segunda-feira, 29 de abril de 2013

NHÁ CHICA DE BAEPENDI, ROGAI POR NÓS!

No dia 04 de maio, quinze horas, em Baependi, MG, o representante do Santo Padre o Papa Francisco, o Cardeal Angelo Amato, Digníssimo Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, beatificará a Venerável Nhá Chica, elevando-a à honra dos altares, podendo ser cultuada no Brasil como modelo de vida cristã e santidade. A celebração será transmitida pela Canção Nova, assista!

Baependi é uma típica cidade do Sul de Minas que vive sob a proteção de Santa Maria. Cidade das antigas e das boas. Ruas estreitas e curvas, calçadas com paralelepípedos, que tapeiam os morros. Casarões do passado assinalam que por ali a riqueza  foi farta. Povo religioso, famílias bem constituídas. Gente honesta e trabalhadora.

Na cidade encantada de Baependi ainda se ouve o badalo dos sinos, o ruído das novenas, o eco das ladainhas, o repetido da Ave Maria da oração do Rosário, os motetos em latim da semana santa. Não será incomum cruzar na rua com algum “cargueiro” trazendo leite ou lenha da roça. Nos quintais se encontrará jabuticaba, laranja, mexerica, goiaba e pé de couve.

Em Baependi se tem “roupa de missa” e de “ver Deus”. Na venda ainda se acha de tudo um pouco, quem sabe até querosene e panela de ferro. Na loja antiga de tecidos é possível encontrar aqueles panos que não existem mais, brim, tricoline, chita e tergal. Lá se conhece o padre e se diz prazeirosamente “A bênção, seu padre!”.

É esta cidade, escondida entre águas virtuosas e montanhas fecundas, que guarda os restos mortais, a memória e a saudade da Beata Nhá Chica. Doravante, quem sabe, será conhecida como Baependi da Nhá Chica! Do alto de uma de suas colinas irradia um facho de luz e brada um eco de santidade que percorre o mundo, agora reconhecido por Roma.

Tinha cinco anos, memória fresca, quando na Fazendinha dos Alpes, município de Cristina, diante da igrejinha azul dedicada a Nossa Senhora das Graças, pegamos o caminhão para ir em romaria visitar Nhá Chica. Era noite escura, assentos de tábuas duras, carroceria protegida por lona, o mês era junho, tempo de frio e geada. Foi a primeira vez na minha recordação.

Desde então Nhá Chica era a santa da gente. Em nossa casa ela já estava, na estampa amarelada, sempre sentada, de vestido grande, guarda chuva, cabeça coberta e rosto entre grave e sereno, de admoestação e apreço. Uma velhinha simpática, uma “vozinha”. Era a santa da gente, porque era como a gente, empobrecida, temente a Deus e nos ajudava junto de Deus, e como ajudava!

A gente sabia que em vida era “rezadeira” das boas. Não havia quem batesse em sua porta, e nem precisava bater, pois estava quase sempre “destramelada”, que não recebesse a reza que precisava. Sua fama correu léguas, e de muitos lugares da vizinhança e de longe, de trás das serras, chegava gente para ser rezado por ela. Ficou santa de tanto rezar.

Acho que não sou dos antigos, ainda. Sem desmerecer outros,  quero lembrar duas pessoas que ajudaram Nhá Chica a tornar-se conhecida, contribuindo indiretamente para a sua beatificação, e que já estão com ela no céu, certamente numa festança danada: Monsenhor José do Patrocínio Lefort, campanhense ilustre, orador de primeira grandeza, toda sua vida como chanceler do bispado da Campanha; Cônego Junqueira, assim o chamávamos, de fala mansa, passos lentos, pai de todos, paciência ilimitada, se é que é possível, achava-o excessivo na bondade.

Num cantinho do céu, se é que no céu tem canto, acho que os três estão em boa prosa,  alegres com o que está acontecendo aqui em baixo: certamente, Nhá Chica muito humilde e não se achando merecedora de tudo isso, imagina só o representante do Papa vir à sua casinha, ainda está “acanhada” com tanto rebuliço; Cônego Junqueira, mais escuta que fala, ainda veste aquele “jaleco”, mas dos seus lábios nasce um riso só; Monsenhor Lefort é o único falante, conta, reconta e “triconta” as histórias, um palreador. Ainda que na imaginação eu os vejo assim, espio tudo e também me divirto de alegria, ação de graças e júbilo. Deus seja louvado!


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto\SP.



Um comentário:

  1. Caro Dom Tomé, que a paz e a graça do Senhor estejam convosco, nessa nova missão. Parabéns pelo texto. Lúcido, claro, poético, com o saudável saudosismo de quem aprecia as coisas boas s simples da vida, sem deixar de lado o principal: apontar que a luz de Cristo brilha em todos os lugares e o Espírito sopra onde quer, chamando a todos para a santidade!
    Juliano (paroquiano da N.S. da Saúde - São Paulo - SP)

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