segunda-feira, 15 de abril de 2019

SÁBADO SANTO: SILÊNCIO, ESPERA E ESPERANÇA


“Que significa ‘subiu’, senão que ele desceu também às profundezas da terra? Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher o universo” (Ef 4, 9-10).
Em muitas regiões do Brasil, há um fato a ser recordado e celebrado em cada dia da Semana Santa. Mesmo diante da unidade do Tríduo Pascal, há em cada dia uma dimensão do Mistério Pascal a ser lembrado e rezado. Normalmente, no Sábado Santo, nossa atenção se volta para a Vigília Pascal, a grande noite e vigília dos cristãos. Mas o que “celebramos” durante o dia do sábado santo, antes da vigília?
“José de Arimatéia pediu a Pilatos para retirar o corpo de Jesus; ele era discípulo de Jesus às escondidas, por medo dos judeus. Pilatos o permitiu. José veio e retirou o corpo. Veio também Nicodemos, aquele que anteriormente tinha ido a Jesus de noite: ele trouxe uns trinta quilos de perfume feito de mirra e aloés. Eles pegaram o corpo de Jesus e o envolveram com os perfumes, em faixas de linho, do modo como os judeus costumam sepultar. No lugar onde Jesus foi crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ninguém tinha sido ainda sepultado. Por ser dia de preparação para os judeus, e como o túmulo estava perto, foi lá que eles colocaram Jesus” (Jo 19, 38-42).
Após o sepultamento “apressado” de Nosso Senhor Jesus Cristo, os que estiveram com Ele ao pé da cruz e prepararam seu corpo para o sepulcro, retornaram para casa. Para onde foi Maria, sua mãe? Para onde foi João, o discípulo amado? Onde estavam os apóstolos? Onde se recolheram os soldados responsáveis pela crucifixão?
“Só uma vez morrendo, da morte triunfais; aos mortos visitando, livrastes nossos pais”. Diz a fé que, sepultado, Nosso Senhor Jesus Cristo desceu “à mansão dos mortos” para chamar à vida os que viveram de esperança no Antigo Testamento, Ele foi levar a liberdade aos cativos do pecado e da morte. “Jesus conhece a morte como todos os seres humanos e com a sua alma esteve com eles na Morada dos Mortos. Mas para lá foi como Salvador, proclamando a boa notícia aos espíritos que ali estavam aprisionados. ” “Jesus não desceu aos infernos para ali libertar os condenados nem para destruir o inferno da condenação, mas para libertar os justos que o haviam precedido”. A Boa Nova foi anunciada aos mortos (cf 1Pd 4,6), a última fase da missão de Jesus, “condensada no tempo, mas imensamente vasta sua significação real de extensão da obra redentora a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, pois todos os que são salvos se tornaram participantes da Redenção. ”
Nós cristãos, corremos o risco de viver este dia, o sábado santo, de “modo paganizado”, envolvidos unicamente com o consumismo da época: a compra e o consumo do chocolate, dos bolos, da carne e do bacalhau, regados por farta bebida. Reina no ar um burburinho de indiferença ao mistério de Cristo morto e sepultado.
O sábado santo é o dia do silêncio. Deus morreu de amor, Deus morreu por amor. Deus silenciou-se. E o silêncio de Deus é um grito, um brado que clama na profundidade do coração humano. O Povo de Deus está de luto por seu Deus, um luto sagrado de esperança, esperança que Ele vai ressuscitar. O silêncio de Deus é o silêncio dos cristãos. O silêncio dos cristãos deveria ser o silêncio fecundo do mundo e da história.
“Um grande silêncio reina hoje na terra, um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei dorme. A terra tremeu e acalmou-se porque Deus adormeceu na carne e foi acordar os que dormiam desde séculos… Ele vai procurar Adão, nosso primeiro Pai, como uma ovelha perdida. Quer ir visitar todos os que se assentaram nas trevas e à sombra da morte. Vai libertar de suas dores aqueles dos quais é filho e para os quais é Deus: Adão acorrentado e Eva com ele cativa. ‘Eu sou teu Deus, e por causa de ti me tornei teu filho. Levanta-te, tu que dormes, pois não te criei para que fiques prisioneiro do Inferno. Levanta-te dentre os mortos, eu sou a Vida dos mortos’. ”
É interessante que um certo número de católicos continua no sábado santo o jejum iniciado na sexta-feira santa, e somente será quebrado após a celebração da Vigília Pascal. Assim, de maneira mais concreta, fazem do sábado um dia de espera, um dia de esperança, um dia de oração que precede a Vigília Pascal.
Seria bom, se no sábado santo, tivéssemos um significativo momento de silêncio, em oração. Uma oração sem palavras, mas silenciosa e de espera. Será a partir deste silêncio que entraremos na celebração da Vigília Pascal para ouvir o “Aleluia, Aleluia, Aleluia, Cristo ressuscitou! ”
(As citações são do Catecismo da Igreja Católica, 631-635)

