sábado, 26 de janeiro de 2013

HOMILIA NA MISSA DOS 84 ANOS DA DIOCESE DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO

Na festa da conversão do Apóstolo São Paulo, neste ano de 2013, agradecemos a Deus os 84 anos de criação da Diocese de São José do Rio Preto, a nossa Diocese, onde Deus Pai nos quer como filhos e filhas queridos, reunindo-nos no amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, integrando-nos no seu Povo, fazendo-nos pedras vivas constitutivas de sua Igreja, permitindo-nos ser membros do Corpo Místico de seu Filho Bem Amado.

Razões outras, ao menos quatro, estão presentes no nosso coração nesta Eucaristia: vivemos o Ano da Fé; encerramos o ano pastoral de nossa Diocese, com destaque para a Eucaristia; encontramo-nos a elaborar o novo plano com as orientações pastorais; há um clamor para dirigirmos o olhar e o coração para a juventude, pois vivemos um tempo de graça para ela.

Na leitura dos Atos dos Apóstolos, ouvimos de São Paulo a narrativa de sua conversão no caminho de Damasco. Quando ia ao encontro dos cristãos para trazê-los prisioneiros a Jerusalém, encontra-se com Nosso Senhor Jesus Cristo Ressuscitado. Envolto por uma luz, é interrogado: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Diante do maravilhoso, numinoso e desconhecido, ele também interroga: “Quem és tu, Senhor?”. Então o Mestre se lhe apresenta: “Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem persegues.”

Por pior que seja a pessoa humana, ainda que seja um crápula, ninguém sai ileso do encontro pessoal com Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é capaz de resgatar todas as pessoas, independentemente de sua situação, e restaurar todas as coisas. “Cristo é capaz de salvar totalmente aqueles que, por meio dele, se aproximam de Deus, visto que Ele vive para sempre para interceder por eles.”(Hb 7,25).

Propor Nosso Senhor Jesus Cristo às pessoas de nosso tempo, no território de nossa Diocese de São José do Rio Preto, conduzi-las a Ele, é o primeiro e maior bem, senão o único, que podemos fazer às nossas sociedades, cidades, bem como à humanidade, ao mundo e à história. Nenhuma missão na Igreja antecede ou supera esta: levar as pessoas ao encontro pessoal com Nosso Senhor Jesus Cristo. O restante da vida de fé e eclesial é decorrência natural deste encantamento e fascínio inicial experimentado pelo fiel diante do Divino Salvador.

Programáticas são as palavras que Ananias dirige a Saulo: “Saulo, meu irmão, recobra a vista. (...) O Deus de nossos pais te predestinou para conheceres a tua vontade, veres o Justo e ouvires a voz saída de sua boca; pois deves ser sua testemunha diante de todos os homens do que viste e ouviste. Por que retardar ainda? Vamos! Recebe o batismo e purifica-te de teus pecados, invocando o seu nome.”

A solicitação outrora feita a Saulo por Ananias é  um clamor do Espírito Santo a cada um de nós e à Igreja: “Recobra a vista! (...) você foi predestinado e conhece a Vontade de Deus; você viu Jesus Cristo; você ouviu a palavra saída de sua boca. (...) Deve ser sua testemunha diante de todos os homens do que viste e ouviste. (...) Não tarde mais!”  Este não é um pedido gentil sugerido em sussurro à  Igreja, mas um clamor, um grito, um brado do Divino Espírito Santo! Até quando permaneceremos insensíveis e surdos a este clamor?

A solicitação de Ananias a Saulo, que é o clamor do Divino Espírito Santo a mim, a você e a nós, é a tradução do testamento de Nosso Senhor Jesus Cristo que ouvimos no evangelho nesta noite: “Ide por todo o mundo, proclamai o evangelho a toda criatura.” Todos, em todos os tempos, de todos os lugares, são destinatários da missão confiada pelo Divino Salvador a nós que somos o seu povo: ir por todo o mundo, ao encontro de toda criatura.

Quantas pessoas, milhares certamente, quantos lugares, centenas com certeza, em nossa diocese estão a esperar de nós para que venham a conhecer, ou conhecer adequadamente,  a Jesus Cristo Nosso Senhor. Onde houver uma casa, onde estiver uma pessoa humana, aí e a ela devemos ir para conduzi-las ao Sumo e Eterno Sacerdote. Não estamos mais para pescar com redes ou tarrafas, mas com vara. Não importa o lugar, não importa o número, os confins da nossa diocese e de nossas paróquias são espaços de evangelização, onde houver uma alma, a ela deve ser oferecido Jesus Cristo, nosso Esposo, salvação de Deus para a humanidade.

Se fechamos ou abandonamos uma Igreja, uma comunidade ou um grupo, se menosprezamos um fiel que seja, se deixamos ao léu qualquer expressão de vida eclesial, ainda que seja de apenas duas pessoas, responderemos pelas nossas atitudes no dia do juízo particular e final. Prestaremos conta do zelo negado para com as ovelhas perdidas e feridas, pelo abandono ou fechamento de qualquer comunidade ou expressão de vida eclesial, seja ela grande ou pequena, minúscula ou maiúscula, desta ou daquela corrente teológico-pastoral. Todos são filhos e filhas de Deus. Todas são expressões de vida eclesial suscitadas pelo Divino Espírito Santo.

