sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Não é questão de terminologia


As palavras evoluem, adquirem novos sentidos, são polissêmicas. Muitas palavras são analógicas, identificam realidades diferentes, mas que possuem algo em comum. É o caso da palavra família. Ao longo da história ela identificou realidades diferentes, como hoje, quando encontramos uma diversidade de nucleação de pessoas, todas denominadas de família.

Há tempos atrás se falava que os jovens paqueravam, namoravam, casavam e constituíam família. De alguns anos para cá, a paquera e o namoro assumiram novas roupagens e foram identificados com a expressão “to ficando”. Nas redes sociais, na página do perfil, a pessoa coloca alguns elementos para que seja identificada, na grande maioria aparece a expressão “ estou em um relacionamento sério”.

O que é um “relacionamento sério?" Seria o namoro, o noivado, o casamento, o estar ficando, estar morando juntos, uma “amizade colorida”, estar tendo uma vida sexual ativa, mesmo sem o casamento civil e ou religioso? Não é apenas uma questão de terminologia, mas ocorre de fato uma nova compreensão da família e do modo de preparar-se para a sua formação.

O Cristianismo, no seguimento dos passos e do ensinamento de Jesus Cristo, compreende a família humana como realidade sagrada que, em última instância, sinaliza no mundo a vida da Santíssima Trindade, bem como a relação de amor entre Deus e a pessoa humana, que tem o seu ponto máximo no Mistério da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo. A natureza da família não é uma construção histórica, mas é dom de  Deus.

Veja o ensino de Jesus Cristo: “Nunca lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois formarão uma só carne? De modo que eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe”(Mt 19, 3-6). Na compreensão de Jesus Cristo, dois elementos fazem parte do casamento: unidade no amor e indissolubilidade. É dentro deste contexto que deveriam nascer os filhos.

A vida em família é uma vocação. E como vocação, a família pode não ser compreendida e vivida ao modo de Jesus Cristo por todos, pois pressupõe a vida de fé: conhecimento, amor e seguimento a Ele e ao que nos ensinou e deixou nos sacramentos. Se aplica também à vida em família a sua palavra: “Nem todos são capazes de entender isso, mas só aqueles a quem é concedido”(Mt 19, 11).

A proposta da vida em família Deus a oferece a todos. Mas nem todos podem acolhê-la, pois não a conhecem e não a experimentaram seja na infância ou na juventude. Há uma premente necessidade de ajudar as crianças, adolescentes e jovens na compreensão da natureza da família e a darem os passos adequados para a sua formação que, apesar da antiguidade dos nomes, continuam sendo a paquera, o namoro, o noivado e o casamento, este civil e religioso.

As novas terminologias não designam realidades sinônimas da família cristã. Não é só mudança de termos, mas elas carregam consigo a proposição de outros paradigmas familiares.
No encerramento da Semana da Família, somos convidados a tornar pública, numa ação missionária ininterrupta, a família cristã como paradigma, referência, para nossas crianças, adolescentes e jovens. Este é um pressuposto para que tenhamos famílias que sejam de fato “Igreja Doméstica”, concepção teológica esquecida hoje da própria teologia e da ação pastoral.

Somente na família como Igreja Doméstica pode ocorrer a primeira experiência de transmissão e vida comunitária da fé, antes que seja tarde, núcleo basilar para compreender o Povo de Deus, o Corpo Místico de Cristo e a paróquia como comunidade de comunidades. Do contrário, estaremos construindo sem bases sólidas, construção que não resiste aos tempos neomodernos.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Auxiliar de São Paulo.

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