quarta-feira, 21 de outubro de 2020

TEMPO DE CONCENTRAÇÃO

 

Concentrar-se em Nosso Senhor Jesus Cristo

O termo “concentração” designa o ato de concentrar-se ou um lugar onde se reúnem os atletas em preparação para a prática esportiva profissional. Na origem do termo está o verbo “concentrar”, assim definido pelo Dicionário Aurélio: “Aplicar, empregar, dirigir (o pensamento, a atenção, o sentimento, etc.) de modo intenso ou exclusivo”.

Enquanto uns não estão nem aí com a vida e outros se encontram submersos na satisfação das necessidades primárias e imediatas, nós, sensíveis aos desafios atuais, de natureza espiritual, social, econômica, política e cultural, corremos o risco de um cansaço estruturante: enfado, tédio, fastio, um desgosto profundo.  

No descortinar do horizonte do fim de ano, agravado pelos efeitos nocivos da pandemia e da campanha eleitoral, para não entrarmos numa exaustão de consequências imprevisíveis, precisamos entrar em concentração, buscar o centro referencial da vida, discernir o foco que sinalize o caminho a ser construído.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Diante de tantas encruzilhas e incertezas, a recordação da paternidade de Deus é uma esperança viável. Deus não é um pai qualquer, como um humano. Somos suas criaturas e diante de nós Ele se encanta embevecidamente, ainda quando nos perdemos nas veredas da vida.

Viver como filho de Deus só nos é possível através de Nosso Senhor Jesus Cristo, filhos no Filho: Ele é o caminho, a verdade e a vida. No mistério da cruz, ao nos revelar a verdade de Deus como Pai, faz-nos participantes da vida paterna e se torna o único e insubstituível caminho para vivermos n’Ele. Paternidade e filiação são relações existenciais, se realizam na fé.

A leitura orante e diária da Sagrada Escritura, a missa dominical, o sacramento da confissão, tempos bons e justos de oração silenciosa, o exercício da caridade, a experiência comunitária da fé, na família e na paróquia, e um terno amor a Nossa Senhora são preciosos e indispensáveis auxílios que nos ajudam na concentração e ressignificação da nossa vida católica.

Ao menos para nós, se não para os outros, o tempo pandêmico tem sido lento a passar. Concentrar-se na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo é a nossa salvação diante de tantas narrativas, inseguranças humanas e “desgraças” sociais. Mesmo envoltos pelo temor, é preciso vencer o medo, deixando-se iluminar pelo Divino Salvador: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8, 12).


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP     

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

"EU CREIO, MAS AJUDA-ME NA MINHA FALTA DE FÉ" (Mc 9,24)



Na vida, não poucas vezes, nos encontramos envoltos por fortes neblinas que obscurecem a visão à distância. No momento presente, a incerteza gera insegurança, que se faz nossa companheira. A vida é tecida de muitas incertezas e poucas certezas, menos segurança que insegurança; isso ocorre até mesmo no que é denominado de “ciência”, e a vida de fé também não foge a esta “regra”.

Não podemos e não devemos viver estagnados, mesmo quando somos tomados pela incerteza e insegurança, pois elas são constitutivas da nossa vida, variando de intensidade em cada ocasião. A estagnação pode nos conduzir à putrefação, fruto da perda de sentido e da razão de viver. A ação permanente, “vagarosa” que seja, descortina novas razões e constrói novas sendas.

O que vivemos não é o fim, nem o começo; é apenas o caminho a ser percorrido, do modo possível, que seja expressão de cuidado com o outro e consigo mesmo. Quando se fecha uma porta, alguma janela permanecerá aberta, por ela a luz entrará. Quando não há estrada pronta, ainda assim, caminhar é preciso, para criar novas trilhas que um dia tornar-se-ão caminhos seguros.

Na atual conjuntura, o Salmo 90(91) nos ajuda a rezar expressando nossa confiança em Deus diante dos temores atuais. Vejamos alguns versículos: “Não temerás terror algum durante a noite, nem a flecha disparada em pleno dia; nem a peste que caminha pelo escuro, nem a desgraça que devasta ao meio-dia.”(...) “Nenhum mal há de chegar perto de ti, nem a desgraça baterá à tua porta; pois o Senhor deu uma ordem a seus anjos para em todos os caminhos te guardarem.” (...) “Porque a mim se confiou, hei de livrá-lo e protegê-lo, pois meu nome ele conhece. Ao invocar-me hei de ouvi-lo e atendê-lo, e a seu lado eu estarei em suas dores. Hei de livrá-lo e de glória coroá-lo, vou conceder-lhe vida longa e dias plenos, e vou mostrar-lhe minha graça e salvação” (Sl 90(91), 5-6.10-11.14-15).

Precisamos seguir adiante, ainda que a passos curtos; não há uma tecla “play” verde, que, acionada, colocará tudo nos trilhos como num piscar d’olhos. Caminhar juntos, iluminados pela fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, o Bom Pastor; pela caridade, derramada em nossos corações pelo Divino Espírito Santo e com a esperança colocada na misericórdia e bondade de Deus Pai. Nas trilhas a serem desbravadas, não nos faltará a terna e materna proteção do Imaculado Coração da Bem-Aventurada Virgem Maria.

 

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

MISSA DA UNIDADE E OS "SANTOS SINAIS DE ESPERANÇA"

Texto e fotos: André Botelho


A Missa celebrada na noite de sexta-feira, 14 de agosto, “conectou” de alguma forma os fiéis à Semana Santa; ocasião em que as regras de distanciamento já se apresentavam em virtude da pandemia do novo coronavírus. A Celebração do Crisma, no trânsito normal do Ano Litúrgico, estaria inserida na véspera do Tríduo Pascal; oportunidade para a expressão da unidade de toda a Diocese.

Outra conexão importante se deu a partir dos meios de comunicação, em especial as Rádios Interativa FM e Difusora Aparecida, de Monte Aprazível. A partir delas os fiéis, mesmo à distância, mantiveram-se unidos na grande “assembleia virtual” formada.

Tamanho zelo pastoral, dom Tomé Ferreira da Silva abençoou os Óleos dos Catecúmenos e dos Enfermos e consagrou o Óleo do Crisma no “Mês Vocacional”, na vivência da Semana Nacional da Família, sob normas de higienização e afastamento tão oportunas quanto aquelas observadas no início da pandemia: tiveram acesso à Catedral de São José os padres e leigos destacados para representar as Paróquias; respeitando a capacidade em condição reduzida. Todos encontraram a Igreja sinalizada com indicativos quanto aos lugares a serem ocupados.

É certo que os “novos tempos” tem favorecido o surgimento de muitos questionamentos, mas a presença de Deus, apoiada na força dos Sacramentos (nos quais os Santos Óleos serão usados) é uma motivadora esperança. “Mesmo sabendo das limitações e da impossibilidade da participação de muitos, o nosso coração concluiu que seria a hora de realizar (a Missa da Unidade)”, disse dom Tomé. “Parece que estamos em um pesadelo (...). Nós ficamos tristes, mas nos colocamos à sombra de Nosso Senhor Jesus Cristo (...). Dele vem a nossa força. Dele vem a nossa coragem. É Ele que não nos deixa caminhar cabisbaixos diante das sombras”, completou o religioso.

 

Sinais de esperança

Entre os padres que renovaram as Promessas Sacerdotais estava Alexandre Ferreira dos Santos. O responsável pela Paróquia São Francisco, em São José do Rio Preto, venceu a Covid 19 após período severo de internação. Dom Tomé, dirigindo a ele palavras de incentivo, também acolheu sua família por ocasião da morte de seu pai (vítima da doença).

Publicação distribuída na Missa trouxe, ainda, indicativo do Jubileu de Ordenação dos padres José Aparecido Gonzaga, Leonel Brabo, Jeová Bezerra da Silva e Pedro da Silva; ambos celebrando 25 anos de Ordenação Presbiteral. O padre Mário Ustaszewski, na mesma alegria, rende graças pelo Jubileu de Ouro. “O Espírito Santo configura o sacerdote à pessoa de Jesus”, contextualizou dom Tomé.

Ao final da Missa, os coordenadores das Regiões Pastorais distribuíram os Santos Óleos aos padres presentes. “Que esta Celebração Eucarística, simples e singela, nos faça acalentar o coração para que impulsionados pelo Espírito levemos a Salvação de Cristo a tantos quanto a esperam”, concluiu o bispo de São José do Rio Preto.

 












domingo, 19 de julho de 2020

segunda-feira, 4 de maio de 2020

TEMPO PANDÊMICO: MAIS DÚVIDAS E PERGUNTAS DO QUE CERTEZAS E RESPOSTAS




Há uns sessenta dias - um pouco mais ou um pouco menos - a pandemia, então só uma epidemia, não é mais realidade e assunto só da China, mas do mundo e também do Brasil. Com isso, a nossa vida pessoal sofreu uma reviravolta, com profundos reflexos na organização da sociedade, sobre a natureza e que marcará a história. À medida que os fatos acontecem, ocorre uma desenfreada busca de explicações e soluções necessárias para a sobrevivência, para o convívio humano, para a saúde da terra e os fins da história. No entanto, temos mais dúvidas e perguntas do que certezas e respostas.
A dilaceração provocada pelos fatos, que fere o corpo, a psique e o espírito, e a limitação das respostas científicas, que retardam medidas técnicas, nos levam a criar uma nebulosa realidade, onde somos, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos, e vivemos “tateando no escuro”, caminhando quase “a esmo”, no ritmo do acerto e do erro, pois sem clareza no horizonte não há objetividade na ação. Não há culpados, ao menos por enquanto, mas podemos ser cúmplices por não fazermos bem o que podemos e, por isso mesmo, devemos fazer, cada qual no seu “quadrado”, se bem que a crise nos mostra que os quadrados são interligados e interdependentes.

Não sei se poderia ou deveria ser diferente, mas algumas decisões, neste tempo pandêmico, tomadas nos escritórios, com diálogo seletivo, são sugestivas ao decidirem sobre e para outros, sem o devido conhecimento de quem são e como vivem estes “outros”. A reclusão imposta, restringindo o convívio social, por exemplo, veio mostrar alguns “invisíveis”, os que se encontram em situação de rua, os que vivem em barracos, em casas precárias, ou em residências demasiado pequenas. Será que isto fortalecerá o desenvolvimento de uma política habitacional diferente e mais adequada?

De uma hora para outra, a sociedade ficou surpresa, ao constatar forçadamente, que um número significativo de pessoas não possui condições normais de higienização, necessária para evitar a contaminação com o covid-19, pois falta água, banheiro, pia, chuveiro, bacia e sabão. E que o álcool em gel, para muitos, é um luxo, inacessível. E se a fome já era existente ou a alimentação era inadequada, está sendo a sociedade civil a garantir “o pão de cada dia” ou a amenizar a dor de não ter o que comer para muitos que deveriam ser assistidos de modo permanente pelo Estado, enquanto se encontram em situação de vulnerabilidade social. Depois da pandemia, haverá uma política de “renda mínima”, mais abrangente, que atinja a todos os que precisam?  

Outro dado interessante é a definição de “atividades essenciais” como princípio para determinar o que pode e o que não deve “funcionar” nas cidades. Em sociedades profundamente desiguais não é fácil, e muito pouco provável, encontrar “uma média” razoável para determinar o que seja ou não essencial para os cidadãos. Alguns setores significativos da sociedade não são sequer ouvidos ou comunicados adequadamente através das suas organizações representativas das decisões tomadas e a serem observadas. Em outras palavras, não há um trato das pessoas como cidadãs, mas são abordadas como massa a ser conduzida, silenciosamente, com as ameaças da fiscalização e/ou punição, onipresentes para uns e quase ou inexistentes para outros.  

“Queira Deus eu esteja enganado”, mas passaremos por um bom tempo sujeitos a trovoadas, rajadas de vento e tempestades, mas nos encontramos no mesmo barco, embora alguns em posição singular. O timoneiro não pode agir sozinho, nem só ouvir “a hierarquia do comando”.  Quem escuta mais tem chances de errar menos, pois nem só de “ciência”, qual ciência (?), vive a humanidade. Diante do risco de tantas “imposições”, não é mau pensar nas “liberdades individuais”, se não comprometem a vida dos outros.  

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP