sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

HOMILIA NA MISSA DE ABERTURA DO CAPÍTULO PROVINCIAL DAS IRMÃS PAULINAS, 03/01/13


Na celebração da Santa Missa, momento antes da Comunhão Eucarística, o sacerdote levanta o Corpo de Cristo e, após breve introdução, variável, aclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.”(Jo 1, 29).

Esta aclamação foi criada por São João Batista para apresentar Nosso Senhor Jesus Cristo aos seus contemporâneos, como ouvimos no evangelho proclamado na Liturgia da Palavra desta Santa Missa que estamos celebrando.

No início do nosso Capítulo Provincial, nos colocamos na escuta da Palavra de Deus, nos alimentamos da Eucaristia, nos abrimos à inspiração do Espírito Santo, emoldurados e sustentados pela vida e ação da Igreja.

É como expressão e parte constitutiva da Igreja, Mãe e Mestra, Povo de Deus, Corpo Místico de Cristo, que realizamos nosso Capítulo Provincial. É ela, a Igreja, que nos sustenta e emoldura nossa vida e ação enquanto Congregação Religiosa; aqui, moldura e tela se confundem, se encontram, não sendo possível distinguir muito bem onde começa uma e termina outra,  o conjunto é uma só obra de arte, fruto da ação única, porém multiforme do Divino Espírito Santo.

A Igreja nos recorda que nosso Capítulo Provincial se inicia no contexto do Tempo do Natal, no ano da Fé, convocado por Sua Santidade o Papa Bento XVI, durante a Jornada Mundial da Juventude, pois ela já acontece de fato, aqui e acolá, cujo encerramento será no Rio de Janeiro, na segunda quinzena de julho próximo.

EVANGELHO:

O texto proclamado no Evangelho de hoje é altamente teológico. Por trás da simplicidade do fato e de seu relato há uma singela, porém profunda teologia, quase uma sinopse do Mistério da Salvação.

A aclamação de São João Batista, diante da proximidade física de Nosso Senhor Jesus Cristo, é estonteante: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” Quanta realidade veterotestamentária, com novo significado, está presente na expressão “cordeiro de Deus”; basta lembrar o êxodo e a liturgia subseqüente.

São João Batista não fala dos pecados, mas “o pecado do mundo”. De que se trata este pecado do mundo? Que relação ele tem com os pecados que cometemos, com os pecados sociais e com os pecados estruturais?

Num segundo momento, João dá humilde e comovente demonstração de conhecer a sua missão:

“Depois de mim, vem um homem que passou adiante de mim porque existia antes de mim.” São João Batista parece reconhecer a eternidade do Verbo, sua coexistência com o Pai e o Espírito Santo.

“Eu não o conhecia, mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim batizar com água.” Interessante, João, o Batista, não conhecia Jesus Cristo? Como pensar então a visita de Nossa Senhora a sua parenta Isabel? Durante o crescimento e juventude, os dois jamais teriam se encontrado?

São João Batista tem consciência do efeito simbólico de seu batismo, com água, de conversão, um propedêutico ao batismo no Espírito Santo!

No entanto, desconcertante é a conclusão do fato e do relato: “E eu vi e atesto que ele é o Filho de Deus”.  Eu vi e atesto. Ele é o Filho de Deus. Que força nestas palavras! Que convicção! “Eu vi e atesto que ele é o Filho de Deus.”

Afinal, o que viu João? “Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre ele.”

Ao mesmo tempo, volta a questão do conhecimento entre João e Jesus: “Eu não o conhecia...”. Ele então apela para uma testemunha mais que qualificada: “Aquele que me enviou para batizar com água, disse-me: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é que batiza no Espírito Santo.’”

São João Batista tem consciência de que sua missão é um mandato divino, de Deus Pai, que o encarrega de apontar o Salvador, o Filho Jesus Cristo, com a assinatura ou o testemunho da pessoa do Espírito Santo.

O fato e o relato são altamente cristológicos e soteriológicos, tudo é direcionado para a salvação que Deus Pai oferece a nós filhos rebeldes, intransigentes e pecadores. A que ponto chega o amor de Deus! A que ponto chega o amor de Deus!

A história do amor de Deus é um drama, com muitos capítulos, um drama de amor e de paixão pela humanidade.

PRIMEIRA LEITURA: 

Há uma perfeita sincronia entre o conteúdo da Primeira Leitura, da Primeira Carta de São João, e o Evangelho.

Nosso Senhor Jesus Cristo é apresentado como o Justo, sinônimo de Santo, fonte de nossa justificação, de nossa santificação: “aquele que pratica a justiça nasce dele”.

São João, o Discípulo Amado, é sempre bom recordar, mostra a nossa filiação divina como conseqüência do amor de Deus: “Vede que prova de amor nos deu o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos .”

Nossa filiação divina nos faz diferentes, estranhos ao mundo: “Eis por que o mundo não nos conhece; porque não o conheceu.” O mundo não conheceu a quem? O Pai? O Filho? O Pai no Filho?

Num terceiro momento, o Discípulo Amado afirma que mesmo sendo filhos de Deus ainda não nos é claro o nosso futuro, o que seremos. Que futuro é este? O dia da manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo glorificado pela cruz e ressurreição, a parusia, no fim dos tempos, tema tão presente na primeira parte do nosso advento.