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

sexta-feira, 12 de abril de 2019

MEDITAÇÃO PARA A MANHÃ DE ESPIRITUALIDADE DA QUARESMA – DIOCESE DE SJRP





 12 de abril de 2019

Quero nesta manhã de espiritualidade da quaresma de 2019, meditar sobre três estações da Via Sacra, uma vez que não é possível meditar aqui e agora as 15 estações: Verônica enxuga o rosto de Jesus; Simão Cirineu ajuda Jesus a Carregar a cruz; Jesus consola as mulheres de Jerusalém.

SIMÃO CIRINEU AJUDA JESUS A CARREGAR A CRUZ

“Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e mandaram-no carregar a cruz atrás de Jesus”(Lc 23, 26). 

No caminho do calvário, Simão de Cirene, se vê constrangido a tomar sobre seus ombros a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus estaria demasiadamente cansado, abatido, sem força, depois de uma noite de flagelação? Simão de Cirene não era de todo desconhecido, pois seu nome era lembrado. Era pai de Alexandre e de Rufo (Mc 15,21). Ele foi obrigado a carregar a cruz? Ou foi ele que se ofereceu para carregar a cruz?

Não temos a cruz de Jesus, mas temos muitas cruzes. Cruzes no corpo, como as enfermidades e as doenças; cruzes na alma, como as debilidades psicológicas; cruzes espirituais, como as tentações a que somos continuamente submetidos. Temos ainda as cruzes inerentes ao nosso ofício de sacerdotes, de cura de almas. Cruzes inerentes à nossa vida religiosa e consagrada. Cruzes. Dezenas de cruzes. Centenas de cruzes. Nossas cruzes pouco ou nada se assemelham com a cruz de Jesus. A sua cruz é instrumento de salvação. É uma cruz querida por Deus. Uma cruz que é a medida do amor. As nossas cruzes são tormentos que marcam de modo indelével a nossa vida, fruto da caducidade, da fragilidade e dos nossos pecados.

Para nós, Jesus é o cirineu, que nos ajuda a carregar as nossas cruzes. Para isso ele se fez homem. Em meio a tantas cruzes, Ele se aproxima de nós e as toma sobre si. Ele não as faz desaparecer, como num ato de mágica, mas as carrega conosco. Nunca estamos sós com nossas cruzes. Ele, o Crucificado, está conosco.

Simão de Cirene caminhou atrás de Jesus. Com nossas cruzes vamos também atrás de Jesus, pois ele não nos deixa extraviar, não nos deixa cansar, não nos deixa perder nas encruzilhadas. Jesus à frente exerce um “magnetismo” sobre nós, fortalecendo os nossos pés para caminharmos sempre, ainda que a passos curtos.


A VERÔNICA LIMPA O ROSTO DE JESUS 

“Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor, semelhante à minha dor”

É este lamento que ecoa na sexta-feira santa, cantado pela “Verônica”, enquanto desdobra a toalha com o rosto ferido de Jesus. 

