terça-feira, 31 de março de 2020

DECRETO SOBRE A SEMANA SANTA 2020


SEMANA SANTA 2020 -  DECRETO

A Diocese de São José do Rio Preto, partindo das orientações da Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, de 19 e 25 de março, do ano em curso, determina:

1. Seja realizada na igreja matriz de todas as paróquias e na Área Pastoral São João Paulo II, SEM A PRESENÇA DO POVO, apenas com a presença dos auxiliares estritamente necessários, as celebrações previstas para a Semana Santa;

2. No Domingo de Ramos seja usada a terceira fórmula, prevista no Missal Romano;

3. Segunda, terça e quarta, a missa seja celebrada, como estabelecida no Missal Romano, para cada dia;

4. Na Quinta feira santa, seja omitido o “lava-pés”; No término da Missa, omite-se a procissão e o Santíssimo Sacramento seja conservado no sacrário; Os sacerdotes que não são Párocos ou Administradores Paroquiais, podem celebrar a missa, sem presença do povo, em um local adequado, neste dia;

5. Na Sexta-feira santa, celebre-se às 15h00, a Paixão do Senhor, conforme previsto no Missal Romano. A adoração da cruz com o beijo é limitada apenas ao que preside a celebração. Na oração universal, acrescente a seguinte oração:

X. Pelos que padecem a pandemia do covid-19:
“Oremos ao Deus da vida, salvação do seu povo, para que sejam consolados os que sofrem com a doença e a morte, provocadas pela pandemia do novo coronavírus; fortalecidos os que heroicamente têm cuidado dos enfermos; e inspirados os que se dedicam à pesquisa de uma vacina eficaz.

Reza-se em silêncio. Depois o sacerdote diz:

“Ó Deus, nosso refúgio nas dificuldades, força na fraqueza e consolo nas lágrimas, compadecei-vos do vosso povo que padece sob a pandemia, para que encontre finalmente alívio na vossa misericórdia. Por Cristo, nosso Senhor. Amém!

XI. Por todos os que sofrem privações

.......

6. A Vigília Pascal seja celebrada, a noite, não antes das 19h30. Para o início da Vigília, omite-se o acender do fogo, acende-se o círio e, omitindo a procissão, segue-se o precônio pascal.  Segue-se a liturgia da Palavra. Para a liturgia batismal, apenas a renovação das promessas batismais deve ser mantida. Segue-se a Liturgia Eucarística.

7. No domingo de Páscoa, as missas sejam como previstas pelo Missal Romano, de acordo com o horário.

8. As transmissões pelos Meios de Comunicação sejam ao vivo, não gravadas;

9. Os fiéis sejam informados do horário de início das celebrações, para que possam participar da oração em seus lares.

10. A “Missa do Crisma” será celebrada em ocasião oportuna, ao término da quarentena.

11. Nas igrejas que possuem sinos, SUGIRO que eles sejam tocados, do domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa, em horários oportunos, em altura que não ultrapasse o previsto pela lei, por 30 segundos, no modo adequado a cada dia da Semana Santa.

Acolha meu abraço e saudação, com votos de santa Páscoa, extensivo aos fiéis da Paróquia colocada aos seus cuidados.

Amplexo e todo bem!

São José do Rio Preto, 31 de março de 2020.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

Pe. Júlio César Sanches Lázaro
Chanceler da Diocese

Prot. 114.20

terça-feira, 3 de março de 2020

VIDA: DOM E COMPROMISSO


De 26 de fevereiro a 09 de abril do ano em curso, durante a Quaresma, a Igreja Católica Apostólica Romana, no Brasil, realiza a 57ª Campanha da Fraternidade, com o tema: “Fraternidade e vida: dom e compromisso”; e o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34).

Deus é vida e comunica-a a nós com duração marcada para aqui e agora; mas imortal, ao sairmos da história. Viver é, de algum modo, participar da “natureza” mesma de Deus: a Vida nos permite viver. A vida não é fruto da mecânica ou do vitalismo da natureza, não é geração espontânea, mas realidade que recebemos de Deus criador, como dom a ser acolhido.

