sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Homilia: O Presbítero, profeta do Reino de Deus

Emoldurados pelo Advento, como participantes do mistério do Reino de Deus,  celebramos esta Santa Missa. No altar do nosso coração oferecemos a Deus o que somos, vivemos e fizemos ao longo deste dia. Unidos ao Povo de Deus, a Igreja, nos alegramos com a proximidade da celebração do Natal de Jesus Cristo,  que reacende em nós a esperança do encontro pleno e definitivo com Ele, o que de algum modo já experimentamos na fé, pois o seu reinado acontece já, e ainda não, em nós, no mundo e na história.

Temos presente em nossa oração os 25 anos de vida presbiteral, uma fidelidade amorosa, de nosso amigo e pároco, Pe. Antônio Aparecido dos Santos, o nosso Padre Toninho. Com ele dizemos a Deus o que rezamos na oração de coleta desta Missa: “Senhor nosso Deus, somos servos indignos e reconhecemos com tristeza as nossas faltas”. Também com ele cantamos com o salmista: “Eu te exalto, Senhor, porque me livraste, não deixaste meus inimigos se rirem de mim. (...) Transformaste o meu luto em dança, Senhor, meu Deus, eu vou te louvar para sempre”(Sl 29).

Nossa presença aqui, nesta noite, é o reconhecimento de que na corda bamba da vida, o sim pronunciado pelo Padre Toninho, ao longo destes 25 anos, tem o preço de muitos nãos. Com ele, agradecemos a Deus que o sustenta na vida presbiteral, mas reconhecemos o esforço pessoal que ele faz para ser o que é e fazer o que faz na Igreja e em nosso País.

1ª Leitura:
O Profeta Oséias usou a imagem do matrimônio para falar do amor fiel de Deus a seu povo e da infidelidade do povo ao amor de Deus. O texto de Isaías que ouvimos (Is 54, 1-10) é uma profecia de consolação que mostra a ternura de Deus que não esquece sua promessa e tudo faz para reconduzir a si o povo que o abandonou. O contexto deste texto é o fim do exílio na Babilônia e a reconstrução da vida em Jerusalém.

O Profeta Isaías “proclama com um hino de alegria que finalmente chegou o tempo da reconciliação entre a esposa adúltera e seu esposo ( vv. 1.5 ). Acabou o tempo do sofrimento e da vergonha ( vv. 4.6 ), para dar lugar a um período de grande prosperidade e fecundidade ( v. 2 ), fruto do amor reencontrado.”

No contexto da História da Salvação,  o texto ( vv. 3.5.9 ) permite entrever uma extensão universal da profecia apontando a redenção realizada por Jesus Cristo, que concretiza o desejo de Deus de salvar a todos os povos ( v. 10; cf Gl 4, 26-27 ).

Evangelho:
No Evangelho, Jesus Cristo retoma um texto do profeta Malaquias  ( 3,1): “Eis que eu envio meu mensageiro à tua frente, ele preparará o teu caminho diante de ti”, para falar da natureza do profetismo de João Batista, “o maior entre os nascidos de mulher”. Ao explicitar a natureza da pessoa e da ação profética de João, o Batista, Jesus Cristo revela  sua própria natureza e a de sua ação salvadora. “João era o mensageiro, o batedor, o anjo que anunciava a nova ordem, mas Jesus é Deus em pessoa que vem realizar o seu plano de salvação do mundo”.

Meditação:
Os nossos dias e o modo de ser e agir dos filhos e filhas de Deus, não são tão diferentes dos vividos pelo Povo de Deus no tempo do Profeta Isaías e no início da vida pública de Jesus Cristo, que coincide com o término do ministério profético de João, o Batista. Nossa vida cristã não é um romance, um documentário, uma comédia ou uma tragédia, mas um drama que se desenvolve entre o amor fiel e misericordioso de Deus e nossas quedas de infidelidade diante das muitas e prósperas tentações a que nos encontramos sujeitos. Por isso, podemos rezar com o salmista: “Sua ira dura um momento, seu favor a vida inteira; de tarde vem o pranto, de manhã gritos de alegria” ( Sl 29 ).

Não consideramos São João Batista como um entre os outros profetas do Antigo Testamento. Na linha profética, Ele é a testemunha de Jesus Cristo, que o identifica como “o facho que arde e ilumina”( Jo 5, 35 ).

Jesus Cristo não é apenas um profeta, como é considerado por outras religiões. Ele é a realização das profecias, o profeta, por excelência, que constrói com sua vida, ação e ensinamento o caminho de acesso a Deus Pai, salvando a pessoa humana e possibilitando-lhe dirigir-se a Deus e tê-lo como Pai.

É na identificação com Jesus Cristo, tendo consciência do dom recebido, que o presbítero exerce o tríplice múnus de governar, santificar e ensinar. São três dimensões intrínsecas e inseparáveis do profetismo de Jesus Cristo que Ele quis compartilhar com aqueles que ele chama para a vida sacerdotal. Para o padre, não é possível governar sem santificar e ensinar; não é possível santificar sem governar e ensinar; não é possível ensinar sem governar e santificar. Ao realizar um múnus realiza também os outros dois. Fazendo bem um, fará igualmente bem os demais.

Embora secularizado, imanentista e relativista, nosso mundo é pródigo em profetas, os temos de toda espécie, ao gosto do freguês. É possível até encontrar, sem muita dificuldade, o que exerce a profecia como anti-profeta.

Ao não levar a sério a compreensão do magistério católico sobre o profeta, ao interno da fé cristã, também em nossa Igreja, não é unívoca, entre teólogos e pastoralistas, a compreensão da natureza e da missão do profeta. Uma pseudo-compreensão, a tentação do reducionismo, o influxo de algumas correntes filosóficas sobre a teologia, deixam como possibilidade sempre presente a vulgarização da atividade profética.

Conclusão;
Sim, o presbítero é profeta do Reino de Deus. O Reino de Deus é  Mistério e Graça, pressupõe a acolhida e a resposta dos discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele pressupõe a fé, dom de Deus oferecido a todos. O Reino de Deus irrompe na história e acontece em Jesus Cristo. Ele não foi instaurado completamente, o que só ocorrerá na Parusia, na manifestação gloriosa de Jesus Cristo no fim dos tempos. Ele se desenvolve no mundo, na história e em nossa vida na medida e proporção em que reconhecemos e acolhemos Jesus Cristo como  Rei,  Salvador e Senhor. Ele reina em nós, se lhe damos a permissão e, por nosso intermédio, como membros de sua Igreja, Ele reina no mundo e na história. Deste Reino, a Igreja é sinal e a ele deseja conduzir os seus fiéis. È neste contexto e dinamismo que compreendemos o presbítero como profeta do Reino de Deus.

Em nosso tempo, não bastará ao presbítero falar conceitualmente do Reino de Deus, pois antes de ser conceito teológico é realidade divina que se materializa no mistério da Encarnação, da Vida, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Requer do fiel não uma compreensão conceitual, mas uma existência, um modo de ser, uma adesão livre e responsável, que será sempre sustentada pela Graça.

Há uma necessidade premente de conduzir e introduzir as pessoas no Mistério do Reino de Deus, o que somente será possível com uma ação pastoral mistagógica. Pensar o presbítero como profeta do Reino de Deus é pensá-lo como um mistagogo. Só assim a sua palavra não se perderá em meio a tantas palavras, tantos profetas e tantos ruídos teológicos, pastorais, sociológicos e psicológicos que proliferam na sociedade e na Igreja.

O agir profético pressupõe o ser profeta e exige coragem missionária ao preço de oferecer a própria vida num martírio cotidiano fazendo da existência uma oferenda agradável a Deus, na consciência de que não somos só servos indignos, mas inúteis, pois o protagonismo é do Espírito Santo de Deus que conduz a Igreja, moldura que sustenta o nosso presbiterado e profetismo.

Novamente com a oração da coleta de nossa Missa, podemos rezar: “Senhor nosso Deus, dai-nos a alegria do advento do vosso Filho que vem para nos salvar”. A antífona da comunhão desta missa nos exortará: “Vivamos neste mundo com justiça e piedade esperando a feliz esperança, e o advento da glória de nosso Deus”.

Corolário:
Querido Padre Toninho, como presbíteros profetas numa Igreja Missionária, não nos contentemos de, na Igreja, cedermos à tentação de ficar na defensiva, na retaguarda, transpirando cansaço, como se já tivéssemos dado a nossa contribuição, sem querer mais correr e suar a camisa. Também longe de nós a tentação do protagonismo do ataque, de querer fazer facilmente os gools ou de ainda sermos os donos da bola.

Querido Padre Toninho, não somos jovens presbíteros nem presbíteros jovens. Vinte e cinco anos de presbiterado é o tempo da maturidade, dos frutos abundantes, maduros e de boa qualidade. Na Igreja, nos encontramos no meio de campo e precisamos, sem medo, com determinação, simplicidade e astúcia, receber a bola e passá-la à frente, correndo todos os riscos necessários construindo unidade e comunhão.

Querido Padre Toninho, somos presbíteros  com o presbitério unido ao bispo. Para os nossos irmãos presbíteros que vivem o outono da vida sejamos amparo e proteção. Para os jovens presbíteros e presbíteros jovens sejamos estímulo e exemplo. Para nosso bispo, se não amigos, sejamos apoio incondicional e obediência irrestrita. Para nossa família sejamos causa de alegria e santo orgulho. Para o povo de Deus sejamos profetas mistagogos, pastores bons a exemplo de Jesus Cristo, o Bom Pastor.

Querido Padre Toninho, que ao longo dos próximos vinte e cinco anos não lhe falte a terna e materna proteção de Nossa Senhora e a intercessão de São Benedito, o padroeiro desta afável, simpática e acolhedora paróquia. Deus lhe pague com as melhores bênçãos do céu e com a realização dos justos desejos  que o Senhor mais cultiva neste momento, pelo que o Senhor é e faz por nós, o Povo de Deus, que o abraçamos desejando-lhe  felicidades, muitas, incontáveis, inumeráveis.

+ Tomé Ferreira da Silva.
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo.


Confira fotos desta celebração:
Crédito das fotos: PASCOM (Paróquia São Benedito)

Um comentário:

  1. Dom Tomé,
    Estou contente em vê-lo como bispo e desejo toda felicidade do mundo!
    De sua amiga e colega de escola,
    Rosilene (Campanha/MG)

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