Diz a tradição que uma mulher de nome “Verônica” foi ao encontro de Jesus, com uma toalha nas mãos e enxugou o seu rosto. E ficou estampada na toalha o rosto sofredor de Jesus. Ela fazia parte do grupo das mulheres que seguiam Jesus? Faria parte do grupo de mulheres que choravam no caminho do calvário? Ou era uma desconhecida que se encontrava ali casualmente? 

No rosto de Jesus, não havia apenas suor, mas também poeira e sangue. A mistura destes três elementos com os ferimentos transfigurou-lhe o visual: o mais belo dos filhos dos homens, transformou-se à semelhança de um verme, tão desfigurado se encontrava. 

Verônica ao contemplar esta situação não teve dúvida, passou por entre os soldados e limpou e o rosto de Jesus. A recompensa pelo ato de coragem foi a estampa impressa da sua face, a Sagrada Face.

Nosso coração é uma toalha que deve estar próximo de Jesus para ter nele impressa a Sagrada Face. Só quem é próximo, quem é discípulo, seguidor na vida, poderá ter impresso em si a Face de Cristo.  A proximidade, a intimidade, a cumplicidade, a amizade é que determinará termos ou não impressa em nós a Sagrada Face.

A intimidade espiritual com Jesus requer vida de oração e caridade. Uma vida de oração que brota da leitura orante da Palavra de Deus, se prolonga na adoração eucarística silenciosa, e tem seu ponto alto na Liturgia das Horas celebrada diariamente pelo bem do Povo de Deus. A caridade que leva à cumplicidade e amizade é o consumir-se por amor, nas tarefas próprias de nosso ministério ordenado e da nossa vida religiosa e consagrada. Uma doação cotidiana e sem reservas, saindo sempre ao encontro de Jesus, nos irmãos e irmãs, que se transformam em nossos filhos e filhas.

Quando a Sagrada Face de Jesus está impressa em nós, ela se torna visível aos que buscamos e com quem nos encontramos. Iluminados por ela, iluminamos. Refletimos em nosso ser o ser mesmo de Nosso Senhor Jesus Cristo.


JESUS CONSOLA AS MULHERES DE JERUSALÉM

“Seguia-o uma grande multidão do povo, bem como de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se para elas e disse: ‘Mulheres de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: ‘felizes as estéreis, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’. Então começarão a pedir às montanhas: ‘caí sobre nós!’, e às colinas: ‘escondei-nos!’. Pois, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?” (Lc 23, 27-31).  
  
Jesus é a árvore verde, nós somos a árvore seca. Ele, o consolador, nós os consolados. Ele, o salvador, nós os salvos. No caminho do calvário ele teve um tempo e força para dirigir-se às mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Pediu que não chorassem por ele, mas por elas mesmas e seus filhos. Se ele sofria, sofreriam também as mães, um sofrimento tão intenso, que seria melhor serem soterradas pelas montanhas ou escondidas pelas colinas. Seria esta palavra uma profecia? Seria dirigida somente às mães, mas a todos os discípulos, homens e mulheres?

“Chorai por vós mesmas”! Esta exortação é também dirigida a nós, ministros ordenados, religiosas e consagrados. Chorai por vós mesmos! Chorai por vós mesmos! As lágrimas são um dom. Chorar pelos pecados é uma graça. É necessário pedirmos a Deus o dom das lágrimas pelos nossos pecados. As lágrimas pelos pecados cometidos é sinal do verdadeiro arrependimento. Existem lágrimas físicas e espirituais. Normalmente as lágrimas espirituais se transformam também em lágrimas físicas. Embora, nem toda lágrima física seja também espiritual.

Podemos e devemos chorar pelas nossas misérias e fragilidades, que são fruto de nossa liberdade e de nossas escolhas. A percepção das escolhas erradas, viciadas, o consequente arrependimento, nos leva à lágrima. É a lágrima do amor arrependido, do caminho perdido, do desejo de voltar e receber o abraço do Pai misericordioso.

A lágrima espiritualizada nos provoca também a vergonha pelo mal cometido, a indignação por nós mesmos, a revolta por não correspondermos ao amor com que somos amados. Deus nos conceda o dom das lágrimas, hoje e sempre.


