terça-feira, 25 de junho de 2013

Carta aos Padres da Diocese de São José do Rio Preto

São José do Rio Preto, 26 de junho de 2013.


Senhores Padres.
Graça e paz!

No término das festas juninas, recordando São Pedro e São Paulo, trago-lhe minha saudação.

Estamos no “meio do ano”, perspectiva de férias escolares, semana missionária, jornada mundial da juventude e o Papa Francisco no Brasil. Alguns padres que não fizeram férias, certamente farão nestes dias. A estes, bom descanso! A nós outros, bom trabalho!

Nas missas deste sábado e domingo, 29 e 30 de junho, Solenidade de São Pedro e São Paulo, é também o dia do Santo Padre o Papa.

“Por determinação da CNBB, em todas as igrejas e oratórios, mesmo dos mosteiros, conventos e colégios, comemora-se o DIA DO PAPA, com pregações e orações que traduzam amor, veneração, respeito e obediência ao Vigário de Cristo na terra, Cabeça da Santa Igreja universal, e com piedosas e generosas ofertas para o ÓBOLO DE SÃO PEDRO.”

É bom esclarecer os fiéis que o fruto desta coleta, o óbolo de São Pedro, é usado para as obras de caridade do Santo Padre: assistência a dioceses empobrecidas ou em formação e socorro a comunidades e populações vítimas de calamidades naturais e sociais. O Brasil é um dos beneficiados, dioceses do norte de nosso país, recebendo mais do que enviamos.

Querido Padre, vamos nós também, junto com os demais fiéis, fazer a nossa oferta. Sejamos generosos! Assim, saberemos estimular com mais empenho as doações dos outros fiéis. “Há mais alegria em dar do que em receber!”

Acolha minha gratidão pela sua pessoa, presença e trabalho nesta bela e grande Diocese de São José do Rio Preto. Deus lhe pague!

Amplexo e todo bem!


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto.

ESQUECERAM DE SÃO PAULO NAS FESTAS JUNINAS?!

O último dos “santos juninos” é São Pedro, no dia vinte e nove de junho; na liturgia, lembrado no domingo, dia trinta. E o Apóstolo São Paulo? Ele é também celebrado no mesmo dia, mas não foi assumido pelas festas juninas. Os dois grandes apóstolos, Santos Pedro e Paulo, são recordados juntos, ambos foram mártires em Roma, após intensa e fecunda atividade missionária numa viva demonstração de amor a Nosso Senhor Jesus Cristo e à Igreja.

São Pedro é uma figura encantadora, pelo que compreendemos a partir dos evangelhos: casado, pescador, seguidor do Divino Mestre, livre nas respostas e declarações, decidido, atirado, humano, demasiadamente humano. O seu modo de ser e  agir permite-nos sentir muito próximos dele, embora nos encontremos distante do modo como viveu a santidade. Diríamos hoje que São Pedro é “um dos nossos”, “faz parte de nossa turma”, da “nossa tribo”. A sua representação iconográfica, como um “velhinho” simpático, com as chaves nas mãos, meio calvo e de cabelos brancos, torna-o simpático e próximo, como um avô, diante de quem nos sentimos à vontade.

São Paulo é expressão da austeridade, do teólogo, do zelo missionário, da ousadia de encarar o novo e de não “fugir da raia” diante dos desafios e embates da evangelização querigmática. Foi criador e formador de muitas igrejas, um coração inquieto que não queria perder tempo, diante da brevidade da vida, para testemunhar Nosso Senhor Jesus Cristo onde fosse possível, sobretudo nos centros urbanos de então. O modo como São Paulo é apresentado pela iconografia assusta: sóbrio e soberano, alguém que parece estar do outro lado, pelo modo como vive a fé no Divino Salvador.

Para a fé cristã, o cristianismo e a Igreja Católica Apostólica Romana, São Pedro e São Paulo são fundamentais: foram apóstolos, de modo diferente, com ações diversificadas, movidos por  incomensurável amor e zelo por Nosso Senhor Jesus Cristo. Justamente por isso, o martírio de ambos, ocorrido em tempo e modo diversos, são recordados pela liturgia da Igreja em um mesmo dia: Pedro teria pedido para ser  crucificado de cabeça para baixo; Paulo teve a cabeça decepada. Então, alguém saberia explicar a razão pela qual São Paulo foi “excluído” das festas juninas no Brasil?

