sexta-feira, 27 de julho de 2012

"A Obra de Deus é para que acrediteis naquele que me enviou" Jo 6, 29


A experiência cotidiana de viver à luz da fé é mais próxima de um drama, nunca uma comédia, um romance, um documentário, um suspense, um terror ou uma tragédia. Um drama onde estão envolvidos diversos atores e onde não sou o ator principal, mas um coadjuvante singular, e nunca estou entre os figurantes. Também não sou o produtor e nem o diretor, mas minhas decisões, como coadjuvante insubstituível, determinam a alteração do rumo da trama.

O drama da experiência da vida de fé pode ser detectado em todos os tempos da história da salvação, seja na antiga ou na nova aliança. O evangelho selecionado para o domingo 05 de agosto relata uma experiência concreta da dramaticidade da fé vivida pela multidão e discípulos que seguiam Jesus Cristo.

À multidão que o seguia, depois da multiplicação dos pães, Jesus Cristo diz: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos. Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará. Pois este é quem o Pai marcou com seu selo.”(Jo 6, 26s)

Há uma singularidade única da pessoa de Jesus Cristo: “Este é quem o Pai marcou com seu selo.” Por isso, diante da pergunta da multidão “Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” (Jo 6, 28), Jesus Cristo responde: “A obra de Deus é que acrediteis naquele que Ele enviou”(Jo 6, 29).

É diante da pessoa de Jesus Cristo que definimos e construímos a nossa vida de fé. Nesta construção, contamos com o protagonismo e a antecedência da ação da pessoa do Divino Espírito Santo. O ato de fé em Jesus Cristo é sempre um ato divino e humano, suscitado pelo próprio Deus e resposta da pessoa humana singular, ainda que esteja condicionado pelo contexto social e eclesial.

Nossa vida de fé em Jesus Cristo será sempre constituída por atos condicionados pelo espaço e pelo tempo, somos pessoas inseridas no mundo e na história, caminhamos na esperança. Será uma rede de atos interligados, autoimplicantes e comunicantes entre si, embora nem sempre percebidos desta forma, mas a conexão entre eles é sempre assegurada pela ação do próprio Deus na pessoa do Divino Espírito Santo, o que talvez só perceberemos ao término da peregrinação ou em momentos determinados de revisão de vida e determinação de novos horizontes.

Não tem como a vida de fé em Jesus Cristo não ser dramática, diante da opacidade da vida pessoal, do mundo, da história e da Igreja, todos marcados, de algum modo, pelas conseqüências dos  pecados que ainda realizamos. A vida de fé não é diáfana, transparente, objetiva, não se desenvolve linearmente, sempre em linha reta sem percalços na sua trajetória. Ela é muito mais exigente e empenhativa do que pensamos e imaginamos, e assim também era para os contemporâneos de Jesus Cristo.

É fundamental para o início, o desenvolvimento e a consolidação de nossa vida de fé o conhecimento, o amor e o seguimento a Jesus Cristo, o Filho de Deus Salvador, em quem colocamos a nossa confiança.
A centralidade de nossa missão no mundo e na história é dar a conhecer a Jesus Cristo às pessoas com quem convivemos, nos mais diversos ambientes em que desenvolvemos a nossa vida, seja na família, na escola, no trabalho, na rua, no prédio, no clube, na balada, na praia ou no campo.

Para que as pessoas conheçam Jesus Cristo, é preciso que as conduzamos  a Ele, pois será Ele próprio a apresentar-se a elas. Neste processo seremos apenas facilitadores, introdutores, novamente coadjuvantes, testemunhas. Os meios para realizarmos isso, encontraremos através de nossa criatividade, sem dúvida.

Estimulantes são estas palavras de São Paulo: “O Espírito vem em socorro de nossa fraqueza”(Rm 8,26). “É Deus que nos confirma, a nós e a vós, em nossa adesão a Cristo, como também é Deus que nos ungiu. Foi ele que nos marcou com o seu selo e nos adiantou como sinal o Espírito derramado em nossos corações”(2 Cor 1, 21s). “A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”(Rm 5, 5).


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo

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