+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP  







segunda-feira, 1 de abril de 2019

O CRUCIFICADO

“Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos; porque, pela vossa Santa Cruz, remistes o mundo.”
A quarentena quaresmal é um tempo bom para nos voltarmos para a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e contemplarmos o mistério de seu sofrimento, paixão e morte na cruz. A nossa vida de fé está estreitamente vinculada a Cristo Crucificado, fonte da salvação para a humanidade, o mundo e a história.
São Paulo afirma: “Cristo fez-se por nós obediente até a morte e morte de Cruz”.  “A crucifixão é um ato de obediência. Um ato de unidade. Desde aquela hora, a Cruz é o Crucificado e o Crucificado é a Cruz”. Em nenhuma grande religião a “divindade” morre na cruz por amor, isto só acontece no cristianismo: Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus e homem, morre na cruz para mostrar o amor de Deus por nós. A cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo é a medida incomensurável do amor de Deus pelas criaturas.
Há um modo peculiar de unir-se a Nosso Senhor Jesus Cristo Crucificado, na quaresma, através do exercício piedoso da Via-Sacra. Através das estações do caminho sagrado, podemos percorrer no amor e na fé o roteiro da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. “Os passos dolorosos de Nosso Senhor Jesus Cristo, são os últimos passos do Salvador em sua via mortal. Importa acompanhar estes passos. Importa contemplar estes passos. Seguir estes passos. Beijar profundamente, intensamente, estes passos”.
O Crucificado é o sinal da fé, uma realidade histórica e de fé, que não deve ser supresso de nossas igrejas, capelas, espaços pastorais, das nossas casas e ambientes de trabalho. O Crucificado foi crucificado por todos e para todos, também para o mundo e a história; por isso, a sua representação, em escultura, pintura, ou de outro modo, deve ocupar todos os espaços para que nos faça elevar os olhos e o coração para a fonte da graça salvadora.
Há uma tendência de suprimir o Crucificado não só dos espaços comunitários e públicos, mas também dos espaços eclesiais. Outras vezes, em nome da ressurreição, usa-se a cruz sem o Crucificado. No entanto, para nós católicos, a cruz adquire a sua dignidade por causa do Crucificado. Sem o Crucificado, a cruz perde a sua razão de ser. “Quero bradar ao mundo o que sempre tentei esconder de mim: eu também estive lá! Eu também estive lá! Fui eu, ó meu Senhor e meu Deus, fui eu que vos preparei a Cruz: eu sou a vossa Cruz! Fui eu que vos preparei essa coroa de espinhos e esses cravos: eu sou vossa coroa de espinhos e vossos cravos! Se pareceis um leproso, a vossa lepra sou eu! ”
A contemplação do amor de Deus no Crucificado nos faz compassivos com os sofredores do nosso tempo: os que sofrem por causa da fé; o que sofrem de doença e enfermidade no corpo, na alma e no espírito; os que sofrem as violências dos outros; os que sofrem as misérias, fruto das injustiças, das guerras, da ação política, econômica e social dos que governam e dos que dominam as estruturas das sociedades. Olhados pelo Crucificado, olhamos para os sofredores. “O amor não estabelece condições, não calcula, não publica tabela de preços: ama! ” A caridade de Deus para conosco, nos leva à caridade e à comunhão com os novos crucificados, para os quais a cruz não é um madeiro, mas um modo de vida não adequado aos filhos de Deus.
A cruz do Crucificado é ocupada de um lado só, pois o outro lado é o meu espaço, para crucificar-me com Ele, morrer com Ele, para ressuscitar com Ele. Não devo temer a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, não devo fugir dela, mas ocupá-la no espaço que nos é destinado. Crucificados com Ele, sentir o seu coração ferido ainda pulsando de amor, partilhar de sua agonia, beber com ele o fel dos homens, ser perdoado e por Ele e com Ele perdoar, n’Ele e com Ele entregar o meu espírito a Deus.
Nesta quaresma vamos focar nosso olhar e coração na pessoa do Crucificado. Que o sangue jorrado do Crucificado nos purifique dos nossos pecados e restaure as nossas forças. Contemplando Nossa Senhora da Piedade, que tem o corpo morto de Nosso Senhor Jesus Cristo em seus braços, rezemos: “Agora o desconforto de ver-me nu, o corpo chagado, sem parte sã, todo arroxeado dos golpes que Lhe dei…Sim, porque Esse que repousa em vossos braços, Senhora, sou eu! Aí o meu desatino. Aí o meu pecado. O meu pecado … Deixai que vossas espadas me purifiquem, vossa dor me reconforte! E que eu volte, ó Mãe, muito embora descalço e vestido de cilício, a ser na alma o menino de outrora, o menino irmão de Jesus!”.
(As citações são de um texto de Via-Sacra, escrita por Frei Abel Correia Pinto)