Diante de Deus responderemos pela singularidade de cada pessoa colocada sob os nossos cuidados. Um fiel ausente da Igreja, um fiel que deixe de vir à Igreja, deve suscitar em nós profundas preocupações e suscitar zeloso ardor missionário. Não posso esperá-lo, sou eu que devo ir buscá-lo, resgatá-lo, incluí-lo. Não fechamos igrejas e comunidades, abrimos igrejas e comunidades. Não abandonamos ou menosprezamos pessoas, somos pescadores de pessoas para Nosso Senhor Jesus Cristo, construtores do Povo de Deus, nela introduzindo novos fiéis.  

A ação missionária tem por fim suscitar a fé e batizar, com tudo o que isso implica: “Aquele que crer e for batizado será salvo; o que não crer será condenado.”

O crente e o missionário não estarão sozinhos, têm garantias: “Estes são os sinais que acompanharão aos que tiverem crido: em meu nome expulsarão demônios, falarão novas línguas, pegarão em serpentes, e se beberem algum veneno mortífero, nada sofrerão; imporão as mãos sobre os enfermos, e estes ficarão curados.”  O Divino Espírito Santo é que suscita e sustenta a missão. De nossa parte é preciso confiar e se entregar, fazer menos perguntas e agir com mais celeridade.

A fé leva à missão e a missão leva à fé. São duas realidades intimamente conexas e inseparáveis. A fragilidade da fé se traduz na fragilidade da missão; a medida e a intensidade da missão é a medida e a intensidade da fé. Se a crise assola a vivência e a transmissão da fé é porque em crise está a missão. Se a missão encontra dificuldades para ser assumida com ousadia, é porque nossa fé também não está sendo abraçada com coração aberto e generoso.

É a Eucaristia, com as duas mesas, a da Palavra e a do Corpo e Sangue do Senhor, o alimento para a fé e a missão. Sem a Eucaristia não há fé que se sustente e missão que prossiga. Sem fé não há Eucaristia profícua e  missão que produza frutos. Sem missão não se transmite a fé e a Eucaristia.

Nossas paróquias, capelas, comunidades, colégios católicos, casas religiosas e outros espaços de culto precisam, com urgência inadiável, voltarem à celebração diária da Eucaristia, em horários convenientes e adaptados à realidade de nossos fiéis. Portas das igrejas fechadas, altares sem uso, são um valioso contributo e porta aberta para a ação do maligno no mundo e na história. Os que respondemos por estes fatos um dia prestaremos contas diante de Deus pelo bem que deixamos  de fazer privando as pessoas da salvação de Deus.

O pequeno número de fiéis e a ausência de equipes de celebração em número conveniente não se constituem em motivos suficientes que justifiquem a não celebração diária da Santa Missa. Nenhum bispo, nenhum padre, nenhum conselho paroquial tem o poder ou o direito de limitar e ou suprimir as missas diárias, dominicais e nos dias santificados. Se o fazemos, pecamos gravemente, induzimos ao erro e privamos os fiéis dos bens espirituais necessários à salvação. Se algum conselho paroquial se achou no direito de tais atitudes, deveria ser supresso de imediato, para que não venha a causar mais danos à fé e à missão do que já tenha causado.

O ano da fé e a necessidade premente da missão nos chamam à responsabilidade de voltar a celebrar a missa diariamente, também nas famílias, nos condomínios, prédios, escolas, ambientes de trabalho, presídios e congêneres, comunidades rurais e espaços públicos. A missa sempre, em todos os lugares, pois todos os espaços são sagrados, foram purificados pelo sangue redentor de Nosso Senhor Jesus Cristo, por isso dignos da Eucaristia.

Se um bispo ou padre chegasse ao final da jornada diária morto de cansado, mas sem ter celebrado a Santa Missa, nadou em vão, morreu na praia. Um padre e um bispo podem se ocupar ao máximo de trabalhos pastorais e administrativos, mas se estes não nascerem e não levarem à Eucaristia diária, nada feito, soaram como o sino, cujo som se perde no espaço, são nuvens vazias, sem chuva, trabalharam em vão, pois negaram à Igreja o que só eles podem fazer, e o que ninguém pode fazer por eles, dar ao mundo a Eucaristia, o Mistério de Salvação, o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Aos domingos e nos dias santificados e de festas religiosas de grande apelo popular, como no dia de Nossa Senhora Aparecida e outros, sendo feriado civil ou não, nenhuma paróquia, por menor que seja, deveria ter menos que três celebrações da Santa Missa, propiciando aos fiéis as condições necessárias, em horários oportunos, para se aproximarem da Eucaristia como solicita a Igreja.

O mesmo deveria ocorrer no dia do padroeiro das nossas paróquias. Não basta uma só missa “grande e alegre”, é preciso ao menos três, para que todos que o desejarem se aproximem dos sagrados mistérios no modo e horário que mais lhe aprouver.

Recomendemo-nos à terna e materna proteção do Coração Imaculado de Maria e de São José, para que avancemos por águas mais profundas, no que diz respeito à fé, à missão e à Eucaristia, sem medo, mas com ousadia, aquela santa ousadia assegurada pelo próprio Divino Espírito Santo.

