terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Missa da abertura da Campanha da Fraternidade 2012 - Arquidiocese de São Paulo / Região Episcopal Ipiranga


INTRODUÇÃO
Ecoa na  memória o colorido, o som e os passos do carnaval; para uns evocando saudade, para outros alívio. Sem anunciar-se, embora  esperada, a quarta-feira de cinzas sinalizou o fim da folia, persistente, à revelia, em alguns lugares.

A quaresma deve ser uma ruptura no modo de viver o tempo,  propõe uma ruptura na vida. Está em tempo de falar da quaresma, de propô-la e repropô-la como propedêutico do Tríduo Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo; um kairós, tempo dado por Deus para nossa conversão, pois eu sou, tu és, nós somos pecadores.

Que bom, como membros da Arquidiocese de São Paulo, na Região Episcopal Ipiranga,  nos encontrarmos na Paróquia - Santuário São Judas Tadeu que, de algum modo, é  um reflexo da cidade de São Paulo na diversidade, pluralidade e  acolhida aos fiéis provenientes de todos os lugares.

Unidos à Igreja Católica Apostólica Romana, no Brasil, em sintonia com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, como fiéis desta plural e bela Arquidiocese de São Paulo, queremos marcar o início oficioso da 48ª Campanha da Fraternidade, com o tema “Fraternidade e Saúde Pública”, e o lema “Que a saúde se difunda sobre a terra”(Eclo 38,8).


EVANGELHO
A proclamação de dois versículos, quatorze e quinze, do nono capítulo do Evangelho de São Mateus, coloca-nos diante de  uma riqueza temática extraordinária, unindo na resposta a uma pergunta dos discípulos de João, o Batista, a pessoa de Jesus Cristo- esposo, o mistério de sua Cruz e a realidade do jejum.

A prática do jejum parece tão antiga quanto a humanidade, sempre presente nas grandes religiões. Era recomendada pelo judaísmo, e por seu intermédio foi assimilada pelos discípulos do Batista, que assumiram, a seu modo, a austeridade do mestre.

Na pergunta dos austeros discípulos de João, “Por que razão nós e os fariseus jejuamos, enquanto os teus discípulos não jejuam? ”, parece estar escondido um  estranhamento ao comportamento habitual de Jesus Cristo e de seus discípulos, que se sentiam livres das prescrições do judaísmo, diante da liberdade dos novos filhos e filhas de Deus, inaugurada pelo próprio Divino Salvador.

A pergunta foi uma ocasião propícia para Jesus Cristo revelar-se. Eis a sua resposta:  “Por acaso podem os amigos do noivo estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão, quando o noivo lhes será tirado; então, sim, jejuarão.”

Na resposta que brota dos lábios de Jesus Cristo, várias realidades teológicas: Ele é o esposo no novo Povo de Deus, prolongando o tema profético de “Deus esposo de Israel”(Jo 3, 29, Mt 22, 2, Ap 19, 7.9); anuncia o mistério da Cruz que o aguarda, prospecta o tempo escatológico da Igreja, colocando-a no horizonte da parusia.

REFLEXÃO
Você, eu, nós formamos a Igreja. Estamos no tempo escatológico, intermédio entre a ascensão de Jesus Cristo e o seu retorno glorioso, no fim dos tempos, a parusia, que aguardamos na fé e na esperança.

Iluminados pela fé e esperança na parusia, clamamos continuamente: Maranathá! Vem Senhor Jesus! É o que rezamos continuamente após a consagração das espécies eucarísticas, durante a missa: “Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda!” Ou ainda: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”

O jejum não é apenas um sinal de purificação interior ou expressão de um desejo de conversão. É também um sinal escatológico que aponta para a glória de Jesus Cristo, da sua Igreja e do mundo que virá.

“O jejum torna-se, então, expressão de tristeza pela separação do esposo e privação de sua presença física, meio para ter o coração livre de vaidades que o impedem de ser disponível aos apelos de Deus, participação nos sofrimentos dos irmãos, nos quais perdura o sofrimento de Cristo”.

