como um entre milhares de peregrinos desta romaria da esperança, oscular com reverência a pedra fria que guarda os seus restos mortais.

Pela vida e pela santidade do Padre Donizete, Deus seja louvado! Nossa Senhora Aparecida nos ajude a seguir o seu exemplo de homem, de cristão e de sacerdote.


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