Nossa Igreja é uma Igreja de Ministros Ordenados, sem eles não há missão, não há Eucaristia, não ocorre a guarda, o cultivo e a transmissão da fé. Vamos criar uma cultura vocacional em nossa Diocese de São José do Rio Preto. Precisamos de padres, de muitos padres, de bons padres, padres que sejam homens de fé, padres que vivem da Eucaristia, padres com coração missionário.

Cada paróquia, capela, comunidade, movimento, associação religiosa, nova comunidade, pastoral, criativamente busque e encontre meios para suscitar no coração dos jovens o amor a Nosso Senhor Jesus Cristo e auxiliem para que não tenham medo de responderem sim ao chamado à vida sacerdotal, religiosa e missionária.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos 84 anos de fecunda e bela vida de nossa diocese. Pelos 84 anos de bela e fecunda vida de nossa diocese, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Coração Imaculado de Maria, sede a nossa salvação! São José, rogai por nós!

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Diocese de São José do Rio Preto, 84 anos de história.


No dia 25 de janeiro, festa da conversão de São Paulo, Apóstolo, celebramos 84 anos da criação da Diocese de São José do Rio Preto. É hora de memória, gratidão, compromisso e esperança. Recordamos no coração e na oração os fiéis, ordenados ou não, que nos precederam, desde antes da criação da diocese, quando ainda éramos parcela da grande, fecunda e matriarcal Diocese de São Carlos.

A partir de 25 de janeiro de 1929, quanta labuta pastoral, com ânimo missionário, foi empreendida para que a salvação de Nosso Senhor Jesus Cristo chegasse aos que moravam nestas belas e promissoras terras do noroeste paulista, através da pregação do evangelho, da administração dos sacramentos, da caridade pastoral e da criação e organização de tantas paróquias com suas respectivas pastorais, movimentos, associações religiosas e novas comunidades. Neste processo não esquecemos a contribuição de tantas congregações religiosas, femininas e masculinas.

A memória dos antepassados é mais do que uma recordação, é um trazê-los ao presente, o que é possível através do mistério da comunhão dos santos e da ação do Divino Espírito Santo, deixá-los falar para aprendermos com eles o segredo de tamanho zelo apostólico que fez semente tão frágil, inicialmente apenas quinze, tornar-se árvore frondosa com tão variados e saborosos frutos que prosperam em nossas quase cem paróquias. Deus seja louvado por estes 84 anos de história!

Do coração brota o sentimento de gratidão aos fiéis, ordenados ou não, que com sua presença e ação deram e dão vida a esta Diocese de São José do Rio Preto. Quantos fiéis anônimos, sem registros nos anais da história, ofereceram e oferecem preciosos dons materiais, culturais e espirituais para a vida desta Igreja. Gratidão a Deus que no seu paterno desejo de salvar a todos, permitiu que Nosso Senhor Jesus Cristo fosse anunciado, testemunhado, conhecido, amado, seguido e celebrado pelas pessoas que aqui residiram e residem.

Obrigado aos leigos, Papas, bispos, sacerdotes, religiosas e consagrados que fizeram e fazem parte deste belo mosaico que encanta nossos olhos e acalentam o coração. Quantos milhares de leigos, senão milhões, ao longo destes oitenta e quatro anos, esperaram ou esperam por esta palavra de gratidão: Deus lhes pague, aqui ou acolá, aqui na terra ou lá no céu.

Vivemos o momento do compromisso, da missão em comum. O que somos e temos é fruto da obra e graça de Deus e do esforço de várias gerações que nos transmitiram a fé e nos inseriram na Igreja, Povo de Deus, Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nuvens escuras pairam sobre nossa realidade anunciando tempestade no mundo e na Igreja, que pode trazer males irreparáveis. Há uma crise na transmissão da fé às novas gerações, o que gera uma demanda missionária urgente que contrasta com nossa lentidão em abraçá-la.

O futuro da fé e da Igreja depende do modo como vivemos e assumimos hoje a nossa missão. Não por acaso Jesus Cristo pergunta: "Mas o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar fé sobre a terra?"(Lc 17, 18). As palavras de São Paulo soam grave para nós: “Pois, anunciar o evangelho não é para mim motivo de glória. É antes uma necessidade que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o evangelho!”( 1cor 9, 16).

O desejo de Nosso Senhor Jesus Cristo, expresso aos Apóstolos antes da sua ascensão, é claro e exigente para nós: "Vão pelo mundo inteiro e anunciem o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Aos que crerem será dado o poder de fazer milagres e expulsar demônios pelo poder do meu nome e falar novas línguas; se pegarem em cobras e ou beberem algum veneno, não sofrerão nenhum mal; e, quando puserem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados”(Mc 16, 15-18).

"A esperança é para nós qual âncora da vida, segura e firme"(Hb 6,19). A celebração na fé dos oitenta e cinco anos de nossa Diocese de São José do Rio Preto é expressão de esperança: vamos realizar o desejo de Nosso Senhor Jesus Cristo, fazer com que a salvação chegue a todas as pessoas do nosso tempo e do futuro. Vamos despertar nas pessoas, através do anúncio do Evangelho, a paixão por Nosso Senhor Jesus Cristo, a consciência de serem pecadoras, estimulando a todos a empreenderem o caminho da conversão e da volta para a Igreja, a nossa casa, a casa que Deus deixou para nós.