Na Solenidade de São Pedro e São Paulo celebramos o dia do Papa, o Bispo de Roma, a quem nos encontramos unidos na fé e a quem dedicamos um genuíno amor, pois o reconhecemos como sucessor do Apóstolo São Pedro na orientação da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 “Por determinação da VII Assembléia da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em todas as igrejas e oratórios, mesmo dos mosteiros, conventos e colégios, comemora-se o DIA DO PAPA, com pregações e orações que traduzam amor, veneração, respeito e obediência ao Vigário de Cristo na terra, Cabeça da Santa Igreja universal, e com piedosas e generosas ofertas para o Óbolo de São Pedro.”

Nos dias vinte e nove e trinta de junho, nas missas do sábado e domingo, tudo o que oferecemos em nossas igrejas, durante as coletas nas missas, na hora das oferendas, é enviado ao Santo Padre o Papa Francisco, como nossa contribuição para os trabalhos pastorais e de caridade da Santa Sé. Chamamos esta oferta de “Óbolo de São Pedro”. O Papa não guarda este dinheiro para si, mas envia para países empobrecidos, socorre situações de emergência diante de calamidades naturais e sociais e ajuda dioceses com dificuldades de sobrevivência. É bom informar que algumas dioceses brasileiras, sobretudo no norte, recebem ajuda direta da Santa Sé, com recursos provenientes desta coleta que se realiza em todo o mundo.

Viva São Pedro! Viva São Paulo! Viva o Papa!

Papa Francisco, seja bem vindo ao Brasil! Representantes da  juventude da Diocese de São José do Rio Preto, em bom número, e alguns padres, vão ao seu encontro no Rio de Janeiro, para a Jornada Mundial da Juventude. Acolha nosso abraço e saudação, confiamo-nos às suas preciosas orações. Conceda-nos a bênção apostólica!


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

SÃO JOÃO BATISTA, DE MENINO CÂNDIDO A SANTO EXÓTICO QUE PEGOU PESADO.

A solenidade da natividade de São João Batista, no dia vinte e quatro de junho, é uma exceção na vida da Igreja Católica Apostólica Romana, pois normalmente os santos são lembrados apenas na data da sua morte. O Precursor de Nosso Senhor Jesus Cristo tem uma segunda data, a memória de sua morte em vinte e nove de agosto. O nascimento é recordado como uma solenidade, grau das grandes festas, enquanto o seu martírio é uma memória obrigatória, que situa-se depois da festa, porém antes de uma memória facultativa.

O papel de São João Batista na História da Salvação, como precursor de Nosso Senhor Jesus Cristo, as condições de seu nascimento, o seu modo de vida, a atividade que exerceu antes da vida pública do Divino Salvador e o modo de sua morte fazem dele um santo diferente, “exótico”, que foi “fogo”, “pegando pesado na sua pregação” sem fazer distinção da condição social de seus ouvintes.

São João Batista nasce em condições especiais, obra de Deus, pois seus pais, Isabel e Zacarias, eram idosos e sem filhos. Tinha um certo parentesco com Jesus, pois Maria era parenta de Isabel. Não temos mais notícias de sua infância, certamente vivida de modo ordinário, em contraposição às condições extraordinárias de seu nascimento. A tradição o representa como um menino loiro e de cabelos encaracolados, segurando em sua mão um cordeirinho e uma bandeirola, mais fruto da imaginação do que propriamente realidade, mas que expressa a ternura de uma criança.

A juventude de São João Batista é descrita de modo bem exótico: vivia pelos desertos, revestindo-se de peles de animais e alimentando-se de mel e insetos. O modo como é apresentado nos permite vê-lo como uma pessoa austera, sóbria, ciente de preparar-se para uma missão especial, por isso afasta-se do burburinho do dia a dia para na solidão fazer uma experiência singular de Deus.

Na maturidade de sua juventude, no período pós-deserto, São João Batista aparece pregando a conversão aos seus contemporâneos, chamando-os à penitência, diante da proximidade do Reino de Deus. Para os que desejavam mudar de vida, chamava-os ao batismo de penitência nas águas do rio Jordão. Anunciava a proximidade da pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, de quem não se considerava digno nem mesmo de desatar as sandálias. Multidões acorreram para ouvi-lo, inclusive o Divino Mestre.

A missão de São João Batista termina de modo trágico, quando Nosso Senhor Jesus Cristo começa a pregar o Evangelho, a fazer milagres, curar os doentes e expulsar os demônios. Ele denunciou o adultério de Herodes que, estimulado pela amante, manda prendê-lo e decapitá-lo,  cortou a cabeça do profeta denunciador, que terminou a sua história como mártir.