E o que nos aguarda? O que teremos? O que seremos? “Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é.” Semelhantes, sem dúvida, a Cristo glorificado.

Esta espera abre espaço para a esperança. E a esperança suscita o desejo da purificação, do perdão dos pecados, que ocorre n’Ele, em Nosso Senhor Jesus Cristo, pois Ele é puro.

São João Evangelista continua sua catequese mostrando que pecado e iniqüidade andam juntos, se identificam: “Todo o que comete pecado comete também a iniqüidade, porque o pecado é a iniqüidade.”

A conclusão é esplêndida, como a suma de um exímio professor: “Sabeis que ele se manifestou para tirar os pecados e nele não há pecado. Todo aquele que permanece nele não peca. Todo aquele que peca não o viu nem o conheceu.” Nestes dois últimos versículos encontramos, se isto é possível, a síntese da Liturgia da Palavra que celebramos.


DESENVOLVIMENTO:

Tudo nos direciona para Nosso Senhor Jesus Cristo: o Tempo do Natal, o Ano da fé, a Jornada Mundial da Juventude. Ele é o centro, a razão de ser de nossa fé batismal, de nossa vida de consagrados: tudo n’Ele, para Ele, com Ele, por Ele. O encontro pessoal com Ele, tão insistente na Conferência de Aparecida, é fundamental, e só ele sustenta a paixão contínua da vida cristã e consagrada, pois este encontro não aconteceu, mas acontece, um capítulo por dia, como uma história dramática de amor. É isto o que nos mostra São João, o Batista, e o Discípulo Amado, o Apóstolo e Evangelista. Que lugar Nosso Senhor Jesus Cristo ocupa e ocupará em nosso Capítulo Provincial? É justo falar de lugar para Ele? São contradições de nossa limitada linguagem.

Eu creio, afirmo, clamo, testemunho como São João Batista: “E eu vi e atesto que ele é o Filho de Deus”!? Afirmamos isso também como Congregação Religiosa?

Por outro lado, vivemos o drama da vida cristã: o já e o ainda não. Somos filhos de Deus, mas aguardamos a plenitude. Enquanto isso, nossa vida se desenvolve em meio aos pecados. Somos pecadores. Todos: Eu! Vocês! Ainda que você não queira, ou não admita: somos pecadores. Pecadores convertidos, pecadores em conversão, eis a nossa dignidade! A partir desta comunhão no pecado, menos abrangente que a comunhão dos santos, somos chamados a reconhecer o nosso lugar, humildemente, talvez como o Batista diante de Jesus Cristo. Como participante, delegada, neste capítulo, tenho consciência de minha condição, ou me sinto onipotente?

O sentimento da humildade nos abre para acolher o Espírito Santo, o artífice da vida nova, da vida renovada em Nosso Senhor Jesus Cristo, a brisa renovadora e responsável pela jovialidade da Igreja. Atentos aos sinais dos tempos, como estamos, neste prenúncio capitular: abertos e disponíveis para ouvir os clamores do Espírito Santo, escutá-los e traduzi-los em orientações para nossas comunidades? Temos consciência que Ele é o protagonista da Igreja e, consequentemente,  também de nosso Capítulo Provincial?

A esperança, fruto da fissura provocada em nós pelo pecado, e suas consequências, nos acompanha e acompanhará sempre. Ela retira o nosso olhar do aqui e do agora, alarga o horizonte do nosso olhar, inteligência, vontade e coração. Ela nos eleva, faz transcender, nos faz alçar vôo de águia. O que esperamos com o nosso capítulo? Qual a esperança das esperanças que não decepciona? O que nossas irmãs, que ficaram, esperam de nós e de nossos trabalhos! Trabalhemos pelo alimento que não se perde!

CONCLUSÃO: 

Queridas Irmãs, permitam-me este adjetivo. Acho que posso usá-lo pois acompanho-as à distância, como convém, aquela distância amiga e respeitosa, mas ao mesmo tempo próxima e de cumplicidade.

As senhoras carregam um belo carisma colocado em suas mãos pelo fundador, o Beato Tiago Alberione, que o recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo e o viveu na força do Espírito Santo.

Para as operárias da comunicação, num mundo descrente e relativista, nada mais imperioso do que anunciar e testemunhar Jesus Cristo, com a escrita, a palavra e as imagens, com toda força, por sobre os telhados, olha aqui o mundo virtual como instrumento, de modo conveniente e até inconveniente, isto é, até mesmo a incomodar as pessoas.

A fé chega pelos ouvidos, diríamos hoje, também pelo olhar. E se não tivermos operárias da comunicação de Jesus Cristo e de seu evangelho de salvação, como as pessoas o conhecerão? Se não o conhecem, como poderão amá-lo? E se não amarem-no, como poderão seguí-lo? E se não o seguem, como poderão se salvar? Como soa oportuna a palavra do Apóstolo São Paulo, que tanto lhes é caro: “Ai de mim se não evangelizar!”

Que Nossa Senhora, Mãe de Deus, nossa Mãe, nos acompanhe neste capítulo provincial e nos assista com sua terna e materna proteção.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP.

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