Celebrando a Santa Missa na Catedral de São José, no dia 25 de janeiro, às vinte horas, acolham meu abraço de gratidão e humildes preces, que brotam do coração de um pecador que continuamente busca a conversão, e a bênção de Deus, sempre pródiga e eficaz, ilumine a sua e a nossa vida. Somos a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo! Somos o Povo de Deus! Somos membros do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo!

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Um jovem, cristão e soldado, chamado Sebastião


Estamos nos primeiros séculos do cristianismo, na Itália. Havia uma perseguição feroz aos cristãos, sobretudo em Roma, que fora evangelizada pelos apóstolos São Pedro e São Paulo, e seus auxiliares, homens que molharam o chão daquela cidade com o seu sangue, sendo um martirizado crucificado, de cabeça para baixo, e o outro tendo a cabeça decepada a fio de espada.

Era proibido ser cristão, não se podia ser amigo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ser cristão era sinônimo de marginalidade. Era uma temeridade ser católico. Professar a fé era causa de morte. O católico era tido como inimigo do Estado, causador de problemas, uma ameaça à segurança das estruturas políticas, econômicas e religiosas estabelecidas.

No norte da Itália havia um jovem soldado que se deixara fazer cristão, recebera o batismo depois de converter-se e colocar-se no seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. O seu nome era Sebastião. Ele tinha boa reputação como militar, era bem considerado entre os companheiros da tropa. Era um exímio profissional.

No coração do jovem soldado Sebastião havia uma tristeza profunda, sentia pesares pelas notícias que chegavam de Roma: seus irmãos cristãos eram perseguidos, presos, maltratados e levados à morte violenta. Ele pensava que poderia estar lá para, como soldado e homem de fé, ajudar na defesa dos cristãos que padeciam pavorosos e terrificantes sofrimentos.

O cristão Sebastião, jovem soldado, não agüentou e se dirigiu para Roma. Queria defender os cristãos, queria sofrer com eles, com eles morrer se preciso fosse para demonstrar o seu apaixonado amor a Nosso Senhor Jesus Cristo. Como militar, nas fileiras do exército romano, Sebastião não escondeu a sua fé, mas testemunhava-a com seu modo de vida, suas palavras e sua defesa intrépida em favor dos cristãos.

O comportamento do jovem Sebastião, cristão e soldado, não agradou a seus superiores hierárquicos, que comunicaram os fatos ao imperador, que deu ordens para que fosse instado a abandonar a fé e deixar de proteger os cristãos. Mas o soldado, jovem cristão, não titubeou nem um instante sequer: Jesus Cristo era seu tesouro, por Ele valeria a pena perder tudo, até a própria vida se preciso fosse para estar com Ele no céu.

Sebastião foi preso, torturado, condenado à morte. Impuseram a ele os mais terríveis tormentos, mas ele não foi um fraco, não renegou a Jesus Cristo e não abandonou a Igreja, que é a de Jesus Cristo, da qual se sentia parte e membro ativo. O seu corpo, em diversas ocasiões, ficou em carne viva, como o de Jesus Cristo durante os seus padecimentos. Ele estava feliz por  sofrer como Jesus Cristo sofrera e disposto a abraçar a morte como Jesus Cristo fez para em tudo realizar a Vontade do Pai.

O jovem soldado Sebastião foi amarrado em uma árvore e flechado várias vezes. A árvore foi a sua cruz, as cordas fizeram o papel dos cravos para prendê-lo, as flechas traspassaram seu jovem corpo, como traspassado foi o corpo de Jesus Cristo pelos cravos que o prenderam na cruz e a lança que feriu seu coração. Ainda exalando o sopro da vida,  ele foi socorrido por uma mulher, dizem que se chamava Irene, que o levou para sua casa e tratou-o com caridade.

Recuperado, Sebastião reapresentou-se ao exército e testemunhou uma vez mais a fé e o amor que tinha por Jesus Cristo e pela sua Igreja. Os comandantes ficaram enfurecidos, o imperador mais ainda, pois pensavam que morto e sepulto já estivesse. Veio então nova ordem, agora ainda mais severa e com ameaças: Sebastião deveria morrer, como deveriam morrer todos os cristãos. Nenhum amigo de Jesus Cristo poderia viver! E assim aconteceu, foi morto o jovem soldado, o cristão Sebastião.

É a vida e o exemplo deste jovem soldado cristão que recordamos no dia vinte de janeiro. São Sebastião é o Padroeiro dos Militares, de todas as forças. Ele é o protetor dos sitiantes, fazendeiros e agricultores, invocado como protetor contra a fome, a peste e a guerra. Somos agradecidos a Deus pela santidade de São Sebastião e pelas graças que Ele nos concede com sua intercessão.

Queridos jovens, aprendamos a amar Nosso Senhor Jesus Cristo com a mesma intensidade de São Sebastião, sem medo, mas corajosamente testemunhando em alto e bom som a nossa fé. Nosso Senhor Jesus Cristo faz bem aos jovens, mostra-lhes o ca
minho da perene e fecunda jovialidade.
Caros Militares, de todos os seguimentos, não tenham receio de seguir o exemplo do padroeiro de vocês: conheçam a Jesus Cristo, amem-no mais do que a tudo, sigam-no como Caminho, Verdade e  Vida. Obrigado a vocês que no desempenho do seu ofício oferecem-nos proteção no dia a dia, Deus os proteja dos perigos e os guarde sempre das falcatruas do inimigo.

