sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Fé e superstição


Nada melhor do que compreender o sentido das duas palavras que dão título ao nosso texto. O dicionário “Aurélio” oferece as seguintes definições:  é “adesão e anuência pessoal a Deus, seus desígnios e manifestações”; superstição é “sentimento religioso baseado no temor ou na ignorância, e que induz ao conhecimento de falsos deveres, ao receio de coisas fantásticas e à confiança em coisas ineficazes”.

Entre a e a superstição encontra-se um longo caminho. A superstição pode ser, em alguns casos, uma forma  de degeneração natural da . A superstição é multiforme, tem uma ampla tipologia, nem sempre de natureza estritamente religiosa, podendo ser manifestação de fundo cultural, folclórico, moral ou de hábitos praticados por longo tempo e passados de geração em geração, sem muita razoabilidade, mas fundado em uma crença de natureza não muito bem definida.

Corre-se o risco de adjetivar injustamente algumas práticas religiosas, no caso do catolicismo, expressões da piedade popular, como supersticiosas. Fazer o sinal da cruz em diversas circunstâncias, repetir uma jaculatória em ocasiões específicas, cumprir um determinado ritual diante de uma necessidade, fazer reverência diante de uma imagem sagrada, carregar consigo um objeto devocional, entre outros, não pode ser considerado uma superstição pura e simplesmente.

A é sempre um mistério, impossível de ser abarcada absolutamente pelo humano. Ela  ultrapassa o homem e suas faculdades, embora seja sempre razoável e compreensível pela inteligência, mas esta não pode dissecá-la completamente, colocando-a a seu serviço, manipulando-a. A sempre nos transcende, eleva-nos consigo, introduzindo-nos no mistério. A natureza transcendente da torna-a inesgotável ao humano, na sua acessibilidade, compreensão e expressão simbólica.

O discurso da será sempre simbólico e precisará manifestar-se de múltiplos modos. A compreensão e a expressão da poderão sofrer um processo de degeneração natural, fruto das adaptações necessárias para atingir as pessoas em seus mais diversos estados sociais e culturais. Traduzir o inefável em linguagem humana e torná-lo compreensível, pode implicar reduções e desvios. Em outras palavras, a é unívoca, mas a sua compreensão e expressão são equívocas, fonte dos diversos reducionismos possíveis. A equivocidade não pertence à , mas ao modo como a compreendemos e expressamos.

A superstição de índole religiosa poderá ser conseqüência do que dissemos acima. Mas não podemos confundir manifestações da piedade popular, justas formas de aproximação e expressão do sagrado, como sendo supersticiosas e nocivas à vida cristã do fiel. Estas manifestações asseguraram e asseguram a , e sua transmissão, a muitas gerações de pessoas, também entre nós, no Brasil e em São Paulo.

A razoabilidade da expressa na linguagem teológica, litúrgica e moral, nem sempre é acessível às pessoas, seja pelo analfabetismo funcional, fruto de uma situação social, ou porque elas não foram objeto do trabalho pastoral das diversas instâncias eclesiais que não lhe ofereceram uma oportunidade de sólida iniciação à vida cristã e educação da ,  recebida no batismo, no caso da Igreja Católica Apostólica Romana.

A dos simples, e as suas diversas manifestações, é uma preciosidade a ser devidamente cultivada e burilada, mas não um mal a ser extirpado. É triste verificar, em muitos casos, que uma pseudo-educação da tem levado muitas pessoas  a perderem a simplicidade, a beleza e o vigor da na inspiração do viver do fiel, comprometendo a sua vida e presença cristã na sociedade e na Igreja.

Um iluminismo religioso, legitimado em nome de uma ação pastoral para suprimir a ignorância religiosa, pode acarretar conseqüências nefastas, mais afastando do que aproximando as pessoas da vida de . Informar por informar não conduz ao mistério, razão de ser da vida de . Na vida de , razoabilidade não é sinônimo de racionalismo.


+ Tomé Ferreira da Silva

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