terça-feira, 4 de junho de 2013

ANTÔNIO, O SANTO DOS PEIXES, DA MULA E DOS PÃES

Mês de junho, no Brasil, é sinônimo de festa junina. Em alguns lugares, tornou-se festa institucionalizada, como o carnaval, movimentando milhões de reais. Salvo raros casos, os festejos juninos se distanciaram da sua origem religiosa católica, a recordação de Santo Antônio, São João Batista e São Pedro, se consolidando como festa profana de bebida, comida, dança e até algum complemento de erotismo.

O primeiro santo recordado nas festas juninas é Santo Antônio, de Lisboa, onde nasceu, ou de Pádua, onde repousa parte de seu corpo. Ele viveu na idade média, contemporâneo de São Francisco de Assis, membro de sua família religiosa, os franciscanos. Tornou-se um dos santos mais conhecidos no mundo, perdendo apenas, segundo os entendidos, para São José, o esposo da Virgem Maria. Pretendia ser missionário na África, mas Deus o desejou na Europa.

Santo Antônio foi enamorado da Palavra de Deus, profundo conhecedor da Sagrada Escritura, não uma ciência acadêmica e informativa somente, mas performativa, deixou-se modelar por ela e rezou-a. A sua pregação era eivada por esta Palavra de Deus assimilada na vida e na contemplação, e ela mesma o impulsionava à missão, movido pela certeza de que a fé seria despertada no coração dos fiéis pela audição da Palavra salvadora de Deus. Tornou-se um exímio pregador, suscitando nas pessoas o desejo de dar as razões da fé. Numa aldeia, pregou aos peixes, diante da recusa das pessoas em ouvi-lo.

Aprendemos com Santo Antônio o amor à Sagrada Escritura: ter, ler, compreender, viver, rezar, celebrar e anunciar a Palavra de Deus. Não um contato ocasional com a Bíblia, mas uma relação de dependência motivacional, bebendo dela a inspiração para a vida, reconhecendo-a como Palavra de Deus e deixando-a ser Palavra de Deus em nossa vida e na vida da Igreja.O melhor instrumental para a aproximação à Sagrada Escritura é o método da Leitura Orante da Bíblia, pois contempla todos os elementos apontados acima.

Santo Antônio foi um enamorado da Eucaristia, cônscio da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo sob as espécies do Pão e do Vinho consagrados. A Missa constituía para ele ponto de partida, chegada e centro de sua vida de fé e apostolado. Passava horas em adoração diante do Santíssimo Sacramento. Diante de um incrédulo, que o desafiou, duvidando da presença real de Jesus na Eucaristia, uma mula ajoelhou-se diante do ostensório com o Santíssimo Sacramento, recusando o cesto de verde feno.

Ao contrário de Santo Antônio, vamos perdendo o sentido da Missa Dominical e o culto ao Santíssimo Sacramento fora da celebração da Eucaristia. Transformamos o domingo, o Dia do Senhor, como parte do fim de semana, sinônimo de lazer e tempo de ultimar tarefas domésticas ou complementares ao trabalho. Nos últimos seis meses, três sacrários foram violados em nossa Diocese de São José do Rio Preto, provocando pouca ou nenhuma reação da parte dos fiéis. A solenidade do Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo não reuniu número significativo de católicos nas missas, adorações e procissões. 

Vamos redescobrir a beleza da Eucaristia, alimento de vida plena dado por Nosso Senhor Jesus Cristo a nós pobres pecadores. É o seu Corpo e Sangue, nascido de Maria Virgem, que andou pela Judéia e Galiléia fazendo o bem, Corpo transfigurado e crucificado, que conheceu a profundeza do inferno, Corpo ressuscitado e que no céu se encontra à direita de Deus Pai. A Eucaristia é alimento para nós que vivemos o drama da fé. Invistamos algum tempo de nosso dia ou semana para a adoração ao Santíssimo Sacramento que está sempre a nos esperar nos sacrários de nossas igrejas.

Abençoamos os pães no dia de Santo Antônio porque ele foi um enamorado dos empobrecidos, fruto de sua consciência da centralidade da caridade na vida dos amigos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aprendeu com São Francisco de Assis a amar e fazer o bem àqueles que são os últimos dos últimos.

Temos empobrecidos cuja assistência requer mais, muito mais, do que o nosso esforço pessoal e nossa esmola. Penso nos usuários de drogas, “lícitas e ilícitas”, e nos moradores em situação de rua. Para estes, e para outros, temos que cobrar políticas públicas não só de assistência, mas de recuperação e promoção da dignidade, com consequente reinserção na sociedade.

Outros empobrecidos esperam nossa ajuda, e de fato podemos ajudá-los. Muitos deles são vítimas da ignorância intelectual e espiritual, situação em que se encontram não por vontade própria, mas conseqüência do contexto social e eclesial que vivemos. Muitos esperam um consolo, uma palavra de ânimo, um conselho, um abraço. Diz um ditado popular: “Ninguém é tão rico que não precise nada receber, nem tão pobre que não tenha nada para dar.”

Que Santo Antônio, o Santo da Palavra de Deus, da Eucaristia e dos empobrecidos nos ajude a viver bem nossa amizade com Nosso Senhor Jesus Cristo.


+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto.

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