Saudamos os fiéis das paróquias confiadas ao patrocínio do glorioso mártir São Sebastião. Sigam o exemplo dele: amem a Nosso Senhor Jesus Cristo e sejam suas testemunhas, ardorosas, com a vida e a palavra, insistentemente, de modo conveniente e inconveniente, até que todos recebam em suas vidas a salvação de Deus.

Viva São Sebastião! Viva os militares! Viva a juventude! Viva os agricultores, fazendeiros, sitiantes e pecuaristas!

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo.



“Depois do batismo de todo aquele povo, Jesus também foi batizado. E, quando Jesus estava orando, o céu se abriu, e o Espírito Santo desceu na forma de uma pomba sobre ele. E do céu veio uma voz, que disse: ‘Tu és o meu Filho querido e me dás muita alegria.’”(Lc 3, 21-22)

No domingo, treze de janeiro, celebramos na liturgia da Igreja Católica Apostólica Romana  a festa do Batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme relato que encontramos no evangelho de São Lucas, capítulo três, versículos dezesseis a vinte e dois. 

São João Batista, ao batizar o povo com água, convida os seus contemporâneos à conversão.Nosso Senhor Jesus Cristo, prestes a iniciar a sua vida pública, isto é, de anunciar e tornar presente o evangelho da salvação, apresenta-se também Ele para ser batizado pelo Batista às margens do rio Jordão. Ele não tinha necessidade de ser batizado, não tinha pecado, não precisava de conversão. 

A humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao apresentar-se a João para ser batizado, cria o momento oportuno para que se explique a natureza do novo batismo a ser introduzido pelo Divino Salvador: “Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo”(Lc 3, 16).

Na ocasião do batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo há um esclarecimento vindo do céu sobre quem Ele é: “Tu és o meu Filho querido e me dás muita alegria”(Lc 3, 22). Isto ocorre após uma manifestação do Divino Espírito Santo: “E, quando Jesus estava orando, o céu se abriu, e o Espírito Santo desceu na forma de uma pomba sobre ele”(Lc 3, 22).

A celebração litúrgica do batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma ocasião propícia para recordar o batismo que recebemos, pois ele nos proporcionou o perdão do pecado das origens, nos fez filhos de Deus e nos integrou na Igreja, Povo de Deus, Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Há uma crescente tendência das famílias a adiar a busca do batismo para os seus filhos recém nascidos, com o argumento de que os mesmos devem escolher recebê-lo ou não quando adultos. Uma das causas desta atitude é a perda da consciência da natureza e do significado do batismo como porta de entrada para a Vida da Graça, isto é a vida nova em Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Não deixamos o filho escolher se quer ou não receber as vacinas, alimentar-se, tomar banho, ir ao médico ou freqüentar a escola. Por serem realidades boas e desejáveis, decidimos por ele, para o seu bem presente e futuro. Devemos batizar as crianças, sim, o quanto antes melhor, sem esperar por um futuro incerto.

Certa vez, atendi um jovem médico no escritório paroquial. Enquanto fazia a  universidade, em Belo Horizonte, a namorada o introduziu na vida cristã, no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que suscitou nele o desejo de ser batizado, pois os seus pais, meus conhecidos e vizinhos, não lhe deram o batismo. O jovem expressou uma interrogação e exclamação: “Padre Tomé, não entendo como os meus pais, que gostam tanto de mim,  privaram-me do batismo, da filiação divina e da pertença à Igreja.” Havia no seu coração ressentimento e mágoa, na sua inteligência a compreensão de uma negligência dos pais.  No dia do seu batismo, primeira Eucaristia e Crisma, em uma só ocasião, os pais estavam em prantos de arrependimento e publicamente pediram perdão ao filho.

Quero saudar os leigos que trabalham na Pastoral do Batismo em nossas paróquias. Com nossos padres, sejam missionários indo ao encontro das famílias propondo-lhes o batismo dos filhos e explicando-lhes a natureza e necessidade do mesmo. 

Não podemos esperar a procura das famílias pelo batismo, é preciso ir ao encontro delas propondo-lhes este sacramento de graça e salvação para os filhos, pois ele é necessário para a salvação e para o bem da vida da pessoa. Uma pastoral do batismo missionária é uma premente urgência na vida pastoral da Igreja: ir buscar nas famílias, conscientizando-as, os batizandos, e   ajudando os adultos já batizados a fazerem o caminho de um “catecumenato pós batismal.”

Seria bom saber a data de seu batismo, recordá-lo festivamente trazendo à memória seus padrinhos e o padre ou diácono que o batizou. Este sacramento está na origem de nossa vida cristã e católica, é determinante para a nossa vida presente e futura.

+ Tomé Ferreira da Silva.
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O QUARTO MAGO

A Igreja Católica Apostólica Romana celebra no dia seis de janeiro a Solenidade da Epifania de Nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, a sua manifestação como Filho de Deus, Salvador, para todos os povos. Três fatos relatados pelos evangelistas se encontram nesta grande festa: a visita dos Sábios ao Menino Jesus em Belém, o Batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo no rio Jordão e as Bodas em Caná da Galiléia.