É o nascimento deste homem de Deus que celebramos no dia vinte e quatro de junho. A alegria da festa junina de São João Batista é resquício da exultação que seu nascimento, pessoa e atividade provocou nos seus contemporâneos: é terminado o Antigo Testamento, chega ao Povo Eleito a salvação prometida por Deus aos antepassados, sobretudo aos patriarcas, e predita pelos profetas.

Terminou o tempo da espera. São João Batista tem a graça de viver estes dois tempos, do antigo e do novo, de contemplar com seus olhos e tocar com suas mãos a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Mestre e Divino Salvador.

Bom seria não esquecer a pessoa, o testemunho e as palavras que São João Batista nos deixou. Ele nos ensina a reconhecer a graça de Deus em nossa vida, a viver modestamente, a buscar a conversão, a valorizar nosso batismo, a viver profeticamente não calando diante do erro, da mentira e da injustiça.  Vamos valorizar o sacramento do matrimônio, preparando-nos para ele com um namoro e noivado sério e prolongado, pressuposto para viver a vida conjugal e familiar com amor fiel e fidelidade amorosa.

Viva São João Batista!

+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP   

HOMILIA NA CELEBRAÇÃO DA MISSA EM TAMBAÚ-PADRE DONIZETE.

INTRODUÇÃO:

Minas Gerais, de seus riachos e veias, deu o ouro ao Brasil; das entranhas de suas serras, reparte o minério; empresta suas encostas para o plantio do café e do milho; do leite, faz e reparte o queijo; de suas fontes dá de beber suas boas águas virtuosas. E de Cássia, Minas deu ao mundo e à Igreja o Padre Donizete Tavares de Lima, que plantou sua alma nesta cidade de Tambaú, em terras paulistas. Outrora, Padre Donizete de Tambaú; hoje, Tambaú do Padre Donizete. Um homem, vestido de preto, alto, solene e austero, soberano, da soberania da fé, mudou a história e o curso deste chão, desta gente, desta Igreja. Salve Padre Donizete! Salve Tambaú!

EVANGELHO:

“Tua fé te salvou. Vai em paz!”(Lc 7, 50)

A presença de Nosso Senhor Jesus Cristo na casa de um fariseu, de nome Simão, é a moldura que sustenta a mais bela expressão do amor de Deus: a sua misericórdia diante do pecador arrependido.

Uma pecadora se desdobra em gestos de atenção com a pessoa do Divino Salvador. A sociabilidade do Divino Mestre é ocasião oportuna para aproximar-se das ovelhas perdidas, resgatá-las e reconduzi-las ao redil do Bom Pastor.

Da mulher pecadora, as lágrimas profusas lavaram os divinos pés, os cabelos foram usados para enxugá-los, beijos em profusão neles foram derramados, bom perfume os ungiu. Gestos que mostraram a personalidade e singularidade de quem muito ama. Não encontramos outro caso semelhante nas Sagradas Escrituras. Foi o investimento que ela fez para receber a sublime declaração: “ Tua fé te salvou. Vá em paz!”(Lc 7,50). Na compreensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, “Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque ela mostrou muito amor.”(Lc 7,47)

PRIMEIRA LEITURA

Como Davi, na primeira leitura do segundo livro de Samuel, nós romeiros somos também pecadores, muito pecadores, pobres pecadores. Também exclamamos: “Pequei contra o Senhor!”(2 Sm 12, 13). Reconhecemos que desprezamos a Palavra do Senhor, não tendo-a, não conhecendo-a, não vivendo-a e não anunciando-a.

Não confiados em nossas obras, mas única e exclusivamente no Senhor Jesus Cristo, clamamos, do fundo do coração, misericórdia! Também queremos escutar a palavra salvadora dos divinos lábios: “Tua fé te salvou. Vai em paz!”(Lc 7, 50) . Queremos voltar em paz para nossa casa, nossa cidade, nossa paróquia, nossa diocese.

SALMO RESPONSORIAL

Busquemos o perdão de Deus no sacramento da confissão, como nos sugere o salmo responsorial que rezamos: “Eu confessei, afinal, meu pecado e perdoastes, Senhor, minha falta”.

De fato, “É feliz o homem que foi perdoado e cuja falta já foi encoberta! Feliz o homem a quem o Senhor não olha mais como sendo culpado e em cuja alma não há falsidade”.

SEGUNDA LEITURA

Na segunda leitura, São Paulo, escrevendo aos Gálatas, mostra a centralidade da fé na vida do cristão e do católico, pois nós “abraçamos a fé em Jesus Cristo”, Ele nos santifica, nos faz justos, nos possibilita “viver para Deus”.

O que o Apóstolo Paulo afirma de si mesmo, podemos afirmar do Padre Donizete: “Com Cristo, eu fui pregado na cruz. Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim. Esta minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé, crendo no Filho de Deus, que me amou e por mim se entregou.”(Gl 2, 19-20)

Ora, como admiradores do Padre Donizete, que possamos exclamar com São Paulo: “Eu não desprezo a graça de Deus”(Gl 2, 21). Foi isto que ocorreu na vida do nosso Padre Donizete, ele não desprezou a graça de Deus, por isso o amamos, o veneramos e queremos seguir o seu exemplo.

A PESSOA HUMANA DO PADRE DONIZETE.

A pessoa humana do Padre Donizete nos apresenta belas surpresas: um homem família, cultor da música e da filosofia. Promotor de atividades sociais como o futebol, os círculos operários, as quermesses como meios de aproximação evangelizadora das pessoas.

Padre Donizete teve uma profunda ligação com os seus pais e irmãos. Experimentou a alegria da família bem constituída, fundada no sacramento do matrimônio. Viveu em seu lar a experiência da Igreja Doméstica. Atento ao mandamento da Lei de Deus, honrou seus pais e deles cuidou na velhice até a hora da morte dos mesmos. A vida familiar influenciou profundamente a sua existência e deu-lhe o equilíbrio humano necessário para enfrentar e vencer as adversidades cotidianas.

Por influência da família, Padre Donizete amou e cultivou a música, fez do belo musical um meio de evangelização, uma ferramenta para a catequese, um meio de elevação ao sublime para contemplar o mistério da salvação de Deus em Jesus Cristo.

Nas horas vagas, quem sabe influenciado pelo pai advogado, também pelos estudos realizados em São Paulo, tornou-se um leitor de tratados de filosofia, ciência que o ajudou a compreender a pessoa humana e o mundo, e abriu a sua inteligência para o transcendente, predispondo seu coração e sua razão para dar as razões de sua fé.

Com o Padre Donizete, vamos valorizar a família, recuperemos o sentido do namoro e noivado, busquemos o sacramento do matrimônio como bases para uma família saudável e feliz. Façamos da música instrumento de encontro com Deus e da evangelização. Aprendamos a usar as ciências humanas para mostrar a razoabilidade da fé aos que vivem conosco.

PADRE DONIZETE, O CRISTÃO, PESSOA DE FÉ.

Padre Donizete bebeu na convivência diária com sua família o alimento da fé, recebeu-a dos seus pais que tudo fizeram para apoiá-la e educá-la, burilando-a de eventuais entraves e distorções. O seu lar, a sua família, era uma Igreja Doméstica, primeiro espaço da experiência comunitária da fé e de sua transmissão.

Vivendo o batismo como graça de Deus, bem como sua crisma, Padre Donizete, ainda menino e jovem, foi assíduo freqüentador da Santa Missa, demorando-se longamente diante do Santíssimo Sacramento, em adoração. Era na Missa que alimentava-se da Palavra de Deus e da Eucaristia, que unidas ao sacramento da Confissão, fortaleceram a sua alma num amor fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo e a uma fidelidade amorosa à Igreja.

A freqüente oração do terço com os seus, imprimiu em sua alma um profundo amor a Nossa Senhora, expresso pela sua perene e substancial devoção a Nossa Senhora Aparecida, que se tornou sua amiga, mãe e companheira.

Padre Donizete teve em sua vida a presença marcante de duas mulheres, sua mãe e Nossa Senhora Aparecida. Vindo a faltar-lhe a mãe, Nossa Senhora permaneceu como sua consoladora e amparo. Para ela, trabalhou incansavelmente, até as últimas horas de sua vida, para construir um santuário, que ele mesmo não teve a graça de ver concluído; como Moisés, que depois de longos anos de caminhada pelo deserto, não teve a alegria de entrar na terra prometida, mas somente a avistou de longe.

PADRE DONIZETE, O SACERDOTE SACERDOTE.

Um olhar panorâmico sobre os anos da longa e fecunda vida sacerdotal do Padre Donizete nos faz perceber como seu coração sacerdotal foi terreno fértil que produziu frutos cem por um, de boa cepa e excelente qualidade.

Padre Donizete foi um sacerdote sacerdote, configurado com Nosso Senhor Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote. O modo como acolheu o dom da vocação fez dele um padre, um pai, do povo de Tambaú, mas também dos que aqui se aportaram e aportam nesta interminável, bela e piedosa romaria da esperança dos que correm o risco de perdê-la e estão sujeitos ao desespero, a não saber esperar.

A vida sacerdotal do Padre Donizete foi vivida como uma intensa e prolongada história de amor a Deus, dentro da comunhão da Igreja, acolhida por ele como Mãe e Mestra. Não viveu para si, viveu para Deus e para a Igreja, sem vontade própria, em tudo fazendo a Vontade Divina e na obediência à Igreja, sobretudo na incondicional solicitude aos seus bispos, de Pouso Alegre, Campinas, Ribeirão Preto e de São João da Boa Vista. Mesmo quando tinha razão, preferiu caminhar com a Igreja, mas nunca caminhou sozinho, certo de que “quem espera sempre alcança”. O reconhecimento que não teve em vida, pela sua humildade, o tem agora, como instrumento que chama outros fiéis à santidade de vida.

No trato com as pessoas, Padre Donizete foi um mestre. Sabia que, por graça de Deus, diante dos outros era sacerdote, jamais separando o sacerdócio ministerial de sua vida pessoal; nele, vida pessoal e ministerial se encontraram e confundiram, numa harmônica, bela e fecunda sintonia e sinfonia, onde o maestro não era outro senão o Espírito Santo. Como padre, soube ser pai, irmão, amigo e companheiro. Sabia puxar a orelha, se preciso fosse, mas também afagava, quando conveniente.

Padre Donizete se consumiu de zelo pelas coisas do Senhor, na liturgia e na administração dos sacramentos, na pregação do evangelho e no ensino da moral e dos bons costumes, na caridade para com todos, sobretudo com os empobrecidos e os afastados da vida de fé e eclesial. Ele soube sorrir com os que sorriam, chorar com os que choravam, trabalhar com os que trabalhavam, brincar com os que brincavam, cantar com os que cantavam, jogar com os que jogavam e amar com os que amavam e ensinando a amar os que odiavam.

COROLÁRIO

Recordo-me, quando menino, ver minha mãe escutar em uma rádio, a gravação da bênção oferecida pelo Padre Donizete. Ela guardava consigo uma pequena estampa com a fotografia do Padre. Hoje fico pensando o que ela esperava e o quanto lhe ajudava a bênção do Padre de Tambaú.

O meu predecessor e primeiro bispo da Diocese de São José do Rio Preto, Dom Lafaete, no ano das grandes romarias, também veio a Tambaú, agradecer ao Padre Donizete uma graça recebida através da sua oração: uma úlcera no estômago. O Bispo desejou a todo custo beijar as mãos do Padre, ao que este recusava. Só depois de muita insistência isto foi possível.

É com estes dois fatos no coração, que acolhendo o convite de nosso bispo da Diocese de São João da Boa Vista, que também tem raízes na Diocese de São José do Rio Preto, venho hoje a Tambaú do Padre Donizete, como um entre milhares de peregrinos desta romaria da esperança, oscular com reverência a pedra fria que guarda os seus restos mortais.

Pela vida e pela santidade do Padre Donizete, Deus seja louvado! Nossa Senhora Aparecida nos ajude a seguir o seu exemplo de homem, de cristão e de sacerdote.


terça-feira, 4 de junho de 2013

ANTÔNIO, O SANTO DOS PEIXES, DA MULA E DOS PÃES

Mês de junho, no Brasil, é sinônimo de festa junina. Em alguns lugares, tornou-se festa institucionalizada, como o carnaval, movimentando milhões de reais. Salvo raros casos, os festejos juninos se distanciaram da sua origem religiosa católica, a recordação de Santo Antônio, São João Batista e São Pedro, se consolidando como festa profana de bebida, comida, dança e até algum complemento de erotismo.

O primeiro santo recordado nas festas juninas é Santo Antônio, de Lisboa, onde nasceu, ou de Pádua, onde repousa parte de seu corpo. Ele viveu na idade média, contemporâneo de São Francisco de Assis, membro de sua família religiosa, os franciscanos. Tornou-se um dos santos mais conhecidos no mundo, perdendo apenas, segundo os entendidos, para São José, o esposo da Virgem Maria. Pretendia ser missionário na África, mas Deus o desejou na Europa.