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

quinta-feira, 28 de março de 2019

O EXERCÍCIO ESPIRITUAL DA VIA-SACRA

Denominamos de Via-Sacra, caminho sagrado, o trecho percorrido por Nosso Senhor Jesus Cristo desde a sua condenação, na casa de Pilatos, até ao local do seu sepultamento. É o caminho da expressão maior da condenação e sofrimento do justo inocente, da morte na cruz e da escuridão silenciosa do sepulcro. Mas é também a revelação da misteriosa misericórdia de Deus, que não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.
Todo dia é dia para rezar a Via-Sacra, mas não há tempo melhor que a quaresma para fazê-la de modo individual ou comunitariamente. São quatorze estações, ou momentos, que nos permitem contemplar e participar do mistério de Cristo sofredor, desde a sua condenação até o seu sepultamento. A cada semana da quaresma, a sexta-feira é o dia adequado para rezarmos a Via-Sacra.
A nossa vida de fé é também feita de orações. Orações litúrgicas e não litúrgicas, propostas ou não diretamente pela Igreja. Muitas orações chegam até nós através da piedade popular. É isto o que ocorre com a Via-Sacra, uma fórmula de oração que chegou até nós através da piedade popular, também recomendada pela Igreja, e que deve ser redescoberta e revalorizada no nosso dia a dia, mas sobretudo no tempo da quaresma. Fazer a Via-Sacra é voltar no espaço e no tempo e ir ao encontro de Jesus sofredor e fazer-se participante espiritual do seu caminho de dor e morte.
A oração da Via-Sacra é cristocêntrica, dirige nosso olhar e coração para a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. É marcada pela leitura de textos da Sagrada Escritura que ilustram os quatorze momentos da paixão do Divino Salvador até a sua sepultura. Cada estação é uma pequena leitura orante da Sagrada Escritura, que nos ajuda a compreender corretamente a glorificação de nosso Redentor.
Após a meditação bíblica de cada estação, um momento de oração, sempre concluído com as orações do Pai Nosso, da Ave Maria e da invocação da Santíssima Trindade. No início, após o anúncio do fato recordado em cada estação, há a recitação de uma jaculatória: “Nós vos adoramos Senhor Jesus Cristo e vos bendizemos; porque pela vossa santa cruz remistes o mundo.” Enquanto rezamos a jaculatória fazemos uma alongada genuflexão, isto é, colocamos o joelho direito no chão. Enquanto se dirige de uma estação para outra, há um canto, um lamento, que nos introduz na nova meditação. O refrão é uma prece de perdão elevada a Cristo, através da intercessão de Nossa Senhora das Dores: “Pela Virgem Dolorosa, vossa mãe tão piedosa, perdoai-me meu Jesus, perdoai-me meu Jesus!”
São estas as quatorze estações da Via-Sacra: Jesus é condenado à morte; Jesus toma a sua cruz; Jesus cai pela primeira vez; Jesus encontra a sua mãe; o Cirineu auxilia Jesus; a Verônica limpa o rosto de Jesus; Jesus cai pela segunda vez; Jesus consola as santas mulheres; Jesus cai pela terceira vez; Jesus é desnudado; Jesus é crucificado; Jesus morre na cruz; Jesus no regaço de Maria; Jesus é sepultado. Em alguns lugares, foi acrescentado uma décima quinta estação, recordando a ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Ao menos na sexta-feira de cada semana da quaresma, ou em outro dia melhor para cada um, retiremos meia hora para rezarmos a Via-Sacra, em casa, na nossa rua, no prédio ou no condomínio, ou na igreja, deixando que a sua dinâmica nos conduza ao mistério da paixão, morte e sepultamento do Senhor. Se assim fizermos, também estaremos nos preparando para celebrar o mistério pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