Distanciando-se da teologia litúrgica, a piedade popular designa esta solenidade de “Festa de Reis”, trazendo à memória a visita dos sábios Gaspar, Balthasar e Melchior ao Menino Jesus,  em Belém. Um seria negro, lembrando os africanos; o segundo, amarelo, representante dos asiáticos; o terceiro, branco como os europeus. Eles são os representantes dos povos até então conhecidos.

Afirma a Sagrada Escritura, no Evangelho de São Mateus, capítulo dois, versículos  um a doze, que os estudiosos das estrelas  vieram de longe, conduzidos por uma estrela singular, para adorar o Menino Jesus, trazendo-lhe presentes: ouro, incenso e mirra.

ELES VIERAM DE LONGE, saíram de lugares diversos, cruzaram montanhas, mares, vales e desertos, pois o Menino Jesus estava situado em Belém, e só lá podia ser encontrado. Hoje Nosso Senhor Jesus Cristo está entre nós e em nós, tão próximo que pode ser tocado. Mas para encontrá-lo precisamos fazer uma longa viagem, a da conversão, abandonando a vida de pecado. Somos chamados a fazer uma viagem interior, ao mais profundo do nosso coração, e uma viagem ao próximo, na construção da dimensão comunitária de nossa fé. Nosso Senhor Jesus Cristo nos espera, sempre está a esperar, para Ele nunca é tarde!

OS SÁBIOS FORAM CONDUZIDOS POR UMA ESTRELA. Nesta viagem ao nosso interior e ao próximo, no desejo de encontrar ou ser encontrado por Nosso Senhor Jesus Cristo, não precisamos mais da luz de uma estrela, pois somos conduzidos pelo Divino Espírito Santo. Não caminhamos no escuro e nem sozinhos. Ele, o Espírito Santo de Deus, que recebemos no batismo e na crisma, que nos foi doado como presente de Jesus Cristo Ressuscitado, nos conduz, é o timoneiro, o guia, o protagonista desta maravilhosa e indescritível viagem ao nosso interior e ao próximo na busca do encontro com o Divino Salvador.

OS MAGOS BUSCARAM INFORMAÇÕES COM HERODES. Nossa fé é razoável, precisamos buscar a sua razoabilidade, com o coração e com a inteligência, pois fé e razão não se contradizem, mas se complementam. Precisamos conhecer Jesus Cristo, mas irmos ao encontro de fontes seguras, aquelas que no-lo apresentam tal como é conservado pela Igreja, Mãe e Mestra. Muitos profissionais da religião deturpam a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, são fontes turvas, não podemos nos aproximar delas, corremos o risco de sermos enganados. Herodes não era um bom informante, pois queria matar o Menino Jesus.

OS PEREGRINOS ENCONTRARAM A SAGRADA FAMÍLIA,  o Menino Jesus, Maria, sua mãe, e São José, esposo da Virgem Maria. A Sagrada Família é endereço certo para encontrarmos a Deus. Ela nos mostra também um caminho divino para as nossas famílias: pai, mãe e filhos. A família é a primeira expressão da dimensão comunitária da fé, é a “Igreja Doméstica”, nela Deus se revela, se torna tangível.

OS SANTOS REIS SE PROSTRARAM E ADORARAM O MENINO JESUS. A adoração é a melhor e mais sublime oração que um ser humano pode fazer a Deus, e o faz somente conduzido e iluminado pelo Espírito Santo. É uma oração silenciosa, mas cheia de gestos da pessoa que se prostra e reconhece a soberania de Deus em sua vida. Sejamos adoradores de Deus, de Nosso Senhor Jesus Cristo, em espírito e verdade, sempre e em toda parte.

GASPAR, BALTHASAR E MELCHIOR OFERECEM PRESENTES AO MENINO JESUS: ouro, pois Ele é Rei; mirra, pois assumiu a nossa humanidade; incenso, pois é Deus, com e como o Pai e o Espírito Santo. O presente que Deus espera de nós é uma vida de amor, em resposta ao seu amor por nós. Somos chamados a fazer de nossa existência uma oferenda agradável a Deus.

Na nossa Diocese de São José do Rio Preto temos capelas, e até Igreja, dedicadas aos Santos Reis. É preciso resgatar, preservar e ajudar esta expressão da piedade popular a ser, como sempre foi, um modo vivo e alegre de oração, manifestação genuinamente religiosa e não folclórica e cultural.

Em nossas igrejas, comunidades e famílias, os ternos, grupos ou companhia de Reis devem ser acolhidos, ajudados e orientados a se tornarem adoradores de Nosso Senhor  Jesus Cristo, agora vivo e ressuscitado presente entre e em nós.

Nenhuma Folia de Reis deve estar fora do contexto da Igreja e da paróquia, pois o que realizam é um ato religioso e de fé, abençoado e querido por Deus, e encontram na comunhão com a Igreja o seu lugar próprio e conveniente para a sua mais legítima expressão.

Há um filme intitulado “O Quarto Sábio”, ou “O Quarto Mago”, é uma estória narrada com beleza e simplicidade, que revela um imaginário quarto peregrino, que fica na estrada, pois detinha-se a ajudar os outros, com o presente que trazia, chegando a Jerusalém trinta e três anos depois do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo,no momento de sua morte. É comovente, emocionante.

