sexta-feira, 30 de setembro de 2011

LÁ SE FOI A CASA AMARELA


No espaço onde termina o bairro Ipiranga e começa o Sacomã, em São Paulo, há uma pequena rua denominada de Clemente Pereira, que vai da Rua Bom Pastor às Juntas Provisórias, cruzando as ruas Agostinho Gomes e Silva Bueno, entre outras. Para um olhar pouco atento nada seria percebido como singular, uma rua como outras do bairro.
No entanto, descendo a Rua Clemente Pereira, partindo da Rua Bom Pastor, no primeiro quarteirão, à direita, tinha uma casa amarela; não uma casa como as outras, mas de arquitetura e beleza externa que a diferenciava das demais, tornando-a singular nesta rua. Não era comum ver seus moradores, no entanto gente havia lá, pois o jardim estava sempre limpo, as janelas vez ou outra estavam abertas.
Há alguns meses, no centro da grade, em frente à casa amarela, apareceu uma placa anunciando que ali seria surgiria um novo empreendimento, sem mais especificações. Poucos dias passaram e, de repente, num domingo, o último de setembro, entre o nascer e o pôr do sol, a casa desapareceu. É verdade que nos dias anteriores cortaram algumas árvores do jardim e podaram outras. Um tapume foi colocado em toda a frente do imóvel. Surgirá ali um novo prédio? Será residencial, comercial ou de escritórios?
O desaparecimento da casa amarela é um sinal das transformações que os bairros Ipiranga e Sacomã estão passando: novos prédios residenciais, comerciais e de escritórios; novas escolas e faculdades; o terminal de ônibus Sacomã e a linha verde do metrô; novos estabelecimentos comerciais como padarias, restaurantes, hipermercados e lojas. Há quem diz que o Ipiranga é a “bola da vez” e que em futuro próximo será um novo bairro não deixando nada a desejar em relação a outros de classe média alta da cidade São Paulo.
Estes dois bairros, Ipiranga e Sacomã, estão também sendo objeto de outras transformações que talvez resistimos em ver: o aumento da violência, sobretudo relacionada aos roubos; o aumento dos moradores de rua; a presença de mais pessoas e famílias que estão se instalando debaixo dos viadutos; os contínuos acidentes nos cruzamentos das ruas desprovidos da devida sinalização; instituições históricas de assistência social sendo quase forçadas a fechar suas portas, por um lado pelas novas exigências, em si bem intencionadas, por outro, pela falta de incentivos e parcerias.
As mudanças são boas ou não? Nossos bairros estão preparados com estrutura adequada para o aumento e a chegada dos novos moradores? O que permanecerá como identidade histórica? Como o “velho” conviverá com o “novo”? O que está sendo feito para responder aos novos desafios sociais que vão aparecendo? É hora de pensar, não só em devaneios e sonhos, mas de modo organizado e responsável, uma exigência para o bem de todos.
+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Auxiliar de São Paulo.

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