quinta-feira, 21 de março de 2013

A CENTRALIDADE DE JESUS CRISTO NA VIDA DOS FIÉIS CONSAGRADOS E ORDENADOS, CHAMADOS À RESSURREIÇÃO.

Manhã de espiritualidade, na quaresma, com os sacerdotes, diáconos e religiosas na Diocese de São José do Rio Preto, em 21 de Março de 2013


INTRODUÇÃO:
Vejo como sinal profético o singelo gesto de nos dirigirmos à Catedral da Diocese, em plena manhã de quinta feira da Semana das Dores de Nossa Senhora. Uma manhã de espiritualidade na quaresma, interrompendo os afazeres, por mais importantes que sejam, quando já divisamos no horizonte a proximidade do Tríduo Pascal. São bem-vindos a esta Igreja,  mãe das igrejas da diocese.

Nossa manhã de oração, é uma resposta à proposta da oração que recebemos de Nosso Senhor Jesus Cristo na quarta feira de cinzas, amparada pela caridade e pelo jejum. Hoje  rezamos juntos: consagrados, diáconos, padres e bispo, bela expressão da comunhão eclesial.

Na vida religiosa, diaconal, sacerdotal e episcopal nenhuma tarefa é tão ou mais importante que o tempo bom e justo dedicado à oração.

Rezar com a Igreja e pela Igreja, não é uma possibilidade para nós como o é para os demais fiéis. É uma missão assumida no dia de nossos votos e de nossa ordenação sacerdotal, diaconal ou episcopal, diante de Deus e da Igreja. Rezar para nós é ofício, “é como se tivéssemos sido contratados para isto.”

Se rezar é uma promessa que fizemos, quebrá-la é coisa séria diante de Deus e da Igreja. Nos diz Nosso Senhor Jesus Cristo: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não”(   ). O Povo de Deus tem direito à nossa oração diária e de qualidade em sua intenção, rezar com eles, mas também rezar por eles. Rezar para nós é um ministério, um serviço a ser prestado.  O tempo bom e justo que dedicamos à oração não é perda de tempo, mas precioso investimento em benefício do Povo de Deus, em nosso próprio e para a eficiência do nosso ministério e consagração.

Escolhi como inspiração para nossa meditação nesta oração o texto de Fl 3,8-14. Aliás, texto que ouvimos na celebração da Missa no domingo passado, 17 de março.

O CONTEXTO.
Em Filipos São Paulo fundou a “sua”primeira comunidade na Europa, durante sua segunda viagem, por volta do ano 50 (cf At 16, 11-40). Ao escrever esta carta ele se encontra no cativeiro, provavelmente em Éfeso, por volta do ano 55. Os filipenses desejam saber notícias de São Paulo e de sua real situação como prisioneiro em Éfeso (cf 1Cor 15,32; 2Cor 1, 8-10; 11, 22-23).

A carta  responde a três objetivos: oferecer as informações desejadas pelos cristãos de Filipos sobre sua situação de prisioneiro em Éfeso; agradecer a doação que havia recebido dos filipenses enviada através de Epafrodito; censurar os falsos mestres que atormentavam a comunidade, propondo volta a costumes judaizantes, isto é a confiança na Lei, em menosprezo à fé.

No capítulo terceiro, de onde é extraído a nossa perícope, encontramos dura crítica aos falsos mestres que desejavam reintroduzir entre os cristãos elementos do judaísmo, que Paulo considera superados pela nova realidade em Cristo.

Nos versículos que antecedem os que ouvimos, São Paulo enumera alguns elementos de sua vida como judeu, e, diga-se de passagem, de um bom judeu.

“Bem que eu poderia pôr minha confiança na carne. Se algum outro pensa que pode confiar na carne, eu mais ainda: fui circuncidado no oitavo dia, sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus; quanto à observância da Lei, fariseu; no tocante ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que vem da Lei, irrepreensível. Mas essas coisas, que eram ganhos para mim, considerei-as prejuízo por causa de Cristo”(Fl 3, 4-7).

A auto-descrição que São Paulo realiza de si mesmo, faz-me lembrar o “jovem rico” do evangelho. São duas pessoas, diríamos, “perfeitas”. Porém, Paulo realiza justamente o que o jovem rico parece não ter feito, ABANDONAR TUDO PELO REINO DO CÉU.

OLHANDO O TEXTO.
1. A META/O ESCOPO:
a. “para ver se eu alcanço  a ressurreição de entre os mortos”(11)
b. “prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus”(14)

A meta desejada por São Paulo é soteriológica e escatológica: a vocação do alto, que nasce de Deus, através de Nosso Senhor Jesus Cristo, é a ressurreição dos mortos. É este o seu desejo, não só para si, mas para todos, também para os cristãos de Filipos: a ressurreição, é o desejo final, o “prêmio” a ser alcançado por graça de Deus.