+ Tomé Ferreira da Silva
Bispo Diocesano de São José do Rio Preto/SP

segunda-feira, 18 de março de 2019

O que a Igreja diz sobre a teoria da evolução?


Reflita, através dos pensamentos da Igreja, sobre a origem da vida
Na Encíclica “Fides et ratio” (1998), o Papa São João Paulo afirma que “a fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou, no coração do homem, o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, conhecê-Lo, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”. O Papa estimula um diálogo honesto e aberto entre a fé e a ciência, e que não pode haver contraposição, pois buscam a verdade e, de modo diferente, devem chegar a Deus. Graças à investigação científica, compreendemos muito melhor a grandeza do universo e a presença de Deus. A Igreja Católica é “apaixonada” pelas diversas ciências.
A teoria da evolução é um tema relevante nos debates em torno da vida e mais especificamente, do início da vida humana, e envolve questões científicas, filosóficas e teológicas, cada uma com sua especificidade e autonomia. Deve-se haver uma aproximação entres os diferentes campos de investigação sem a sobreposição de um sobre o outro. Não podemos fazer uma leitura materialista e redutiva nem mesmo leituras espiritualistas sobre a origem do ser humano. A Igreja acredita que não existe, a priori, contraposição entre fé e a ideia da evolução, ainda que o Papa Bento XVI não compartilhe das teorias que explicam a existência da humanidade só como resultado do acaso e que, para São João Paulo II, Darwin não bastasse para explicar a origem do homem. No entanto, as autoridades religiosas encorajam um diálogo franco e respeitoso com os saberes e a cultura científica do nosso tempo.
Em sua Encíclica “Humani generis” (1950), Pio XII afirmava que “o magistério da Igreja não proíbe que nas investigações e disputas entre homens doutos de ambos os campos se trate da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente (pois a fé nos obriga a reter que as almas são diretamente criadas por Deus), segundo o estágio atual das ciências humanas e da sagrada teologia, de modo que as razões de uma e outra opinião, isto é, dos que defendem ou impugnam tal doutrina, sejam ponderadas e julgadas com a devida gravidade, moderação e comedimento”.1 Pio XII encorajava um confronto “sério, moderado e temperado”, porém, o Pontífice insistia em afirmar que “a fé católica manda defender que as almas são criadas imediatamente por Deus no momento da concepção”.
Com os avanços científicos, as novas descobertas neste campo e a exegese bíblica, levam ao reconhecimento da teoria da evolução como mais do que uma hipótese. Esta teoria tem sido mais aceita pelos pesquisadores, fundamentados em uma série de descobertas em vários campos do conhecimento e com argumentos significativos na defesa dessa teoria.
O que disse os papas?
Em 22 de outubro de 1996, São João Paulo II fez um discurso na Pontifícia Academia das Ciências afirmando que a evolução “já não era uma mera hipótese, mas uma teoria”. O Papa declarou que a Igreja estava interessada diretamente na questão da evolução, porque esta influi na concepção do homem, “sobre o qual a Revelação mostra que foi criado à imagem e semelhança de Deus”. Continua o Papa: “Não basta a evolução das espécies para explicar a origem do gênero humano, como não basta a casualidade biológica para explicar por si só o nascimento de uma criança”.
Papa Bento XVI afirma que chegamos à fé por meio da razão, apoiando o diálogo entre fé e ciência. O Pontífice não concorda, no entanto, com o evolucionismo radical. Em visita à Alemanha, em setembro de 2006, criticou o que chamou de “essa parte da ciência que se empenha em buscar uma explicação do mundo na qual Deus é supérfluo”. Joseph Ratzinger considerou, na ocasião, “irracionais” as teorias que consideram a existência da humanidade um “resultado do acaso” e destacou que, para os cristãos, “Deus é o criador do céu e da terra, e que para entender a origem do mundo é preciso ter Deus como ponto de referência”.