O jejum que nos é proposto pela quaresma tem uma dimensão essencialmente eclesial, “está ligado aos dias que a Igreja na terra dedica à espera e à preparação”. É um brado de esperança diante da promessa da volta de Jesus Cristo, “quando será então possível gozar plenamente dos bens criados”.

Alguns, por conta e responsabilidade própria, mas não em nome da Igreja, relativizam as práticas penitenciais e assim, também o jejum. Eles problematizam a distinção entre o tempo da presença física de Jesus Cristo e o tempo posterior à sua ressurreição. A fé na ressurreição assegura a presença perene de Jesus Cristo entre os seus, de acordo com sua promessa. Assim, segundo estes, o tempo novo inaugurado por Jesus Cristo é de alegria e salvação, sem necessidade de ficar triste, de práticas penitenciais e sem espera. Entre a audácia dos pseudo-teólogos, e a prudência da Igreja, Mãe e Mestra, é preferível confiar nela.

A leitura que ouvimos do profeta Isaías  faz pensar no risco da inautenticidade do jejum, quando não há coerência entre convicção e comportamento, quando não nasce do coração, mas fica formalizado externamente no cumprimento do preceito, não tornando-se  expressão de amor a Deus presente nos irmãos empobrecidos.

“Jejum, penitência e oração são destituídos de valor e de sentido se não forem vivificados pela caridade e acompanhados das obras de justiça. O jejum agradável a Deus consiste em libertar-se do egoísmo e prestar alívio e ajuda ao próximo.”

A prática da caridade está numa relação umbilical com o jejum. O foco da vida cristã não é o jejum, mas volta-se para a caridade, sempre importante e agradável a Deus. Na quaresma, o jejum ajuda a apaziguar as paixões do coração para torná-lo próximo dos irmãos através da caridade.



CONCLUSÃO
Os versículos sete e oito da primeira leitura do Profeta Isaías nos remetem à Campanha da Fraternidade deste ano. Eles dizem que  se repartimos o pão com o faminto, se praticamos a hospitalidade, se vestimos o nu, a nossa “luz brilhará como a aurora e a nossa saúde há de recuperar-se mais depressa.” Invocaremos a Deus e ele prestamente responderá: “Eis-me aqui!”

Na mensagem que nos dirige, o Papa Bento XVI sintetiza o objetivo da Campanha da Fraternidade: “Suscitar, a partir de uma reflexão sobre a realidade da saúde no Brasil, um maior espírito fraterno e comunitário na atenção aos enfermos e levar a sociedade a garantir a mais pessoas o direito de ter acesso aos meios necessários para uma vida saudável”.

O lema bíblico “Que a saúde se difunda sobre a terra” recorda que “a cura perfeita é o perdão dos pecados, e a saúde por excelência é a da alma, pois que ‘adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua alma?’(Mt 16, 26).”

Lembrando a palavra de Jesus Cristo “Eu estava doente e cuidaste de mim”(Mt 25,36), “segundo o verdadeiro espírito quaresmal, possa esta Campanha da Fraternidade inspirar no coração dos fiéis e das pessoas de boa vontade uma solidariedade cada vez mais profunda para com os enfermos, tantas vezes sofrendo mais pela solidão e abandono do que pela doença”.

Não nos esqueçamos que “se por um lado, a doença é prova dolorosa, por outro, pode ser, na união com Cristo crucificado e ressuscitado, uma participação no mistério do sofrimento d’Ele para a salvação do mundo. Pois, ‘oferecendo o nosso sofrimento a Deus por meio de Cristo, nós podemos colaborar na vitória do bem sobre o mal, porque Deus torna fecunda a nossa oferta, o nosso ato de amor’”.

Que Nossa Senhora da Saúde, titular da igreja mais antiga e bela desta Região Episcopal, nos ajude a viver bem este tempo da quaresma e a Campanha da Fraternidade.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo

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