quarta-feira, 28 de março de 2012

Jesus Cristo desceu aos infernos


A Semana Santa é de uma riqueza espiritual indizível. O Mistério celebrado no Tríduo Pascal é o âmago de nossa vida de fé: Jesus Cristo glorificado pela cruz e ressurreição para a nossa salvação. Convido-o à reflexão sobre um elemento um pouco esquecido, porém não menos importante: o silêncio sagrado, que começa na tarde de sexta-feira santa e se prolonga no sábado santo, até a Vigília Pascal.

“Um grande silêncio reina hoje na terra, um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei dorme. A terra tremeu e acalmou-se porque Deus adormeceu na carne e foi acordar os que dormiam desde séculos (...). Ele vai procurar Adão, nosso primeiro Pai, como uma ovelha perdida.Quer ir visitar todos os que se assentaram nas trevas e à sombra da morte. Vai libertar de suas dores aqueles dos quais é filho e para os quais é Deus. Adão acorrentado e Eva cativa. ‘Eu sou teu Deus, e por causa de ti me tornei teu filho. Levanta-te, tu que dormes, pois não te criei para que fiques prisioneiro do Inferno. Levanta-te dentre os mortos, eu sou a Vida dos mortos’”(Antiga Homilia para o Sábado Santo).

As realidades da fé são transmitidas em linguagem humana, com seus limites e potencialidades. A terra onde habitamos era compreendida como um disco. Sobre ele, no alto, encontra-se a abóbada celeste, onde Deus reina sobre os vivos. Em baixo, o mundo subterrâneo, os infernos, onde reina a morte sobre os falecidos. Na Profissão de Fé, afirmamos que Jesus Cristo desceu à mansão dos mortos, ou infernos, após a sua morte. Os infernos não devem ser confundidos com o inferno em que os condenados estão para sempre separados de Deus.

Antes da morte de Jesus Cristo, homens e mulheres viveram no mundo e na história e morreram. Alguns não conheceram a Deus ou viveram contra Ele. Outros amaram a Deus tanto quanto lhes foi possível: Adão e Eva, Abraão, Moisés, Sara, Rebeca, Miriam, Davi, Salomão, Elias, Amós, Zacarias, Isabel, Simeão, Ana, João Batista, e tantos outros cujo nome e amor são conhecidos somente por Deus. A estes, Jesus Cristo, após a sua morte, foi levar a Boa Nova da Salvação, resgatando-os da morte para a vida. “O Cristo morto, em sua alma unida à sua pessoa divina, desceu à mansão dos mortos. Abriu as portas do céu aos justos que o haviam precedido”(CIC 637).

Jesus Cristo, descendo aos infernos, conheceu a morte como todos os seres humanos; com a sua alma, esteve com eles na morada dos mortos. Para lá foi como Salvador, proclamando a boa notícia aos espíritos que ali estavam aprisionados (cf 1Pe3,18s). Jesus Cristo não desceu aos infernos para libertar os condenados ou para destruir o inferno da condenação, mas para libertar os justos que o haviam precedido. A Boa Nova foi anunciada também aos mortos (cf 1Pe 4,6).

Jesus Cristo desce às profundezas da morte a fim de que os mortos ouçam a voz do Filho do Homem e os que a ouvirem vivam (cf Jo5,25).  Ele, o Príncipe da Vida (cf At3,15), destruiu pela sua morte o dominador da morte, o diabo, libertando os que passaram a vida em estado de servidão, pelo temor da morte (cf Hb2,14s).

O silêncio do sábado santo nos ajuda a compreender a universalidade da Salvação trazida por Jesus Cristo para todos, também para aqueles que antes dele viveram. Como Deus é bom, e não esquece de nenhum de seus filhos. Vivamos bem, talvez de outro modo, o silêncio do sábado santo. Santa e feliz Páscoa! Jesus Cristo Ressuscitado ilumine a nossa vida! Aleluia! Aleluia! Aleluia!

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Auxiliar de São Paulo.

Um comentário:

  1. Dom Tome, esta condicao de morte fora do inferno (negacao definitiva a Deus) e fora da salvacao ainda existe apos a paixao e ressurreicao de Nosso Senhor Jesus Cristo?

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