Para Bento XVI, a fundação do cosmos e sua evolução estão na sabedoria divina, isto é, “não quer dizer que a criação só tem a ver com o começo do mundo e da vida”…, implica também que Deus abarca essa evolução e a apoia, a sustenta continuamente, completou o Papa na Pontifícia Academia das Ciências. Para o Papa não há oposição entre “a fé da compreensão da criação e a evidência empírica da ciência”. Em uma homilia do Papa Bento XVI, na Solenidade da Epifania do Senhor, quinta-feira 6 de janeiro de 2011, lemos: “Não deveríamos deixar limitar a nossa mente por teorias que chegam apenas a um certo ponto e que, se olharmos bem, não estão de modo algum em concorrência com a fé, mas não conseguem explicar o sentido derradeiro da realidade. Na beleza do mundo, no seu mistério, na sua grandeza e na sua racionalidade não podemos deixar de ler a racionalidade eterna, e não podemos deixar de nos fazer guiar por ela até ao único Deus, Criador do céu e da terra”.
O que podemos concluir?Sabemos que a Bíblia não pretende explicar cientificamente a criação do mundo. Os relatos do Gênesis são uma história religiosa que fala de todas as criaturas, que afirma que todas têm origem em Deus e na Sua palavra criadora.
A Igreja reconhece a existência de um processo evolutivo, mas também insiste em afirmar “o envolvimento de Deus” nesse processo. Para a Igreja, ter fé não significa ser contra a teoria da evolução, desde que seja entendido que esta evolução foi querida por Deus, programada e executada por Ele. Podemos falar de projeto inteligente de Deus, ou seja, a inteligência divina fez com que as coisas mudassem com a intervenção de Deus direta, gradual, pedagógica e providencial.
O magistério católico não aceita a teoria da eternidade do universo, pois faria dele um absoluto, um deus. Só Deus é eterno; só Deus não teve começo e não terá fim. O eterno é perfeito, não evolui. O universo evolui, teve início e terá fim. Admitimos um evolucionismo teísta, ou seja, que tem Deus como origem, condução e fim. Deus revela-se na criação. É bom e útil para nós deter-nos a contemplar a grandeza e as maravilhas de Deus nas suas obras pequenas e grandes. Devemos compreender que admitir a evolução não significa não acreditar na alma humana, imortal e racional, criada diretamente por Deus e colocada no momento da concepção do ser humano.
A Igreja entende a visão científica da evolução como “causas materiais”. A teoria da evolução, por exemplo, explica como as espécies vieram a ser e como, em determinados contextos, elas deixaram de ser. Como o Papa João Paulo II observa, na mensagem à Pontifícia Academia das Ciências, a teoria da evolução não explica a natureza do ser humano, dotado de uma alma intelectual que anseia por sobreviver à morte do corpo. A natureza do ser humano é mais que biológica, vai além do material. Entender o ser humano na complexidade de sua natureza que não se reduz à matéria é tarefa da filosofia e da teologia, e não dos cientistas. A teoria científica da evolução não oferece explicações da iniciativa de um Deus que cria o cosmos por amor, a partir do nada. Origem da matéria é uma coisa, porém da alma é tema da filosofia e teologia.
Toda teoria científica que nega a imaterialidade da alma humana ou que afirma que a teoria da evolução exclui a noção de um Deus criador não está de acordo com a fé católica, tanto no campo científico quanto no filosófico e no teológico. A Igreja está sempre aberta ao diálogo com as teorias da evolução que ajudam a explicar os aspectos materiais do universo.
1 Cf. Alocução à Academia das Ciências, 30 nov 1941; AAS, 33(1941), p.506.
Fonte: Canção Nova