O quarto sábio pode ser eu, você, ou qualquer outro. Depende de mim, de você, ou de quem o desejar. Vale a pena ver o filme, tenho certeza que vai gostar.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto.

HOMILIA NA MISSA DE ABERTURA DO CAPÍTULO PROVINCIAL DAS IRMÃS PAULINAS, 03/01/13


Na celebração da Santa Missa, momento antes da Comunhão Eucarística, o sacerdote levanta o Corpo de Cristo e, após breve introdução, variável, aclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.”(Jo 1, 29).

Esta aclamação foi criada por São João Batista para apresentar Nosso Senhor Jesus Cristo aos seus contemporâneos, como ouvimos no evangelho proclamado na Liturgia da Palavra desta Santa Missa que estamos celebrando.

No início do nosso Capítulo Provincial, nos colocamos na escuta da Palavra de Deus, nos alimentamos da Eucaristia, nos abrimos à inspiração do Espírito Santo, emoldurados e sustentados pela vida e ação da Igreja.

É como expressão e parte constitutiva da Igreja, Mãe e Mestra, Povo de Deus, Corpo Místico de Cristo, que realizamos nosso Capítulo Provincial. É ela, a Igreja, que nos sustenta e emoldura nossa vida e ação enquanto Congregação Religiosa; aqui, moldura e tela se confundem, se encontram, não sendo possível distinguir muito bem onde começa uma e termina outra,  o conjunto é uma só obra de arte, fruto da ação única, porém multiforme do Divino Espírito Santo.

A Igreja nos recorda que nosso Capítulo Provincial se inicia no contexto do Tempo do Natal, no ano da Fé, convocado por Sua Santidade o Papa Bento XVI, durante a Jornada Mundial da Juventude, pois ela já acontece de fato, aqui e acolá, cujo encerramento será no Rio de Janeiro, na segunda quinzena de julho próximo.

EVANGELHO:

O texto proclamado no Evangelho de hoje é altamente teológico. Por trás da simplicidade do fato e de seu relato há uma singela, porém profunda teologia, quase uma sinopse do Mistério da Salvação.

A aclamação de São João Batista, diante da proximidade física de Nosso Senhor Jesus Cristo, é estonteante: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” Quanta realidade veterotestamentária, com novo significado, está presente na expressão “cordeiro de Deus”; basta lembrar o êxodo e a liturgia subseqüente.

São João Batista não fala dos pecados, mas “o pecado do mundo”. De que se trata este pecado do mundo? Que relação ele tem com os pecados que cometemos, com os pecados sociais e com os pecados estruturais?

Num segundo momento, João dá humilde e comovente demonstração de conhecer a sua missão:

“Depois de mim, vem um homem que passou adiante de mim porque existia antes de mim.” São João Batista parece reconhecer a eternidade do Verbo, sua coexistência com o Pai e o Espírito Santo.

“Eu não o conhecia, mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim batizar com água.” Interessante, João, o Batista, não conhecia Jesus Cristo? Como pensar então a visita de Nossa Senhora a sua parenta Isabel? Durante o crescimento e juventude, os dois jamais teriam se encontrado?

São João Batista tem consciência do efeito simbólico de seu batismo, com água, de conversão, um propedêutico ao batismo no Espírito Santo!

No entanto, desconcertante é a conclusão do fato e do relato: “E eu vi e atesto que ele é o Filho de Deus”.  Eu vi e atesto. Ele é o Filho de Deus. Que força nestas palavras! Que convicção! “Eu vi e atesto que ele é o Filho de Deus.”

Afinal, o que viu João? “Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre ele.”

Ao mesmo tempo, volta a questão do conhecimento entre João e Jesus: “Eu não o conhecia...”. Ele então apela para uma testemunha mais que qualificada: “Aquele que me enviou para batizar com água, disse-me: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é que batiza no Espírito Santo.’”

São João Batista tem consciência de que sua missão é um mandato divino, de Deus Pai, que o encarrega de apontar o Salvador, o Filho Jesus Cristo, com a assinatura ou o testemunho da pessoa do Espírito Santo.

O fato e o relato são altamente cristológicos e soteriológicos, tudo é direcionado para a salvação que Deus Pai oferece a nós filhos rebeldes, intransigentes e pecadores. A que ponto chega o amor de Deus! A que ponto chega o amor de Deus!

A história do amor de Deus é um drama, com muitos capítulos, um drama de amor e de paixão pela humanidade.

PRIMEIRA LEITURA: 

Há uma perfeita sincronia entre o conteúdo da Primeira Leitura, da Primeira Carta de São João, e o Evangelho.

Nosso Senhor Jesus Cristo é apresentado como o Justo, sinônimo de Santo, fonte de nossa justificação, de nossa santificação: “aquele que pratica a justiça nasce dele”.

São João, o Discípulo Amado, é sempre bom recordar, mostra a nossa filiação divina como conseqüência do amor de Deus: “Vede que prova de amor nos deu o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos .”

Nossa filiação divina nos faz diferentes, estranhos ao mundo: “Eis por que o mundo não nos conhece; porque não o conheceu.” O mundo não conheceu a quem? O Pai? O Filho? O Pai no Filho?