Para o fiel cristão, ordenado, consagrado ou leigo, antes de tudo e depois de tudo, a realidade primeira e final é a ressurreição dos mortos. Como Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou, ressuscitaremos também nós. É o que professamos no Credo: “creio na ressurreição da carne e na vida eterna”.

Ressuscitar é esperança, a primeira e última esperança. São belas as palavras que lemos na Carta aos Hebreus: “...encontramos profunda consolação, nós que tudo deixamos para conseguir a esperança proposta. A esperança, com efeito, é para nós qual âncora da vida, segura e firme, penetrando para além da cortina do santuário, aonde Jesus entrou por nós, como precursor, feito sumo sacerdote eterno na ordem de Melquisedec”(Hb 6, 18-20).

Desejar o céu, ressuscitar para a vida, tudo fazer para chegar lá, embora sabendo que nos é dado e não conquistado, é determinante para o nosso modo de ser e agir como batizados, consagrados e ministros ordenados.

2. A JUSTIÇA DE DEUS.
Ressuscitar com Cristo não é obra das obras, ou da Lei: “não tendo a justiça da Lei, mas a justiça que vem de Deus, apoiada na fé”(9). A ressurreição é dom de Deus a ser acolhido na fé. A ressurreição não é pagamento ou prêmio por uma vida de obras boas. Não que estas não sejam importantes, mas elas não compram ou não funcionam como moeda de troca para a ressurreição. As obras confirmam a nossa fé, expressam a fé, ilustram a fé, mas não podem obscurecer o que é próprio de Deus, o seu amor salvador doado gratuitamente aos filhos e filhas, seus amigos, em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Encontramos na Carta aos Romanos: “Agora, sem depender da Lei, a justiça de Deus se manifestou, atestada pela Lei e pelos Profetas, justiça de Deus que se realiza mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem; pois não há diferença: todos pecaram e estão privados da glória de Deus. E só podem ser justificados gratuitamente, pela graça de Deus, em virtude da redenção no Cristo Jesus. É Ele que Deus destinou a ser, por seu próprio sangue, instrumento de expiação mediante a fé. (...) Deus demonstra sua justiça, no tempo presente, a fim de ser justo, e tornar justo todo aquele que se firma na fé em Jesus. (...) Pois julgamos que a pessoa é justificada pela fé, sem a prática da Lei.”(Rm 3, 21-31)

3. A CENTRALIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.
São magistrais as palavras de São Paulo:
a. “Tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor”( 8 ).
b. “Por ele eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele” ( 9 ).

Não se trata aqui de um conhecimento informativo, mas performativo de Jesus Cristo, acolhido como Senhor. Somente quando ele é acolhido como Senhor, sou capaz de perder tudo, ou ter tudo como esterco, para tê-lo somente, tê-lo como o único tesouro.

O conhecimento performativo é o conhecimento existencial, da pessoa apaixonada, capaz de loucuras pelo amor. Como São Francisco de Assis volta à moda, sem nunca ter saído,  com o Papa Francisco, n’ele, em São Francisco, temos o exemplo de conhecimento performativo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É o senhorio de Nosso Senhor Jesus Cristo que determina a cada fiel o que é esterco e deve ser abandonado. Abandonar para ter a Cristo. Mas também abandonar para ser achado em Cristo. Nós o chamamos de “Nosso Senhor”, mas não o admitimos como “meu Senhor”. E quando Ele não é meu Senhor, as pessoas que se aproximam de mim, não me encontram em Cristo, gerando decepção, apatia religiosa, desorientação.

Se na minha vida de fé, de consagrado e ou de ministro ordenado, também no meu ofício, não sou encontrado em Cristo, sou como nuvem sem chuva. Reina o vazio em mim e onde me encontro. E as pessoas irão a outras pessoas, a outros lugares, onde possam encontrar a Jesus Cristo.

4. A PRECEDÊNCIA DA AÇÃO DA GRAÇA DE DEUS.
Antes de darmos o primeiro passo, ou qualquer passo, já atua em nós o Espírito Santo de Deus. D’Ele é a iniciativa e o protagonismo da vida de fé e de salvação.

Veja o que disse São Paulo:

a. “(...) tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele”( 9 );

b. “pois que também já fui alcançado por Cristo Jesus” ( 12 ).

Esta mesma experiência foi feita por Santo Agostinho e cujo relato encontramos na sua obra “As confissões”.

