terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Fé e Razão - Entrevista concedida ao Jornal São Judas


  1. Fé ou Razão?
Não é possível acolher a questão, fé ou razão, como está, pressupondo uma mútua exclusão, como se a pessoa devesse escolher entre uma ou outra.

A razão faz parte constitutiva da pessoa humana, da sua identidade enquanto tal, é algo recebido do Criador. A fé, por sua vez, é dom de Deus, situa-se no plano da Revelação, que tem o seu ponto alto na pessoa de Jesus Cristo.

Não há oposição ou exclusão entre fé e razão, mas distinção. Por isso, a questão não é escolher uma em detrimento da outra. Ambas são recebidas, passíveis de interação, necessárias na busca da Verdade. Elas são complementares na vida humana.

O Papa João Paulo II afirmou na Carta Apostólica “Fides et Ratio”, no parágrafo introdutório: “A Fé e a Razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio.”

A perene filosofia medieval nos ensinou que é preciso crer para entender e  entender para crer. A fé é “razoável”, transforma a razão, também ofuscada pelo pecado, permitindo a sua abertura para a transcendência.  A razão, por sua vez, é precioso auxílio para a explicitação da  fé, permitindo a sua compreensão através das categorias da inteligência humana, possibilitando a sua transmissão através da pregação e permitindo-nos justificá-la diante daqueles que  pedem explicações.


  1. É possível hoje o homem moderno crescer na fé, fazendo parte de um mundo altamente tecnológico onde Deus ( o transcendente ) parece irrelevante?

A tecnologia é um produto cultural, fruto da ação humana, que procura  trazer para a vida cotidiana os resultados obtidos pela ciência especulativa. È uma forma encontrada para proporcionar à pessoa usufruir do conhecimento, colocando à sua disposição a própria natureza. É a tradução dos princípios teóricos científicos em esquemas e estruturas que podem ser manipuladas. A tecnologia é fruto da aplicabilidade da ciência na busca da satisfação das necessidades humanas, é o resultado do conhecimento colocado a serviço da qualidade de vida.

A tecnologia é tão antiga quanto o homem. O uso do fogo, a criação da roda, a construção do arco e da flecha, são conquistas tecnológicas. A partir do renascimento, com o desenvolvimento do conhecimento, também a tecnologia desenvolve-se mais rápida e intensamente, o que continua acontecendo até os nossos dias.

A tecnologia é boa em si. Pode ser má a utilização que o homem faz dela ou a sua ideologização, manipulando-a indevidamente, subtraindo-a do influxo da ética e colocando-a a serviço de alguns e não de toda a humanidade. O que seria do mundo sem o avanço tecnológico da medicina,  da comunicação, dos meios de transportes, da agricultura, da produção de energia?

O “mundo tecnologizado” não afronta a Deus e à fé. Deus é transcendente, mas não um transcendente entre outros transcendentes. Ele é O Transcendente por excelência, situa-se não acima da tecnologia, mas para além dela e dos produtos culturais humanos, quaisquer que sejam eles. Ele não está no topo, mas para além do topo. Ele não está no cimo da montanha tecnológica, mas para além da própria montanha. De algum modo, Ele “situa-se fora do horizonte do conhecimento”, que não poderá aprisiona-LO jamais, Ele O MISTÉRIO.

O avanço tecnológico que experimentamos não torna a presença de Deus irrelevante para a pessoa humana. Ao contrário, ajuda, se bem usado, para devolver a Deus a sua natureza própria, muitas vezes assimilada inadequadamente pelo homem, sempre condicionado, o que limita o seu modo de compreensão e acolhimento dos mistérios da fé.

As dificuldades não estão em Deus ou nos avanços tecnológicos, mas em nós que somos continuamente tentados à excessiva admiração da obra humana  desviando-nos do próprio Deus. Admiramos tanto as criaturas, que esquecemos do Criador. Fixamo-nos tanto nas belezas, que esquecemos do Autor da beleza. O imanente é tão atrativo que, embevecidos por ele, não nos permitimos olhar para o horizonte da transcendência. É questão de foco, de alçar novos vôos, como a águia, é permitir-se a aventura de situar-se para além do humano, foi para isso que Jesus Cristo se fez homem e habitou entre nós.

Pode ser que nós, “os agentes do Sagrado”,  não estejamos conseguindo apresentá-Lo adequadamente aos nossos contemporâneos. E não é só uma questão de linguagem, há elementos outros e mais profundos envolvidos, sobretudo de ordem existencial, mas também metafísica.

  1. Como alguém que está perdendo tudo: riqueza, saúde, família, pode ainda conservar a sua fé em Deus?

Um olhar sobre o mundo  mostra que as sociedades que sofrem  o decrescimento da vida religiosa em geral é justamente onde ocorre a abundância dos bens; no ocidente, sobretudo na Europa e América do Norte. Nas sociedades empobrecidas há, ao contrário, crescimento das manifestações religiosas, até mesmo onde eram proibidas por governos ideologicamente ateus.

O enriquecimento e o empobrecimento não são fatores que por si só levam ao ateísmo ou ao agnosticismo, militante ou não. Ao mesmo tempo, não é da natureza genuína da fé ser uma fuga para situações de empobrecimento, como foi dito no passado, um “ópio do povo”. Ao contrário, a relação de fé com Jesus Cristo, a acolhida do Mistério do Reino de Deus, leva o fiel à transformação da realidade, também embebida pelo Mistério da Salvação, que deve fazer dela uma História da Salvação.

Da fé nasce a esperança, que não se reduz a expectativas. Ambas encontram a sua plenitude na caridade, expressão do Amor de Deus no coração humano e na história. O empobrecido encontra naturalmente na fé, na esperança e na caridade, o apoio que precisa para viver a sua vida, não circunscrita ao momento atual que vive, mas para além dele, abrindo-o à comunhão com o Mistério de Deus, que começa aqui e se prolonga na eternidade, através da sua imortalidade.


  1. A frase do filósofo francês Blaise Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece” ainda hoje é atual?

O risco do reducionismo é sempre uma tentação. Reduzir o homem à racionalidade é vê-lo “desfocado” da sua integralidade, que implica também o sentimento, a corporeidade e a sua espiritualidade. O pensamento de Pascal é um convite para uma antropologia mais abrangente, não só imanente e iluminista.

Uma  compreensão adequada da filosofia pascaliana não pode reduzir-se a este pensamento expresso, que tornou-se muito divulgado. Blaise Pascal é mais do que este pensamento que expressa os limites da razão e mostra que ela não é dimensão única da existência humana.  Neste sentido, sim, o pensamento é atual, mas deve ser compreendido no contexto ampliado da sua filosofia, devidamente contextualizada.


  1. Gilberto Gil em uma música cantava: “Andar com fé eu vou, que a fé não costuma falhar”. É realmente assim?

A fé não é poesia, nem música, embora, algumas de suas expressões possam até ser poetizadas ou musicadas, como esforço da inteligência humana para traduzir em linguagem humana o intraduzível; um trabalho que segue a via negativa, diante dos limites da própria linguagem, uma forma de dizer o que uma realidade não é, para deixar transluzir, ainda que opacamente, o que é. O campo lingüístico da fé não se identifica com o campo lingüístico da música e da poesia. São jogos lingüísticos diferentes.

A fé cantada por Gil não é a fé em Jesus Cristo e no seu Reino. Mas é uma fé de expectativa histórica, intra-mundana. Mas isto não impede de que olhemos a sua música como um sinal que aponta e sinaliza.

A linguagem, uma vez expressa, torna-se autônoma, não depende mais do seu autor, podendo até mesmo virar-se contra ele. Este fato permite não só a compreensão, mas também a interpretação, o redirecionamento. Por isso posso aplicar, legitimamente, o verso de Gil como assinalador de uma outra realidade. A fé genuína não falha, nunca. Se falhasse, Deus não seria fiel.


  1. O que espera o Santo Padre Bento XVI ao inaugurar o Ano da Fé?

O Ano da Fé terá início no dia 11 de outubro de 2012 e terá a sua conclusão em 24 de novembro de 2013, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo. Ele deve ser compreendido no contexto das celebrações dos 50 anos do Concílio Vaticano II e da Assembléia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que se realizará em outubro deste ano, com o tema “A nova evangelização para a transmissão da fé cristã”.

O centro das preocupações do Ano da Fé não está na fé em si mesma, sempre imutável e nova, mas no modo da sua vivência, compreensão e transmissão. O Papa assinala em sua mensagem que redescobrir o caminho da fé é necessário para fazer brilhar a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. A porta da fé está sempre aberta para nós, atravessá-la é uma ação que dura toda a vida, começa com o batismo e se concluirá com a experiência pessoal da morte que nos abre a vida eterna.

O Papa afirma textualmente: “Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as conseqüências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como pressuposto óbvio da vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado. Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes setores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas”(2).

O desejo do Santo Padre é que neste Ano da Fé “suscite em cada crente o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança”(9). Que as comunidades religiosas, paroquiais e todas as realidades eclesiais encontrem forma de fazer publicamente a profissão do Credo(cf 8). 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Auxiliar de São Paulo

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