Ao sermos agraciados com a vida, assumimos um compromisso, como resposta ao dom recebido: viver bem e dignamente. Este compromisso não é só com a minha vida, mas com a vida das pessoas, e através delas, também com a vida da natureza. Diante da vida, qualquer forma de vida, é preciso ver, sentir compaixão e cuidar.

Assim, nesta Quaresma, “O olhar que se eleva para Deus, no mais profundo espírito quaresmal, volta-se também para os irmãos e irmãs, contempla o planeta, identificando a criação como presente amoroso do Senhor”.

A vida é ameaçada, ontem e hoje, de múltiplas formas: o aborto, a eutanásia, pelas consequências do empobrecimento, a violência (verbal, escrita, visual, gestual e armada). Destaco duas formas singulares de atentado contra a vida, que tem crescido, e se manifesta muito nos adolescentes e jovens: a automutilação e o suicídio. O que fazer diante desta triste realidade?

No noroeste do estado de São Paulo, há uma permanente ameaça à vida: a proliferação incontrolável do mosquito Aedes Aegypt, veículo causador de diversas doenças: dengue, zika, chikungunya, microcefalia e Guillain Barré. Entre nós, o grande tormento é a dengue, por enquanto.

Há anos, é feito um trabalho de conscientização e mobilização para que as famílias eliminem os focos de procriação deste inseto (Aedes Aegypt), mas não tem sido suficiente para diminuir a ação da “peste”.  É preciso ter a coragem de fazer algumas perguntas, para avançar no combate a este mal: continuam sendo, de fato, os domicílios os criadouros privilegiados do mosquito? Não há relação entre a intervenção humana na natureza e o aumento da reprodução do mosquito e do seu “fortalecimento genético”? A cultura predominante da cana, o uso intensivo de defensivos agrícolas, a alteração das “feições” da terra, não estão contribuindo, direta ou indiretamente, para os avanços do inseto?

A Campanha da Fraternidade de 2020 é um clamor para eliminar a indiferença que não deixa ver corretamente a realidade da vida frágil ou ameaçada, para destruir a insensibilidade que dificulta o sentir compassivamente a situação dos que possuem a vida ferida, e combater a preguiça que nos impede de nos curvarmos para cuidar dos que precisam. Para tanto, nos ajudarão a oração, a caridade e o jejum, continuado na penitência e na abstinência.

“A vida é dom e compromisso! Seu sentido consiste em ver, solidarizar-se e cuidar. A vida é essencialmente samaritana, tal qual o homem que interrompeu sua rotina para cuidar de quem estava caído à beira do caminho (cf. Lc 10,25-37). Não se pode viver a vida passando ao largo das dores dos irmãos e irmãs”.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A OBESIDADE, O JEJUM E A ABSTINÊNCIA



Não há semana, no Brasil, que os grandes grupos de comunicação não produzam e publiquem matérias, as mais diversas possíveis, sobre a obesidade. Ao que parece, o sobrepeso vai se tornando um grande problema de saúde pública, no Brasil e em outros países.

Talvez possamos afirmar, a partir da simples observação, que a obesidade esteja vinculada a maus hábitos alimentares: comemos, mas não consumimos o que e como devemos. “Matamos” a fome, mas nem sempre alimentamos adequadamente o corpo, o que trará reflexos à alma e ao espírito. Comemos o que não precisamos e além do que necessitamos.

Uma das práticas propostas pela Igreja Católica Apostólica Romana aos fiéis, no tempo da Quaresma, é a prática do jejum e da abstinência, atitudes salutares que fazem bem para o corpo, a alma e o espírito. São formas de privação voluntária, de livre escolha, de consumir alimentos, de modo total ou parcial, por algum tempo, com uma motivação espiritual e religiosa. Para isto, a Igreja inspira-se na vida e nas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Antes de tudo, Nosso Senhor Jesus Cristo jejuou: “Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo. ELE JEJUOU DURANTE QUARENTA DIAS E QUARENTA NOITES. Depois teve fome” ( Mt 4, 1-2 ).

Nosso Senhor Jesus Cristo ensina a jejuar: “Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo, eles já receberam a sua recompensa. TU, PORÉM, QUANDO JEJUARDES, PERFUMA A CABEÇA E LAVA O ROSTO, PARA QUE OS HOMENS NÃO VEJAM QUE TU ESTÁS JEJUANDO, MAS SOMENTE TEU PAI, QUE ESTÁ OCULTO. E O TEU PAI, QUE VÊ O QUE ESTÁ ESCONDIDO, TE DARÁ A RECOMPENSA” ( Mt 6, 16-18 ).

E ainda, Nosso Senhor Jesus Cristo preanuncia o nosso jejum: “DIAS VIRÃO EM QUE O NOIVO LHES SERÁ TIRADO. ENTÃO JEJUARÃO” ( Mt 9, 15). 

Na sociedade, há uma tentativa de ajudar as pessoas a cuidarem do corpo, seja por razões de saúde ou estética. Na estética corporal, afirma-se que vivemos a “ditadura do corpo perfeito”, com ampla frequência às atividades físicas, às academias, ao uso de suplementos alimentares, consultas a uma ampla gama de profissionais da medicina, da educação física e nutricionistas.

Por outro lado, os organismos governamentais começam a propor medidas educativas que ajudem as pessoas a se alimentarem melhor e a comerem somente o necessário, numa atitude preventiva contra possíveis enfermidades e doenças vinculadas à obesidade.

Na espiritualidade cristã, e para a Igreja Católica Apostólica Romana, o jejum e a abstinência são saudáveis para o corpo, a alma e o espírito, ajudando a eliminar o supérfluo e o excesso, abrindo espaço, através da sobriedade, ao que é essencial e fundamental para viver bem consigo mesmo, com o outro e com Deus. São práticas educativas que nos “moldam” ao modo de Deus.

Antes de mais nada, o jejum e a abstinência são remédios contra a gula, um pecado capital, isto é, que sempre conduz a outros pecados, como à ganância, ao egoísmo, a relações conflituosas, ao desperdício. 

O exercício do jejum e da abstinência abre espaço para a prática da caridade. O que não consumimos deve ser doado aos empobrecidos, para que tenham o necessário para uma vida digna. Não fique em nossa casa, ou em nosso bolso, o que pertence ao fragilizado. Desta forma, o jejum e a abstinência se tornam caminhos de solidariedade, de redistribuição dos bens, no reconhecimento de que os frutos da natureza e do trabalho humano possuem um fim social, se destinam a todos, na medida do que cada um precisa para viver bem e com dignidade. 

Ao conduzir a um modo de vida sóbrio, sem excessos, o jejum e a abstinência produzem reflexos na nossa casa comum, pois contribuem para não levar a natureza à exaustão, preservando a capacidade produtiva da terra por mais tempo e do modo mais natural possível, sem necessidade de uso excessivo de aditivos químicos que acabam por contaminar o meio ambiente.

Infelizmente, muitas pessoas, no Brasil e no mundo, sofrem o mal contrário à obesidade, isto é, a magreza extrema, fruto da fome involuntária. Outros ainda, na busca obsessiva da beleza corporal, tornam-se tão frágeis que podem chegar à morte, ou carregar sequelas por toda a vida.

Aproveitemos o tempo da Quaresma para praticar o jejum e a abstinência, o que só fará bem a nós, aos outros e ao mundo.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

NATAL: CRISTO É A NOSSA PAZ


NATAL: CRISTO É A NOSSA PAZ!

“Glória a Deus no mais alto dos céus, e na terra, paz a todos por ele amados!” 

(Lc 2, 14)


Imagem: padrepauloricardo.org
Em retrospectiva, voltando os olhos da razão e do coração para o que vivemos, no Brasil, em 2019, ocorre-me, insistentemente, a ausência e o clamor pela paz. A paz não parece realidade singular, mas plural, que se desdobra em tantas ramificações que não se contradizem, mas se encontram e reencontram no coração e na mente da pessoa humana. Nesse ano que vai caminhando para o ocaso, faltou paz, muita paz, para nós brasileiros.

