sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Seria possível brincar o carnaval de modo cristão?

Estamos próximos do carnaval, festa espalhada por muitos países, mas que no Brasil adquiriu uma feição singular, senão única: pela extensão da duração, pela diversidade das expressões regionais, pelo investimento público e privado realizado, como momento de expressão de facetas culturais diversificadas, pela alegria com que é vivido e pelos excessos.

Em muitos países, como foi na sua origem, o carnaval é vivido em um único dia, na terça feira que precede a quarta feira de cinzas. Este era o dia em que, na iminência da quaresma, tempo de jejum, oração, penitência e caridade, os cristãos se permitiam uma despedida das carnes, bebidas e festas com uma intensidade maior. Entre nós o carnaval nem mais é vivido em quatro dias, de sábado a terça feira, mas inicia-se na sexta feira. Em muitos lugares inicia-se no ano novo, em outros se estende para o interior da quaresma. Diversas cidades realizam um carnaval fora de tempo. Há um exagero na extensão do carnaval brasileiro, que oficialmente deveria ser realizado apenas na terça feira, feriado nacional. A quem interessa e a que interesses serve um carnaval tão extenso e esta carnavalização de outros dias do ano?

Não podemos falar de um único carnaval no mundo, cada país ou cultura o experimenta de modo próprio. O mesmo ocorre no Brasil, cada região tem sua festa carnavalesca com colorido, música, dança, comidas e folguedos próprios. Entre o norte, nordeste, centro oeste, sul e sudeste do Brasil, a única festa exprime-se em variadas formas. O carnaval brasileiro é um mosaico cultural diversificado nas suas expressões. Como manifestação cultural, o carnaval acaba se tornando um instrumento divulgador de valores e hábitos regionais. E enquanto tal, manifestação cultural, apresenta expressões de beleza que encantam os olhos, os ouvidos e o paladar.

O carnaval brasileiro, salvo casos raros, tornou-se objeto de grandes investimentos públicos e privados, transformando-se em um negócio, às vezes rentável, outras nem tanto, envolvendo número expressivo de pessoas, em tempo integral ou não, tornando-se uma fonte de trabalho e ocupação para muitos. Temos uma indústria carnavalesca no Brasil que movimenta muitos milhões de reais. É preciso repensar o investimento público nas festas de carnaval. Até que ponto é justo, honesto e saudável as prefeituras e os estados investirem pequenas ou altas somas de dinheiro na promoção do carnaval? São investimentos resultantes dos impostos que são recolhidos para fins muito específicos. Diante de tantas carências, o dinheiro oferecido ao carnaval parece e pode irrigar práticas escusas, promover um enfraquecimento da consciência crítica, repetir a práxis do “pão e circo” como forma de esconder ou mascarar outras situações.

Nem tudo é fútil no carnaval. No Brasil, ele tornou-se uma nascente de expressões culturais, sobretudo no que diz respeito à música, dança e hábitos alimentares. Em alguns lugares, como no Rio de Janeiro, a teatralização do carnaval constrói um expressivo espetáculo público de grandes proporções, agregando diversos matizes da arte, da engenharia e da arquitetura. Tem sido um espaço livre para a criatividade. A escolha de temas para as diversas corporações acaba por tornar-se veículo de divulgação de temas históricos, culturais, políticos ou de expressão de necessidades específicas da população.

Uma nota comum no carnaval brasileiro é a alegria. Somos conhecidos como um povo alegre. Este sentimento aflora mais livre e expressivamente durante o carnaval. A alegria é uma dimensão saudável da vida, é também uma virtude cristã. Porém, a alegria carnavalesca não identifica-se com a alegria cristã e também não é pura expressão da alegria humana saudável, sobretudo quando é produzida artificialmente pelo consumo de bebidas alcoólicas, estimulantes, energizantes e dos mais diversos tipos de droga. No reinado do momo, muitas vezes, não necessariamente, esta alegria está associada a um processo de erotização das pessoas, apresentadas como objeto de prazer, escravizando-as e submetendo-as a um processo de destruição de sua dignidade pela pública exposição corporal sem critérios ou pautada por critérios questionáveis.

O excesso é um elemento comum no carnaval brasileiro. E nenhum excesso é bom. Os excessos apontam para a necessidade de repensar as expressões do carnaval. Este reposicionamento deve partir das pessoas e das famílias, mas também dos poderes públicos constituídos. Por sua própria natureza, as igrejas cristãs, sobretudo a Católica Apostólica Romana,  devem dar a sua contribuição, pois são formadoras de consciência e de opinião. Os padres e pastores podem e devem usar do púlpito, e de outros meios disponíveis, para ajudar a repensar o reinado do momo, pois do contrário continuaremos caminhando para um abismo esculpido pelo pecado.

Seria possível brincar o carnaval de modo cristão? Possível, sim, mas não provável; seria muito difícil, com raras exceções. Por isso, é “melhor prevenir do que remediar”.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP.

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