Num terceiro momento, o Discípulo Amado afirma que mesmo sendo filhos de Deus ainda não nos é claro o nosso futuro, o que seremos. Que futuro é este? O dia da manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo glorificado pela cruz e ressurreição, a parusia, no fim dos tempos, tema tão presente na primeira parte do nosso advento.

E o que nos aguarda? O que teremos? O que seremos? “Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é.” Semelhantes, sem dúvida, a Cristo glorificado.

Esta espera abre espaço para a esperança. E a esperança suscita o desejo da purificação, do perdão dos pecados, que ocorre n’Ele, em Nosso Senhor Jesus Cristo, pois Ele é puro.

São João Evangelista continua sua catequese mostrando que pecado e iniqüidade andam juntos, se identificam: “Todo o que comete pecado comete também a iniqüidade, porque o pecado é a iniqüidade.”

A conclusão é esplêndida, como a suma de um exímio professor: “Sabeis que ele se manifestou para tirar os pecados e nele não há pecado. Todo aquele que permanece nele não peca. Todo aquele que peca não o viu nem o conheceu.” Nestes dois últimos versículos encontramos, se isto é possível, a síntese da Liturgia da Palavra que celebramos.


DESENVOLVIMENTO:

Tudo nos direciona para Nosso Senhor Jesus Cristo: o Tempo do Natal, o Ano da fé, a Jornada Mundial da Juventude. Ele é o centro, a razão de ser de nossa fé batismal, de nossa vida de consagrados: tudo n’Ele, para Ele, com Ele, por Ele. O encontro pessoal com Ele, tão insistente na Conferência de Aparecida, é fundamental, e só ele sustenta a paixão contínua da vida cristã e consagrada, pois este encontro não aconteceu, mas acontece, um capítulo por dia, como uma história dramática de amor. É isto o que nos mostra São João, o Batista, e o Discípulo Amado, o Apóstolo e Evangelista. Que lugar Nosso Senhor Jesus Cristo ocupa e ocupará em nosso Capítulo Provincial? É justo falar de lugar para Ele? São contradições de nossa limitada linguagem.

Eu creio, afirmo, clamo, testemunho como São João Batista: “E eu vi e atesto que ele é o Filho de Deus”!? Afirmamos isso também como Congregação Religiosa?

Por outro lado, vivemos o drama da vida cristã: o já e o ainda não. Somos filhos de Deus, mas aguardamos a plenitude. Enquanto isso, nossa vida se desenvolve em meio aos pecados. Somos pecadores. Todos: Eu! Vocês! Ainda que você não queira, ou não admita: somos pecadores. Pecadores convertidos, pecadores em conversão, eis a nossa dignidade! A partir desta comunhão no pecado, menos abrangente que a comunhão dos santos, somos chamados a reconhecer o nosso lugar, humildemente, talvez como o Batista diante de Jesus Cristo. Como participante, delegada, neste capítulo, tenho consciência de minha condição, ou me sinto onipotente?

O sentimento da humildade nos abre para acolher o Espírito Santo, o artífice da vida nova, da vida renovada em Nosso Senhor Jesus Cristo, a brisa renovadora e responsável pela jovialidade da Igreja. Atentos aos sinais dos tempos, como estamos, neste prenúncio capitular: abertos e disponíveis para ouvir os clamores do Espírito Santo, escutá-los e traduzi-los em orientações para nossas comunidades? Temos consciência que Ele é o protagonista da Igreja e, consequentemente,  também de nosso Capítulo Provincial?

A esperança, fruto da fissura provocada em nós pelo pecado, e suas consequências, nos acompanha e acompanhará sempre. Ela retira o nosso olhar do aqui e do agora, alarga o horizonte do nosso olhar, inteligência, vontade e coração. Ela nos eleva, faz transcender, nos faz alçar vôo de águia. O que esperamos com o nosso capítulo? Qual a esperança das esperanças que não decepciona? O que nossas irmãs, que ficaram, esperam de nós e de nossos trabalhos! Trabalhemos pelo alimento que não se perde!

CONCLUSÃO: 

Queridas Irmãs, permitam-me este adjetivo. Acho que posso usá-lo pois acompanho-as à distância, como convém, aquela distância amiga e respeitosa, mas ao mesmo tempo próxima e de cumplicidade.

As senhoras carregam um belo carisma colocado em suas mãos pelo fundador, o Beato Tiago Alberione, que o recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo e o viveu na força do Espírito Santo.

Para as operárias da comunicação, num mundo descrente e relativista, nada mais imperioso do que anunciar e testemunhar Jesus Cristo, com a escrita, a palavra e as imagens, com toda força, por sobre os telhados, olha aqui o mundo virtual como instrumento, de modo conveniente e até inconveniente, isto é, até mesmo a incomodar as pessoas.

A fé chega pelos ouvidos, diríamos hoje, também pelo olhar. E se não tivermos operárias da comunicação de Jesus Cristo e de seu evangelho de salvação, como as pessoas o conhecerão? Se não o conhecem, como poderão amá-lo? E se não amarem-no, como poderão seguí-lo? E se não o seguem, como poderão se salvar? Como soa oportuna a palavra do Apóstolo São Paulo, que tanto lhes é caro: “Ai de mim se não evangelizar!”

Que Nossa Senhora, Mãe de Deus, nossa Mãe, nos acompanhe neste capítulo provincial e nos assista com sua terna e materna proteção.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP.