quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Os jovens Davi e Jônatas


Encontramos na Sagrada Escritura edificantes e bonitas histórias. Como não se encantar com a história de José do Egito, ou de Rute, de Moisés, de Abraão, de Tobias, entre outras?  No contexto da Campanha da Fraternidade deste ano de 2013, que tem os jovens por objeto, vale a pena recordar a história  de Jônatas e Davi, narrada no Primeiro Livro de Samuel, que poderia ser uma boa opção de leitura para os jovens nesta quaresma e boa preparação para a Jornada Mundial da Juventude, em julho, no Rio de Janeiro, precedida pela Semana Missionária a ser realizada em nossas paróquias.

Jônatas e Davi eram jovens: Jônatas era filho de Saul, Rei de Israel; Davi, fora escolhido por Deus para suceder a Saul no governo do Povo Eleito. Longe de sentir-se traído por Davi, Jônatas, o herdeiro natural do trono, estabelece com ele uma profunda relação de amizade e admiração, pois reconhece-o como  escolhido de Deus para conduzir o seu povo. Não se desenvolve entre ambos o ciúme e a inveja, mas a mútua cooperação em vista de um bem maior, o Povo de Deus.

Jônatas e Davi reconhecem o primado de Deus em suas vidas e na vida do povo de Israel. O primeiro sabe que não é ele que deverá suceder a Saul no governo, mas que esta responsabilidade caberá a Davi que para tal foi escolhido por Deus. Ambos reconhecem e desejam fazer a Vontade de Deus em suas vidas e na vida do povo ao qual pertencem. Há uma renúncia da vontade própria, de sonhos e projetos pessoais para permitir acontecer o desejo de Deus para o seu povo.

Jônatas e Davi reconhecem a Saul como rei de Israel, escolhido por Deus. Ambos sabem e aceitam que a autoridade de Saul é proveniente de Deus e diante dele cultivam um respeito sagrado. Na relação triádica estabelecida entre Saul, Jônatas e Davi, é clara a consciência dos dois jovens de que o poder do rei de Israel é proveniente de Deus e do respeito que se deve à autoridade legitimamente constituída. Em diversas ocasiões Davi tem a possibilidade de eliminar a Saul, mas não o faz: "Que o Senhor me livre de fazer uma coisa dessas ao ungido do Senhor, levantando a minha mão contra ele, o ungido do Senhor"( 1Sm 24, 7).

Entre Jônatas e Davi se estabelece uma relação singular de amizade: “Jônatas fez uma aliança com Davi, que ele amava como a si mesmo”(1Sm 18,3). Entre os dois há o encontro entre amizade e fraternidade: uma fraterna amizade e uma amizade fraterna. Não é uma amizade puramente humana, mas de fundo espiritual, místico, que nasce da consciência da vontade de Deus para ambos.

“Saul ficou com medo de Davi, porque o Senhor estava com ele, enquanto se tinha retirado de Saul”(1 Sm 18, 12). Diante de Saul, enciumado e irado pelos feitos guerreiros de Davi e pela admiração que ele suscitava no povo, Jônatas se coloca como defensor intransigente de seu amigo. Em diversas ocasiões, a intervenção de Jônatas é fundamental para a sobrevida de Davi. Aqui a amizade se transforma em cuidado. Cuidado que é expressão de amor e de cumplicidade: “Não temas, pois a mão de meu pai não te atingirá”(1 Sm 23, 17).

Na plenitude de sua juventude, Davi tem consciência de servir a Deus, não como sacerdote, mas como político. Mesmo antes de assumir o governo, não fica à sombra de Saul no conforto do palácio, mas sai para os campos de batalha, vence não só Golias, mas muitos outros povos inimigos de Israel. Davi tem a vitalidade,  força e disposição de um guerreiro incansável.

A bela e edificante história de Davi e Jônatas faz emergir uma série de virtudes, atitudes e posturas que podem e devem estar presentes na vida de nossos jovens: o cultivo da amizade e fraternidade; ter a liberdade interior de renunciar à vontade própria para em tudo fazer a Vontade de Deus; ter consciência do primado de Deus na vida humana e na história; estabelecer relações de paz e de cuidado recíproco; inserir-se na vida política, movido por um ideal maior de serviço às pessoas, como expressão da caridade; respeito à autoridade legitimamente constituída; superar qualquer desejo de agir violentamente e capacidade de ação movida pela fé dentro de contextos hostis.

+ Tomé Ferreira da Silva.
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP.

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