Deus age antes de nossa consciência e nossos passos. Antes de achá-lo, já fui achado por Ele. Antes de alcançá-lo, já fui alcançado por Ele. E porque somos achados e alcançados por Ele, podemos fazer a nossa parte, parte que é resposta a uma proposta da Graça, resposta que se constrói, consolida e se realiza na Graça.

5. O DRAMA DA VIDA CRISTÃ.

A vida cristã é o drama do já e do ainda não, presença e ausência, certeza e esperança. Este drama produz uma sadia angústia, o sentimento do exilado, uma angústia existencial e necessária, pois somos cidadãos do céu e estamos aqui. Segundo Kierkegaard, esta angústia é necessária para a autenticidade da fé.

Estamos no tempo e desejamos a eternidade. Somos mortais e desejamos a imortalidade. Estamos morrendo e esperamos a ressurreição. Como desejamos o que não conhecemos? Se desejamos a eternidade, a imortalidade e a ressurreição, é porque de algum modo as experimentamos. E as experimentamos em Cristo, através da ação do Espírito Santo.  Por isso, podemos exclamar como os exilados na Babilônia: “ sentados à beira dos rios da babilônia, choramos de saudades de Sião.” Sem ter ido ao céu, temos saudade do céu!

São Paulo traduz assim esta realidade: “Não que eu já o tenha alcançado ou que já seja perfeito, mas vou prosseguindo para ver se o alcanço(...)”( 12 ).

6. A TAREFA DO PRESENTE.
O que devo fazer no presente? “ (...) mas vou prosseguindo para ver se o alcanço”(12). Não alcancei ainda. Ainda não sou perfeito. Alcançar é deixar ser alcançado. Prosseguir é deixar-se conduzir pelo Espírito que sopra onde, quando e como quer.

“E isso para que eu possa conhecê-lo, conhecer o poder da sua ressurreição e a participação dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte, para ver se eu alcanço a ressurreição de entre os mortos”( 11s ). CONFORMANDO-ME COM ELE NA SUA MORTE.

Bradou firme o Papa Francisco em um dos seus primeiros pronunciamentos: Não há Jesus Cristo sem cruz. Podemos acrescentar, não há ressurreição sem a morte. Não é possível saltar o morrer cotidiano e chegar sem a sua mediação à ressurreição. Não há vida episcopal, sacerdotal, diaconal e religiosa sem o Crucificado e sem a cruz.

Temos medo do Crucificado. Não queremos contemplá-lo, nem mesmo vê-lo, por isso o suprimimos, e os seus sinais, das nossas casas, do nosso próprio corpo e até mesmo de nossas igrejas e espaços. Que discrepância entrar nas igrejas e nos espaços eclesiais e não encontrar a sublimidade do crucificado. Doce e pecadora ilusão que tentamos passar também para os fiéis, como se já tivéssemos realizado a esperança.

Enquanto se luta para que a imagem do crucificado não desapareça  dos espaços públicos, nos espaços eclesiais, salas, salões, galpões, escolas, hospitais, obras sociais, ele já não mais está, ou está escondido, ou jogado num canto, ou em deterioração  mostrando tragicamente como deteriorada pode estar a fé.

Enquanto peregrinamos, na história e na Igreja Militante, o drama é o da cruz;  para nós a ressurreição é esperança. Não podemos substituir o drama da cruz pela ressurreição enquanto esperança. Seria ignorar nossa realidade e nossa condição.

O tempo da vida é o tempo de morrer.  Viver para morrer. Morrer para viver. É esta a santidade ativa que Deus espera de nós, como seus filhos e filhas, seus consagrados e seus ministros.

PROPOSIÇÕES PARA O EXAME DE CONSCIÊNCIA:

1. Estou vivendo esta quaresma no amor a Deus e ao próximo?

2. Que empenho pessoal tenho colocado no jejum, na penitência, na oração e na caridade, ao longo destas cinco semanas da quaresma?

3. A minha vida está assentada solidamente na fé? Eu vivo da fé? Eu vivo para a fé?

4. Eu creio e acolho Nosso Senhor Jesus Cristo como Senhor da minha vida e da minha ação pastoral?

5. Tenho consciência da precedência de Deus e da sua graça na minha vida, no meu ministério e no meu ofício?

6. Que posturas, coisas, hábitos, modos de ser e agir que preciso abandonar como estercos?

7. Eu creio no céu? Espero o céu? Busco o céu?

8. Eu creio na ressurreição dos mortos? Eu quero chegar lá? Tudo faço para alcançar esta meta?

9. Tenho abraçado a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo? Tenho morrido com Ele para viver com Ele?

10. Como tenho vivido os votos de pobreza, obediência e castidade? Como tenho vivido os meus compromissos como bispo, padre e diácono?

Nenhum comentário:

Postar um comentário