Santo Antônio foi enamorado da Palavra de Deus, profundo conhecedor da Sagrada Escritura, não uma ciência acadêmica e informativa somente, mas performativa, deixou-se modelar por ela e rezou-a. A sua pregação era eivada por esta Palavra de Deus assimilada na vida e na contemplação, e ela mesma o impulsionava à missão, movido pela certeza de que a fé seria despertada no coração dos fiéis pela audição da Palavra salvadora de Deus. Tornou-se um exímio pregador, suscitando nas pessoas o desejo de dar as razões da fé. Numa aldeia, pregou aos peixes, diante da recusa das pessoas em ouvi-lo.

Aprendemos com Santo Antônio o amor à Sagrada Escritura: ter, ler, compreender, viver, rezar, celebrar e anunciar a Palavra de Deus. Não um contato ocasional com a Bíblia, mas uma relação de dependência motivacional, bebendo dela a inspiração para a vida, reconhecendo-a como Palavra de Deus e deixando-a ser Palavra de Deus em nossa vida e na vida da Igreja.O melhor instrumental para a aproximação à Sagrada Escritura é o método da Leitura Orante da Bíblia, pois contempla todos os elementos apontados acima.

Santo Antônio foi um enamorado da Eucaristia, cônscio da presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo sob as espécies do Pão e do Vinho consagrados. A Missa constituía para ele ponto de partida, chegada e centro de sua vida de fé e apostolado. Passava horas em adoração diante do Santíssimo Sacramento. Diante de um incrédulo, que o desafiou, duvidando da presença real de Jesus na Eucaristia, uma mula ajoelhou-se diante do ostensório com o Santíssimo Sacramento, recusando o cesto de verde feno.

Ao contrário de Santo Antônio, vamos perdendo o sentido da Missa Dominical e o culto ao Santíssimo Sacramento fora da celebração da Eucaristia. Transformamos o domingo, o Dia do Senhor, como parte do fim de semana, sinônimo de lazer e tempo de ultimar tarefas domésticas ou complementares ao trabalho. Nos últimos seis meses, três sacrários foram violados em nossa Diocese de São José do Rio Preto, provocando pouca ou nenhuma reação da parte dos fiéis. A solenidade do Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo não reuniu número significativo de católicos nas missas, adorações e procissões. 

Vamos redescobrir a beleza da Eucaristia, alimento de vida plena dado por Nosso Senhor Jesus Cristo a nós pobres pecadores. É o seu Corpo e Sangue, nascido de Maria Virgem, que andou pela Judéia e Galiléia fazendo o bem, Corpo transfigurado e crucificado, que conheceu a profundeza do inferno, Corpo ressuscitado e que no céu se encontra à direita de Deus Pai. A Eucaristia é alimento para nós que vivemos o drama da fé. Invistamos algum tempo de nosso dia ou semana para a adoração ao Santíssimo Sacramento que está sempre a nos esperar nos sacrários de nossas igrejas.

Abençoamos os pães no dia de Santo Antônio porque ele foi um enamorado dos empobrecidos, fruto de sua consciência da centralidade da caridade na vida dos amigos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aprendeu com São Francisco de Assis a amar e fazer o bem àqueles que são os últimos dos últimos.

Temos empobrecidos cuja assistência requer mais, muito mais, do que o nosso esforço pessoal e nossa esmola. Penso nos usuários de drogas, “lícitas e ilícitas”, e nos moradores em situação de rua. Para estes, e para outros, temos que cobrar políticas públicas não só de assistência, mas de recuperação e promoção da dignidade, com consequente reinserção na sociedade.

Outros empobrecidos esperam nossa ajuda, e de fato podemos ajudá-los. Muitos deles são vítimas da ignorância intelectual e espiritual, situação em que se encontram não por vontade própria, mas conseqüência do contexto social e eclesial que vivemos. Muitos esperam um consolo, uma palavra de ânimo, um conselho, um abraço. Diz um ditado popular: “Ninguém é tão rico que não precise nada receber, nem tão pobre que não tenha nada para dar.”

Que Santo Antônio, o Santo da Palavra de Deus, da Eucaristia e dos empobrecidos nos ajude a viver bem nossa amizade com Nosso Senhor Jesus Cristo.


+ Tomé Ferreira da Silva

Bispo Diocesano de São José do Rio Preto.