Se a presença ou ausência da paz é tão palpável e sentida, ao mesmo tempo, ela parece transcender as realidades mundanas e históricas, situar-se num horizonte que é, ao mesmo tempo, ponto de partida e de chegada.  Tem razão o Apóstolo São Paulo, ao escrever aos cristãos de Éfeso: “Cristo é a nossa paz!” (Ef 2,14). Nosso Senhor Jesus Cristo é o porto da paz, ponto de partida e de chegada. A paz não é um conceito, é uma pessoa. 

A violência, negação da paz, tem uma multiplicidade incontável de manifestações, algumas assustadoras, marcadas por requintes de crueldade. Há formas de “violência branca”, que se apresentam travestidas, disfarçadas, e que causam prejuízos inimagináveis à pessoa humana e à sociedade, são manifestações do mal sob aparência do bem. Os atos violentos, nas suas mais diversas expressões, remontam também a uma fonte, são cristalizações do mal.

Estamos exaustos da violência das armas de fogo ou brancas, estejam elas nas mãos das polícias, das milícias, dos marginais, ou de simples cidadãos, usadas para amedrontar, ferir ou matar, proposital ou despropositado. Não há um único dia no Brasil em que não somos informados, em tempo real, dos efeitos danosos, letais ou não, do uso dos mais diversos tipos de armamentos. Se num passado, a notícia parecia ser de um acontecimento distante, hoje é o relato de fato ocorrido ao nosso lado.

No âmbito doméstico, entre vizinhos, nas escolas, bares, ou em lugares e situações inusitadas, é muito disseminada a violência física, viabilizada através do uso dos membros do próprio corpo, sobretudo as mãos e os pés: surras, coças, pontapés, murros, palmadas, escoriações, descabelamento, etc... , que também conduzem a consequências graves, sequelas físicas e psíquicas, e até à morte. Não é incomum que a violência física esteja associada a práticas racistas e discriminatórias, contra minorias ou pessoas socialmente fragilizadas.

Há também uma violência verbal, ou por imagens, ou até silenciosa, que está sendo potencializada em grande escala pelos meios de comunicação social, sobretudo através das novas mídias, que usam o recurso da internet. Ela estimula a polarização e o rancor, dissemina o ódio e a animosidade entre pessoas e grupos, tornando vulnerável as mais diversas expressões da sociedade, atingindo não só a pessoa singularmente.

Não poderia esquecer de mencionar a auto violência, quando a própria pessoa é a agente e o objeto da agressão. Ela não é somente fruto de distúrbios psíquicos e psiquiátricos, mas também um “modismo” ou “cultura”, que vai se propagando sub-repticiamente, como por exemplo, as mutilações praticadas pelos adolescentes. Também devemos mencionar uma forma extrema, o suicídio, fruto do desespero, do não saber esperar, de buscar um caminho que não é caminho para ver-se livre de um tormento, insuportável para a própria pessoa.

Os sons, as cores, os sabores, os odores do “natal comercial, social, institucional” não são suficientes para abafar ou esconder as florestas de violência, com seus múltiplos e variados frutos, mas todos danosos para a pessoa, as instituições e a sociedade. No máximo, criam um ambiente de artificialidade, com propósitos bem definidos de um “natal pagão”, que de tão insistente e massivo, parece ser o único possível.  E ele começa com tamanha antecedência, depois do dia das crianças, que em 25 de dezembro já estamos cansados e não vemos a hora de chegar o “ano novo”.

Nunca é demais recordar que o Natal é de Nosso Senhor Jesus Cristo, 2019 anos de seu nascimento, ocorrido em Belém de Judá. Ele é Deus, a nossa paz, que veio trazê-la para todos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz.  Eu não a dou, como a dá o mundo. Não se perturbe, nem se atemorize o vosso coração” (Jo 14, 27).  Neste sentido, as palavras dos anjos aos pastores, nos campos de Belém, ainda são uma profecia: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e na terra, paz a todos por ele amados!”(Lc 2,14 ).  A paz é dom e resposta: dom de Deus a nós; nossa resposta a Deus. Sejamos construtores da paz, vivendo em paz!


Um Natal santo e de paz para você! 


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP