segunda-feira, 4 de maio de 2020

TEMPO PANDÊMICO: MAIS DÚVIDAS E PERGUNTAS DO QUE CERTEZAS E RESPOSTAS




Há uns sessenta dias - um pouco mais ou um pouco menos - a pandemia, então só uma epidemia, não é mais realidade e assunto só da China, mas do mundo e também do Brasil. Com isso, a nossa vida pessoal sofreu uma reviravolta, com profundos reflexos na organização da sociedade, sobre a natureza e que marcará a história. À medida que os fatos acontecem, ocorre uma desenfreada busca de explicações e soluções necessárias para a sobrevivência, para o convívio humano, para a saúde da terra e os fins da história. No entanto, temos mais dúvidas e perguntas do que certezas e respostas.
A dilaceração provocada pelos fatos, que fere o corpo, a psique e o espírito, e a limitação das respostas científicas, que retardam medidas técnicas, nos levam a criar uma nebulosa realidade, onde somos, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos, e vivemos “tateando no escuro”, caminhando quase “a esmo”, no ritmo do acerto e do erro, pois sem clareza no horizonte não há objetividade na ação. Não há culpados, ao menos por enquanto, mas podemos ser cúmplices por não fazermos bem o que podemos e, por isso mesmo, devemos fazer, cada qual no seu “quadrado”, se bem que a crise nos mostra que os quadrados são interligados e interdependentes.

Não sei se poderia ou deveria ser diferente, mas algumas decisões, neste tempo pandêmico, tomadas nos escritórios, com diálogo seletivo, são sugestivas ao decidirem sobre e para outros, sem o devido conhecimento de quem são e como vivem estes “outros”. A reclusão imposta, restringindo o convívio social, por exemplo, veio mostrar alguns “invisíveis”, os que se encontram em situação de rua, os que vivem em barracos, em casas precárias, ou em residências demasiado pequenas. Será que isto fortalecerá o desenvolvimento de uma política habitacional diferente e mais adequada?

De uma hora para outra, a sociedade ficou surpresa, ao constatar forçadamente, que um número significativo de pessoas não possui condições normais de higienização, necessária para evitar a contaminação com o covid-19, pois falta água, banheiro, pia, chuveiro, bacia e sabão. E que o álcool em gel, para muitos, é um luxo, inacessível. E se a fome já era existente ou a alimentação era inadequada, está sendo a sociedade civil a garantir “o pão de cada dia” ou a amenizar a dor de não ter o que comer para muitos que deveriam ser assistidos de modo permanente pelo Estado, enquanto se encontram em situação de vulnerabilidade social. Depois da pandemia, haverá uma política de “renda mínima”, mais abrangente, que atinja a todos os que precisam?  

Outro dado interessante é a definição de “atividades essenciais” como princípio para determinar o que pode e o que não deve “funcionar” nas cidades. Em sociedades profundamente desiguais não é fácil, e muito pouco provável, encontrar “uma média” razoável para determinar o que seja ou não essencial para os cidadãos. Alguns setores significativos da sociedade não são sequer ouvidos ou comunicados adequadamente através das suas organizações representativas das decisões tomadas e a serem observadas. Em outras palavras, não há um trato das pessoas como cidadãs, mas são abordadas como massa a ser conduzida, silenciosamente, com as ameaças da fiscalização e/ou punição, onipresentes para uns e quase ou inexistentes para outros.  

“Queira Deus eu esteja enganado”, mas passaremos por um bom tempo sujeitos a trovoadas, rajadas de vento e tempestades, mas nos encontramos no mesmo barco, embora alguns em posição singular. O timoneiro não pode agir sozinho, nem só ouvir “a hierarquia do comando”.  Quem escuta mais tem chances de errar menos, pois nem só de “ciência”, qual ciência (?), vive a humanidade. Diante do risco de tantas “imposições”, não é mau pensar nas “liberdades individuais”, se não comprometem a vida dos outros.  

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP

terça-feira, 31 de março de 2020

DECRETO SOBRE A SEMANA SANTA 2020


SEMANA SANTA 2020 -  DECRETO

A Diocese de São José do Rio Preto, partindo das orientações da Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, de 19 e 25 de março, do ano em curso, determina:

1. Seja realizada na igreja matriz de todas as paróquias e na Área Pastoral São João Paulo II, SEM A PRESENÇA DO POVO, apenas com a presença dos auxiliares estritamente necessários, as celebrações previstas para a Semana Santa;

2. No Domingo de Ramos seja usada a terceira fórmula, prevista no Missal Romano;

3. Segunda, terça e quarta, a missa seja celebrada, como estabelecida no Missal Romano, para cada dia;

4. Na Quinta feira santa, seja omitido o “lava-pés”; No término da Missa, omite-se a procissão e o Santíssimo Sacramento seja conservado no sacrário; Os sacerdotes que não são Párocos ou Administradores Paroquiais, podem celebrar a missa, sem presença do povo, em um local adequado, neste dia;

5. Na Sexta-feira santa, celebre-se às 15h00, a Paixão do Senhor, conforme previsto no Missal Romano. A adoração da cruz com o beijo é limitada apenas ao que preside a celebração. Na oração universal, acrescente a seguinte oração:

X. Pelos que padecem a pandemia do covid-19:
“Oremos ao Deus da vida, salvação do seu povo, para que sejam consolados os que sofrem com a doença e a morte, provocadas pela pandemia do novo coronavírus; fortalecidos os que heroicamente têm cuidado dos enfermos; e inspirados os que se dedicam à pesquisa de uma vacina eficaz.

Reza-se em silêncio. Depois o sacerdote diz:

“Ó Deus, nosso refúgio nas dificuldades, força na fraqueza e consolo nas lágrimas, compadecei-vos do vosso povo que padece sob a pandemia, para que encontre finalmente alívio na vossa misericórdia. Por Cristo, nosso Senhor. Amém!

XI. Por todos os que sofrem privações

.......

6. A Vigília Pascal seja celebrada, a noite, não antes das 19h30. Para o início da Vigília, omite-se o acender do fogo, acende-se o círio e, omitindo a procissão, segue-se o precônio pascal.  Segue-se a liturgia da Palavra. Para a liturgia batismal, apenas a renovação das promessas batismais deve ser mantida. Segue-se a Liturgia Eucarística.

7. No domingo de Páscoa, as missas sejam como previstas pelo Missal Romano, de acordo com o horário.

8. As transmissões pelos Meios de Comunicação sejam ao vivo, não gravadas;

9. Os fiéis sejam informados do horário de início das celebrações, para que possam participar da oração em seus lares.

10. A “Missa do Crisma” será celebrada em ocasião oportuna, ao término da quarentena.

11. Nas igrejas que possuem sinos, SUGIRO que eles sejam tocados, do domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa, em horários oportunos, em altura que não ultrapasse o previsto pela lei, por 30 segundos, no modo adequado a cada dia da Semana Santa.

Acolha meu abraço e saudação, com votos de santa Páscoa, extensivo aos fiéis da Paróquia colocada aos seus cuidados.

Amplexo e todo bem!

São José do Rio Preto, 31 de março de 2020.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

Pe. Júlio César Sanches Lázaro
Chanceler da Diocese

Prot. 114.20

terça-feira, 3 de março de 2020

VIDA: DOM E COMPROMISSO


De 26 de fevereiro a 09 de abril do ano em curso, durante a Quaresma, a Igreja Católica Apostólica Romana, no Brasil, realiza a 57ª Campanha da Fraternidade, com o tema: “Fraternidade e vida: dom e compromisso”; e o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34).

Deus é vida e comunica-a a nós com duração marcada para aqui e agora; mas imortal, ao sairmos da história. Viver é, de algum modo, participar da “natureza” mesma de Deus: a Vida nos permite viver. A vida não é fruto da mecânica ou do vitalismo da natureza, não é geração espontânea, mas realidade que recebemos de Deus criador, como dom a ser acolhido.

Ao sermos agraciados com a vida, assumimos um compromisso, como resposta ao dom recebido: viver bem e dignamente. Este compromisso não é só com a minha vida, mas com a vida das pessoas, e através delas, também com a vida da natureza. Diante da vida, qualquer forma de vida, é preciso ver, sentir compaixão e cuidar.

Assim, nesta Quaresma, “O olhar que se eleva para Deus, no mais profundo espírito quaresmal, volta-se também para os irmãos e irmãs, contempla o planeta, identificando a criação como presente amoroso do Senhor”.

A vida é ameaçada, ontem e hoje, de múltiplas formas: o aborto, a eutanásia, pelas consequências do empobrecimento, a violência (verbal, escrita, visual, gestual e armada). Destaco duas formas singulares de atentado contra a vida, que tem crescido, e se manifesta muito nos adolescentes e jovens: a automutilação e o suicídio. O que fazer diante desta triste realidade?

No noroeste do estado de São Paulo, há uma permanente ameaça à vida: a proliferação incontrolável do mosquito Aedes Aegypt, veículo causador de diversas doenças: dengue, zika, chikungunya, microcefalia e Guillain Barré. Entre nós, o grande tormento é a dengue, por enquanto.

Há anos, é feito um trabalho de conscientização e mobilização para que as famílias eliminem os focos de procriação deste inseto (Aedes Aegypt), mas não tem sido suficiente para diminuir a ação da “peste”.  É preciso ter a coragem de fazer algumas perguntas, para avançar no combate a este mal: continuam sendo, de fato, os domicílios os criadouros privilegiados do mosquito? Não há relação entre a intervenção humana na natureza e o aumento da reprodução do mosquito e do seu “fortalecimento genético”? A cultura predominante da cana, o uso intensivo de defensivos agrícolas, a alteração das “feições” da terra, não estão contribuindo, direta ou indiretamente, para os avanços do inseto?

A Campanha da Fraternidade de 2020 é um clamor para eliminar a indiferença que não deixa ver corretamente a realidade da vida frágil ou ameaçada, para destruir a insensibilidade que dificulta o sentir compassivamente a situação dos que possuem a vida ferida, e combater a preguiça que nos impede de nos curvarmos para cuidar dos que precisam. Para tanto, nos ajudarão a oração, a caridade e o jejum, continuado na penitência e na abstinência.

“A vida é dom e compromisso! Seu sentido consiste em ver, solidarizar-se e cuidar. A vida é essencialmente samaritana, tal qual o homem que interrompeu sua rotina para cuidar de quem estava caído à beira do caminho (cf. Lc 10,25-37). Não se pode viver a vida passando ao largo das dores dos irmãos e irmãs”.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto, SP

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A OBESIDADE, O JEJUM E A ABSTINÊNCIA



Não há semana, no Brasil, que os grandes grupos de comunicação não produzam e publiquem matérias, as mais diversas possíveis, sobre a obesidade. Ao que parece, o sobrepeso vai se tornando um grande problema de saúde pública, no Brasil e em outros países.

Talvez possamos afirmar, a partir da simples observação, que a obesidade esteja vinculada a maus hábitos alimentares: comemos, mas não consumimos o que e como devemos. “Matamos” a fome, mas nem sempre alimentamos adequadamente o corpo, o que trará reflexos à alma e ao espírito. Comemos o que não precisamos e além do que necessitamos.

Uma das práticas propostas pela Igreja Católica Apostólica Romana aos fiéis, no tempo da Quaresma, é a prática do jejum e da abstinência, atitudes salutares que fazem bem para o corpo, a alma e o espírito. São formas de privação voluntária, de livre escolha, de consumir alimentos, de modo total ou parcial, por algum tempo, com uma motivação espiritual e religiosa. Para isto, a Igreja inspira-se na vida e nas palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Antes de tudo, Nosso Senhor Jesus Cristo jejuou: “Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo diabo. ELE JEJUOU DURANTE QUARENTA DIAS E QUARENTA NOITES. Depois teve fome” ( Mt 4, 1-2 ).

Nosso Senhor Jesus Cristo ensina a jejuar: “Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo, eles já receberam a sua recompensa. TU, PORÉM, QUANDO JEJUARDES, PERFUMA A CABEÇA E LAVA O ROSTO, PARA QUE OS HOMENS NÃO VEJAM QUE TU ESTÁS JEJUANDO, MAS SOMENTE TEU PAI, QUE ESTÁ OCULTO. E O TEU PAI, QUE VÊ O QUE ESTÁ ESCONDIDO, TE DARÁ A RECOMPENSA” ( Mt 6, 16-18 ).

E ainda, Nosso Senhor Jesus Cristo preanuncia o nosso jejum: “DIAS VIRÃO EM QUE O NOIVO LHES SERÁ TIRADO. ENTÃO JEJUARÃO” ( Mt 9, 15). 

Na sociedade, há uma tentativa de ajudar as pessoas a cuidarem do corpo, seja por razões de saúde ou estética. Na estética corporal, afirma-se que vivemos a “ditadura do corpo perfeito”, com ampla frequência às atividades físicas, às academias, ao uso de suplementos alimentares, consultas a uma ampla gama de profissionais da medicina, da educação física e nutricionistas.

Por outro lado, os organismos governamentais começam a propor medidas educativas que ajudem as pessoas a se alimentarem melhor e a comerem somente o necessário, numa atitude preventiva contra possíveis enfermidades e doenças vinculadas à obesidade.

Na espiritualidade cristã, e para a Igreja Católica Apostólica Romana, o jejum e a abstinência são saudáveis para o corpo, a alma e o espírito, ajudando a eliminar o supérfluo e o excesso, abrindo espaço, através da sobriedade, ao que é essencial e fundamental para viver bem consigo mesmo, com o outro e com Deus. São práticas educativas que nos “moldam” ao modo de Deus.

Antes de mais nada, o jejum e a abstinência são remédios contra a gula, um pecado capital, isto é, que sempre conduz a outros pecados, como à ganância, ao egoísmo, a relações conflituosas, ao desperdício. 

O exercício do jejum e da abstinência abre espaço para a prática da caridade. O que não consumimos deve ser doado aos empobrecidos, para que tenham o necessário para uma vida digna. Não fique em nossa casa, ou em nosso bolso, o que pertence ao fragilizado. Desta forma, o jejum e a abstinência se tornam caminhos de solidariedade, de redistribuição dos bens, no reconhecimento de que os frutos da natureza e do trabalho humano possuem um fim social, se destinam a todos, na medida do que cada um precisa para viver bem e com dignidade. 

Ao conduzir a um modo de vida sóbrio, sem excessos, o jejum e a abstinência produzem reflexos na nossa casa comum, pois contribuem para não levar a natureza à exaustão, preservando a capacidade produtiva da terra por mais tempo e do modo mais natural possível, sem necessidade de uso excessivo de aditivos químicos que acabam por contaminar o meio ambiente.

Infelizmente, muitas pessoas, no Brasil e no mundo, sofrem o mal contrário à obesidade, isto é, a magreza extrema, fruto da fome involuntária. Outros ainda, na busca obsessiva da beleza corporal, tornam-se tão frágeis que podem chegar à morte, ou carregar sequelas por toda a vida.

Aproveitemos o tempo da Quaresma para praticar o jejum e a abstinência, o que só fará bem a nós, aos outros e ao mundo.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP